
JOSEPH KESSEL
(Da Academia Francesa)


A BELA DA TARDE

Romance


Traduo de R. Magalhes Jnior




Quarta edio brasileira: abril de 1977

Traduzida de Belle de Jour

Copyright (c) 1928 Libraire Gallimard



Contratados todos os direitos de edio por

BLOCH EDITORES S. A.
Rua do Russell, 804
Rio de Janeiro - Brasil













               A SANDI

Da capa do livro:


   A BELA DA TARDE est longe de ser, e o autor faz questo de fris-lo, o romance de uma aberrao sensual, versando, bem pelo contrrio, uma tragdia de amor. 
No acreditar nisso corresponderia a  cair num equvoco, tanto de ordem literria quanto de ordem psicolgica. De qualquer maneira, a arte invulgarmente trabalhada 
de Joseph Kessel transforma o volume num estudo sensvel, delicado, da alma feminina, mal se dando conta o leitor do ngulo de baixeza moral em que repousa um dos 
eixos da ao. Os tipos, recortados em carne e sangue, vivem como gente de carne e sangue. Sverine, a personagem central, seu marido, seu amante, o homem que a 
persegue com seu desejo, as mulheres com as quais convive, tudo se anima, cresce e age como criaturas modeladas num sopro humano. De pgina para pgina, vai tomando 
corpo uma espcie de frenesi de que o leitor no consegue escapar. O cinema fez de A Bela da Tarde, sob o ttulo de Belle de Jour, um filme nascido clssico e que 
obteve sugestiva premiao. Carreira igual espera a caprichada traduo brasileira.
   

   
   
 Prefcio
    
    
    
    Jamais gostei de prefcios que explicam os livros, e muito me desagradaria parecer que estou pedindo desculpas por ter escrito este. Nada escrevi que me fosse 
to caro, e creio ter posto nele o acento mais humano. Tal linguagem poderia deixar de ser compreendida? Mas sei que existe um mal-entendido e tenho profundo empenho 
em dissip-lo.
    Quando este romance apareceu, parceladamente, em Gringoire, os leitores desse jornal reagiram com alguma vivacidade. Uns tantos me acusaram de intil licenciosidade 
e, at mesmo, de pornografia. No h como responder-lhes. Se o livro no conseguiu convenc-los, tanto pior, para eles, ou para mim - no sei ao certo; em todo caso, 
nada posso fazer. Expor o drama de uma alma e da carne, sem falar to livremente de uma como da outra, parece-me impossvel. No creio ter passado da medida permitida 
a um escritor que jamais se servia da luxaria como uma isca para engodar leitores.
    Abordando o assunto que escolhera, eu conhecia o risco que ia correr. Mas, terminado o romance, tive a impresso de que ningum poderia interpretar mal as intenes 
do autor. De outro modo, este livro no teria sido publicado.
    preciso saber desprezar o falso pudor do mesmo modo que se desdenha o mau gosto. Os ressentimentos de ordem social no me perturbam. Mas o desapreo de ordem 
intelectual me lacera. Foi para dissip-lo que decidi escrever um prefcio, coisa em que jamais pensara.
    "Que caso extraordinrio", disseram-me vrias vezes. Mas certos mdicos me escreveram, declarando que conheciam Sverine. Ao parecer desses mdicos, era evidente 
que este romance era o resultado feliz de uma observao patolgica. Ora, foi isso, precisamente, o que no desejei dar a entender. A pintura de um monstro no me 
interessa, mesmo que seja perfeita. O que tentei mostrar neste livro foi o terrvel divrcio entre o corao e a carne, entre um verdadeiro, imenso e terno amor, 
e a exigncia implacvel dos sentidos. Conflito que, com raras excees, cada homem, cada mulher que ama por longo tempo, carrega dentro de si. Apercebido ou no, 
ativado ou adormecido, ele existe. Antagonismo banal, tantas vezes descrito! Mas, para lev-lo a um grau de intensidade que permita aos instintos manifestar-se na 
plenitude de sua grandeza e de sua eternidade, era necessria, a meu ver, uma situao excepcional. Eu deliberadamente a concebi, no por gosto pessoal, mas por 
ser o nico meio de tocar, de forma mais segura e mais acerada, o fundo de qualquer alma que encerre esse trgico embrio. Escolhi esse assunto como quem examina 
um corao enfermo para melhor descobrir o que se oculta num corao sadio, ou como se estudam as perturbaes mentais para compreender os movimentos da inteligncia.
    O assunto deste livro no  a aberrao sensual de Sverine:  o seu amor por Pierre, independente dessa aberrao, e  a tragdia desse amor. Acaso serei eu 
o nico a me compadecer de Sverine, de a amar?
   
   
 
 
 Prlogo
   
   
   
    Para ir de seu quarto ao de sua me, Sverine, que tinha oito anos, devia atravessar um longo corredor. Esse trajeto a aborrecia: ela o fazia sempre s carreiras. 
Uma porta que, nesse corredor, dava para o banheiro, acabara de se abrir. Um bombeiro apareceu. Era pequeno e atarracado. Seu olhar, filtrando-se atravs de umas 
raras pestanas ruivas, pousou sobre a menina. Sverine, embora sendo petulante, sentiu medo e recuou.
    Esse movimento decidiu o homem. Ele lanou um breve golpe de vista em tomo e, depois, com as duas mos, atraiu Sverine. Ela sentiu vir ao seu encontro um odor 
de gs, de fora. Dois lbios, num rosto mal barbeado, lhe queimaram o pescoo. Ela se debatia.
    O operrio ria em silncio, sensualmente, enquanto as mos, sob as roupas, alisavam-lhe o corpo tenro. Sverine no se defendeu mais. Estava toda inteiriada, 
branca. O homem a deps sobre o soalho, afastando-se sem rudo.
    A governanta encontrou Sverine estendida. Acreditaram, que escorregara e cara. Ela tambm o acreditou.
   
  
  
  1
   
   
   
   Pierre Srizy verificou se o cavalo estava perfeitamente selado. Sverine, que acabava de colocar os patins para esquiar na neve, perguntou:
   - Ests pronto?
   Ela vestia um trajo masculino, de grossa l azul, mas tinha as formas to firmes e to puras que a vestimenta no engrossava o seu corpo impaciente.
   - Creio que no preciso recomendar-te a mxima prudncia - disse Pierre.
   - Mas no me arrisco a nada, meu querido. E a neve est to limpinha que cair nela  um prazer. Vamos, decide-te!
   Com um impulso ligeiro, depois de colocar o p no estribo, Pierre subiu na sela. O cavalo no deu um passo. No teve sequer um estremecimento. Era um animal possante 
e plcido, habituado mais aos simples passeios que s corridas. Sverine agarrou-se s longas correias fixadas na sela e afastou ligeiramente um p do outro. Ensaiava-se, 
pela primeira vez, nesse esporte, e a ateno mantinha a sua fisionomia um tanto crispada.
   E assim ressaltavam defeitos que escapavam ao observador quando a sua fisionomia se animava: o queixo muito quadrado, as mas do rosto salientes. Mas Pierre 
apreciava essa violenta firmeza expressa no rosto de Sverine.
   - Partamos! - gritou ele, por fim.
   As rdeas que Sverine tinha nas mos se retesaram, e ela sentiu que comeava a deslizar lentamente.
   A princpio, ela no se preocupou seno com o seu equilbrio e em no parecer ridcula. Antes de encontrar o espao livre, eles teriam de atravessar de ponta 
a ponta a nica avenida daquela pequena cidade sua. A essa hora, todo mundo a cruzava. Com seu largo sorriso, Pierre cumprimentava camaradas de esporte ou de bar, 
as jovens mulheres em trajos masculinizados ou estendidas em seus trens de cores vivas. Mas Sverine no via ningum, atenta somente s balizas que anunciavam a 
aproximao do campo: a igreja com sua pequena praa e sem mistrio... a quadra de patinao... o rio muito sombrio entre ribanceiras muito brancas... o ltimo hotel, 
que abria suas janelas sobre os campos juncados de neve.
   Depois de ultrapass-lo, Sverine respirou melhor. Agora poderia dar um trambolho, e ningum testemunharia a sua queda. Ningum, exceto Pierre. Mas, ele, no
fazia mal. E a jovem senhora sentiu-se embelezada por todo o seu amor, que nesse instante latejava em seu peito, com se fosse um terno animal vivo. Ela sorriu, contemplando 
a nuca queimada de sol e as belas espduas do marido. Ele nascera sob o signo da harmonia e da fora. Tudo quanto fazia era certo, justo e to natural!
   - Pierre! - chamou Sverine.
   Ele se voltou. O sol, atingindo-o em pleno rosto, obrigou-o a semifechar os grandes olhos cinzentos.
   - Que delcia! - disse a jovem esposa.
   O vale nevado se estirava em curvas de tal doura que pareciam calculadamente elaboradas. L no alto, ao redor dos picos das montanhas, algumas nuvens flutuavam. 
Pelas rampas, viam-se os esquiadores deslizando com o movimento alado, insensvel, dos pssaros. Sverine repetiu:
   - Que delcia!
   - E isso ainda no  tudo - disse Pierre.
   - Ele esporeou os flancos do cavalo, que comeou a trotar.
   - Agora est comeando - pensou a jovem esposa.
   Uma espcie de angstia feliz se expandiu nela que, pouco a pouco, se encheu de alegria e de segurana. Sverine se mantinha perfeitamente bem sobre os patins, 
que a levavam. No precisava seno ceder ao movimento deles. A tenso de seus msculos ia-se relaxando. Ela controlava com facilidade o jogo macio dos esquis. Lentos 
trens carregados de lenha cruzavam com eles e, sentados de lado, com as pernas pendentes, vinham homens de fisionomia angulosa, queimados de sol. Sverine lhes 
sorria.
   - Muito bem, muito bem - gritava-lhe Pierre, de tempos em tempos.
   A jovem mulher tinha a impresso de que essa voz jubilosa e magntica vinha dela mesma. E, quando ouvia a palavra ateno, j um reflexo no a tinha advertido 
de que o prazer que experimentava poderia tornar-se ainda mais vivo? A nobre cadncia do galope martelava a estrada. Esse ritmo invadia Sverine. A velocidade assegurava 
to bem o seu equilbrio que ela no mais se preocupava e podia entregar-se inteiramente  alegria primitiva que a inundava. Nada mais existia no mundo, a no serem 
as pulsaes de seu corpo, condicionadas pela extenso da corrida. No mais se sentia arrastada: parecia que ela mesma dirigia esse movimento imperioso e cadenciado. 
Reinava sobre ele, ao mesmo tempo escrava e soberana.
   E que brancura radiosa em torno de tudo! E o vento gelado, fluido como o ter, puro como as fontes, como a juventude...
   - Mais depressa, mais depressa! - gritava Sverine.
   Mas Pierre no tinha necessidade dessas excitaes, c o cavalo nem precisava ser por ele fustigado. Os trs formavam um s bloco animal c feliz.
   Como deixavam a estrada, fizeram uma volta brusca. Sverine no soube dominar os movimentos e, largando as rdeas, mergulhou parcialmente na neve acumulada junto 
ao talude, nas bordas do caminho. Mas era to macia, to fresca, que sem dar ateno  gua gelada que escorria s suas costas, ela experimentou uma nova alegria. 
Antes que Pierre pudesse socorr-la, j estava de p, cintilante. Retomaram o passeio. E, ao chegarem diante de um pequeno albergue, Pierre se deteve.
   - Daqui por diante, no h mais pista. Descansemos um pouco.
   A hora era matinal. No havia ningum no salo. Pierre encarou-a por um instante e props:
   - Vamos l para fora, queres? O sol est bem quente.
   Enquanto a dona do albergue os acomodava diante do edifcio, Sverine perguntou:
   - Compreendi imediatamente que este albergue te desagradou. Por qu?  to limpinho!
   -  limpo demais.  fora de ser lavado, no lhe resta mais nada. Entre ns, h uma espcie de patina at na menor das tavernas. Pode-se respirar, atravs dela, 
a atmosfera de toda uma provncia. Aqui, creio que ainda no reparaste em como tudo est em dia: as casas, as pessoas. No h sombra, no h passado, nem desgnios 
secretos, quero dizer: no h vida.
   - Ests sendo muito gentil comigo - disse Sverine, rindo. - Em me falares assim, tu que dizes amar em mim principalmente a minha clareza...
   - Tens razo. Mas tu s o meu vcio - replicou Pierre, tocando com os lbios o cabelo de Sverine.
   A dona do albergue lhes serviu po integral, queijo curtido e cerveja. Tudo isso desapareceu rapidamente. Pierr3 e Sverine comeram com esplndido apetite. De 
quando em quando, atravs da estreita garganta que se estendia, serpenteando, a seus ps, seus olhares se dirigiam aos pinheiros que delicadamente sustinham, em 
cada um de seus ramos, um fuso de neve, ao redor do qual o cu e o sol formavam um halo entre cinza e azulado.
   Um pssaro veio pousar no longe deles. Tinha o ventre de um amarelo cintilante e as asas cinzentas estriadas de negro.
   - Que belo pssaro - exclamou Sverine. - Tem um lindo colete amarelo...
   -  um abelharuco, um macho. As fmeas so mais delicadas, mas menos belas...
   - Como ns, mulheres, ento.
   - Isso  que no sei...
   - Ora, ora, meu querido. Sabes muito bem que, de ns dois, s o mais bonito. Muito mais. E como eu te adoro quando ficas com esse ar encabulado!
   Pierre desviara a cabea, e Sverine via apenas o seu perfil, um tanto infantilizado pelo encabulamento em que ela o colocara. Mas havia, nessa fisionomia petulante, 
uma expresso que comovia fundamente a jovem mulher.
   - Quero dar-te um beijo - disse ela.
   Mas Pierre, que, para desviar o assunto, tinha amassado uma bola de neve, declarou:
   - Tenho vontade de atirar esta bola em ti!
   Mal acabara de falar, e j recebia na fronte um punhado de p gelado. Respondeu. Durante alguns segundos, os dois se bateram com projteis de neve, encarniadamente. 
A dona do albergue correu para o ptio, ao ouvir o rudo das cadeiras viradas, e eles se detiveram, confusos. Mas a velha senhora se limitou a sorrir maternalmente, 
e foi com um sorriso igual que Sverine penteou Pierre, antes que ele tornasse a montar a cavalo.
   Mesmo atravs da pequena cidade eles passaram numa desfilada, com o cavalo a galope, e se valiam dos gritos de advertncia que dirigiam aos passantes como uma 
forma de liberar a sua prpria alegria.
   Sverine e Pierre ocupavam no hotel dois quartos que se comunicavam internamente. Quando a jovem senhora entrou no seu, disse ao marido:
   - Vai trocar de roupa, Pierre. E fricciona-te bem. A manh est muito fria.
   Como Sverine tremesse um pouco, Pierre se props para ajud-la a despir-se.
   - No, no - exclamou ela. - Vai fazer o que eu te disse.
   Aos olhos de Pierre, bem como aos dela mesma, Sverine compreendeu que imprimira excessiva vivacidade a essa recusa, tanto mais que ele no lhe dera apenas uma 
simples demonstrao de solicitude. "Fazer isso, apenas dois anos depois do casamento!" - pareciam recriminar os olhos de Pierre. E Sverine sentiu o calor subir-lhe 
s mas do rosto.
   - Despacha-te - disse ela, nervosamente. - Do contrrio, vais fazer-nos apanhar um resfriado...
   Quando Pierre abria a porta, Sverine juntou-se a ele por um instante e apertou-o contra si:
   - Que belssimo passeio fizemos, meu querido. A cada minuto me tornas ainda mais feliz.
   Pierre reencontrou a esposa com um vestido preto, sob o qual se adivinhava a liberdade de uma bela carne, um pouco rija. Ele no disse palavra, durante alguns 
segundos, nem ela, tampouco. Tinham um prazer tcito em se contemplarem. Depois, ele a beijou no ponto em que o pescoo se une maciamente s espduas. Sverine acariciou-lhe 
a cabea. Pierre sentiu nesse gesto uma nuana essencialmente amistosa que sempre o intimidava. Levantou bem depressa a cabea, para ser o primeiro a afastar-se, 
e disse:
   - Desamos, queres? Estamos atrasados.
   Rene Fvret os esperava na confeitaria vienense. Essa mulher, pequena, elegante e viva, toda movimento e animao vocal, casara-se com um amigo de Pierre, cirurgio, 
como este. Tomara-se de uma afeio profunda e desordenada por Sverine, vencendo as reservas da jovem esposa de Pierre, ao ponto de acabarem por se tratar por tu.
   Assim que percebeu os Srizy no umbral do estabelecimento, Rene gritou-lhes, atravs da sala, agitando um leno:
   - Aqui! Estou aqui... No  nada agradvel ficar sozinha no meio desses alemes, ingleses e iugoslavos... Querero vocs que eu me sinta no estrangeiro?
   - Peo-lhe desculpas - disse Pierre. - O nosso puro-sangue nos levou muito longe...
   - Eu os vi, quando voltavam. E como estavam bonitos, os dois. E tu, Sverine, parecias um elegante homenzinho vestido de azul... Ento, que  que querem tomar? 
Martini? Coquetel de champanha?... Ah, eis a Husson... Ele nos dar uma idia.
   Sverine cerrou ligeiramente o sobrecenho.
   - No o convides - murmurou.
   Rene respondeu muito depressa - ou pelo menos assim pareceu a Sverine:
   - Agora, no posso mais evitar, querida. J lhe fiz um aceno...
   Henri Husson esgueirou-se entre as mesas, com agilidade e despreocupao. Beijou a mo de Rene e, depois, a de sua amiga - longamente. O contato desses lbios 
foi to desagradvel a Sverine como um equvoco. Quando Husson se endireitou, ela o olhou face a face. Ele suportou essa inquisio, sem um movimento de seu olhar 
emaciado.
   - Venho da quadra de patinao - disse ele.
   - Fez-se admirar bastante? - perguntou Rene.
   - No. Fiz apenas algumas figuras. Havia uma verdadeira multido. Preferi olhar os outros, o que  bastante divertido, quando h patinadores hbeis. A minha impresso 
 a de que obedecem a formas algbricas anglicas.
   Sua voz, que contrastava com a imobilidade e a usura de seus traos, era febril, rica de inflexes e de uma qualidade musical singularmente atrativa. Usava-a 
discretamente, como se ignorasse o seu poder. Pierre, que gostava de ouvi-lo, perguntou:
   - E havia mulheres bonitas?
   - Uma meia dzia, o que foi uma sorte. Mas onde se vestiro elas? Lembra-se, madame - e ele se dirigia a Sverine -, daquela dinamarquesa alta, que mora em seu 
hotel?... Imagine que trazia um vestido de tric verde-oliva, com listras, juntamente com uma charpe cor-de-rosa...
   - Que horror! - exclamou Rene.
   Husson prosseguiu, sem tirar os olhos de Sverine:
   - Essa criatura, alis, com as ancas estreitas e os seios imperceptveis que tem, devia andar mesmo era nua...
   - Vocs no so nada exigentes - disse Pierre, rindo. - Sobretudo voc... - Dirigia-se a Husson, tocando a espessa pelia em que ele estava envolvido, apesar 
do aquecimento do local, e que no deixava aparecer seno suas longas e belas mos friorentas.
   - A vestimenta, na mulher, est em funo da sensualidade - prosseguiu Husson. - Vestir-se, quando uma mulher  casta, me parece obsceno...
   Sverine tinha voltado a cabea, mas sentia incidir sobre ela um olhar tenaz. Muito mais do que as palavras de Husson, essa obstinao em dedic-las a ela provocava 
em Sverine um vivo constrangimento.
   - Em suma: os anjos da patinao lhe desagradam? - perguntou Rene. - No disse isso. Ainda que o mau-gosto me parea irritante, o espetculo que ele oferece 
 sempre agradvel.
   - Quer dizer que, se algum quiser despertar a sua ateno - replicou Rene, com uma alegria que Sverine achou menos espontnea e livre que de costume -, precisa 
vestir-se ridiculamente...
   - Mas no, mas no - ops Pierre. - Eu o compreendi muito bem.  que h certa provocao num desencontro de cores. Isso lembra certos maus lugares, no  mesmo, 
Husson? 
   - Os homens so to complicados, no achas? - perguntou Rene a Sverine.
   - Ests ouvindo, Pierre?
   Ele comeou a rir: um riso ao mesmo tempo viril e terno.
   - Apenas fao um esforo para tudo compreender - disse ele. - E, com um pouquinho de lcool, isso se torna muito fcil.
   - Sabem de uma coisa? - indagou repentinamente Husson. - Vocs dois parecem recm-casados, em viagem de npcias. Para pessoas que j tm dois anos de casados, 
vo muito bem.
   - Parece um pouco ridculo, no  verdade? - fez Sverine, num tom claramente agressivo.
   - Por que razo? Acabo de dizer que os espetculos que me enervam nem sempre me so desagradveis...
   Pierre teve medo da violncia que leu no rosto de sua mulher.
   - Diga-me, Husson - indagou ele -, voc est em plena forma para a corrida?  preciso que haja algum capaz de vencer o pessoal de Oxford...
   Falaram de bobsleighs, os trens duplos de corridas, e das equipes concorrentes. Quando terminaram, Husson pediu aos Srizy que jantassem em sua companhia.
   - Impossvel - respondeu Sverine. - J aceitamos outro convite.
   Na rua, Pierre perguntou-lhe:
   - Husson te desagrada tanto, ao ponto de te obrigar a mentir? Mas por qu? Ele faz boa figura nos esportes, tem muita cultura e no  um maledicente...
   - No sei... O fato  que ele me  insuportvel. Sua voz... que parece sempre arrancar de ns o que no queremos dizer... - Seus olhos... eles no se movem nunca, 
como j deves ter notado... Esse ar friorento... E, afinal, faz apenas quinze dias que o conhecemos...
   Ela fez uma pausa brusca.
   - Achas que iremos rev-lo em Paris? Ah, no dizes nada... Com certeza j o convidaste... Ah, meu pobre e querido Pierre, s realmente incorrigvel! Com que facilidade 
te ligas a qualquer um... E com que confiana! Nunca te defendes...  esse um dos teus encantos. Mas no brigarei contigo por causa disso. Em Paris no  como aqui. 
L, eu o poderei evitar.
   - Rene tentar fugir-lhe um pouco menos...
   - Crs?
   - No creio nada. Mas o fato  que ela se cala, quando Husson est presente. E isso  um sinal... Onde jantaremos esta noite? Precisamos ter cuidado, para no 
sermos apanhados em flagrante delito de mentira...
   - Em nosso hotel.
   - E depois? O bacar?
   - No, eu te peo, querido. Sabes bem que no  por causa do dinheiro que podes perder... Mas tu mesmo dizes que isso te deixa um gosto de cinzas. E, alm do 
mais, tens a tua corrida amanh. E quero que ganhes.
   - Como preferires, minha querida.
   Ele acrescentou, como se o fizesse malgrado seu:
   - Jamais acreditei que fosse to doce obedecer! Porque, nesse momento, Sverine pousava nele, com ternura, os seus olhos um pouco inquietantes de garota.
    noite, eles foram ao teatro. Uma companhia londrina representava o Hamlet. Um jovem e clebre ator israelita fazia o papel do prncipe de Elsinor.
   Sverine, embora educada na Inglaterra, pouco gostava de Shakespeare. Todavia, no tren que os levou, por entre a neve e sob o luar, respeitou o silncio de Pierre. 
Adivinhara que ele trazia do espetculo uma tristeza muito nobre e, mesmo sem partilh-la, ela amava aquela bela fronte.
   - Movelski realmente tem gnio - murmurou Pierre... - Um gnio terrvel. Leva o gosto da carne at  loucura e  morte. E no existe arte mais contagiosa do que 
a carnal. No concorda comigo?
   Como Sverine tardasse a responder, acrescentou, pensativamente:
   - Ah,  verdade... Tu no podes saber...
   
   
  
  
  2
   
   
   
   Durante os ltimos dias que os Srizy passaram na Sua, Sverine sentia-se abrasada, oprimida. E, mal chegaram eles a Paris, uma congesto pulmonar a golpeou, 
com extrema violncia.
   Sverine passou uma semana inteira lacerada pelas ventosas escarificadas, entregue  voracidade das sanguessugas,  beira da morte. Quando readquiriu a conscincia, 
viu  cabeceira a silhueta magra de sua me e, no aposento, ressoavam passos que ouvia vagamente, com alguma satisfao, embora no os reconhecesse. Depois, mergulhou 
na sua vida surda e febril de planta ameaada.
   Certa manh, quando as luzes matinais penetravam at o seu leito, aos pouquinhos, como um animal receoso, ela saiu de seu estado vegetal. Suas costas a faziam 
sofrer atrozmente, mas respirava sem muita dificuldade. Uma forma estava sentada perto dela. Sverine pensou que devia ser Pierre. Esse nome, que votou ao seu esprito 
de maneira automtica, suscitou nela apenas um sentimento de segurana, ainda que mais ou menos confuso.
   A mo do marido pousou-lhe na fronte, acariciando-a. Sverine retraiu a cabea. Pierre acreditou ter sido um movimento inconsciente, mas Sverine tinha realmente 
querido evitar o contato. Ela se achava to bem, bastava-se de tal forma a si mesma, que sentia uma espcie de necessidade de esquecer tudo o que no era propriamente 
ela prpria.
   Esse desejo de isolamento, esse egosmo exclusivo, no a abandonou seno aos pouquinhos, lentamente. Ela passava horas a contemplar seus punhos emagrecidos, estriados 
pelos riscos azulados das veias finas, ou suas unhas de um tom cor de malva, ainda mrbido.
   Quando Pierre falava, no respondia. Que valia o amor de seu marido perto daquele que experimentava por seu prprio corpo? Esse corpo era to precioso e esse 
amor to vasto, to abundante! Sverine julgava ouvir o suave murmrio do sangue que a nutria. A cada dia, ela media o crescimento de suas foras, com uma sensualidade 
profunda.
   Por vezes, a fisionomia como que fechada sobre um segredo, ela parecia perseguir estranhas imagens e vises. Se Pierre ento se dirigia a ela, Sverine lanava-lhe 
um olhar cheio ao mesmo tempo de impacincia, indolncia e confuso.
   Mas, quando pensava surpreender num gesto de seu marido o menor trao de desejo, sentia-se invadida pela revolta e pela lassido.
   Pierre, nesses instantes, admirava o rosto de Sverine. A doena o tinha desnudado ao ponto de dar-lhe o aspecto de uma terna adolescente. E ele no respirava 
nela mais do que a juventude e a castidade.
   O vigor de Sverine voltou rapidamente, mas sem lhe trazer alegria.  medida que a febre abandonava o seu corpo, extenuava-se tambm a sua indefinvel volpia. 
Sverine se achava, afinal, de p, mas desamparada. E andava, de aposento em aposento, como que para retomar a sua vida anterior.
   At mesmo no escritrio de Pierre, era Sverine quem tudo havia disposto, na arrumao do apartamento. Antes de sua doena, adorava controlar a7 ordem por ela 
mesma estabelecida. No s porque tornava o apartamento mais espaoso, como porque trazia a marca de seu domnio.
   Ainda agora, o seu orgulho sentia-se satisfeito, mas de uma forma abstrata e descolorida. Toda a sua existncia lhe aparecia sob a mesma luz: um destino fcil, 
seguro, medido. Os pais, sempre os vira atravs das governantas, dos anos de pensionato na Inglaterra, feitos de esporte e de disciplina... Sim, decerto que tinha 
agora Pierre, e apenas ele em todo o mundo... E foi pensando nesse rosto querido que Sverine sorriu docemente, sem ir mais longe cm seus devaneios. Porm, uma expectativa 
permanecia dentro dela, vaga mas tenaz, imperiosa, empanando insensivelmente a imagem de Pierre e deslizando para alm do bloco intangvel que essa imagem formava, 
rumo a um horizonte desconhecido... expectativa que Sverine no compreendia, que a perturbava e que ela prpria no queria admitir.
   - Desde que eu possa disputar algumas partidas de tnis, tudo se arranjar - dizia ela a si mesma, como se respondesse a uma censura no formulada.
   Houve um dia, nessa estranha convalescena, que pareceu mais ntido a Sverine: o dia em que pela primeira vez recebeu flores enviadas por Husson. Depois de ler 
o carto que as acompanhava, permaneceu por alguns momentos como que apreensiva. Esquecera-se da existncia desse homem, e eis que lhe vinha agora a impresso de 
ter esperado que esse nome voltasse  sua vida. Pensou nele at  noite, com mal-estar e com hostilidade. Mas esse aborrecido enervamento correspondia to bem ao 
seu estado moral que lhe dava uma espcie de prazer irritante.
   As remessas de flores se renovaram.
   - Ele deve ter percebido que no o posso suportar - pensou Sverine. - No lhe agradeci e proibi a Pierre que o fizesse. E ele continua...
   Imaginava ver os olhos imveis de Husson, seus lbios febris... E estremecia de repugnncia. Uma repugnncia que repercutia surdamente em todo o seu ser.
   Enquanto isso, Rene Fvret vinha v-la todos os dias. Entrava apressadamente, nem sequer tirava o chapu, anunciava que no dispunha seno de uns poucos minutos 
e permanecia durante horas. Sua tagarelice a encantava. Essa frivolidade, embora estonteando Sverine, fazia-lhe bem.  que ela a recolocava num universo fcil, 
em que tudo se resumia em problemas de vestidos, de divrcios, de ligaes sentimentais e de pequenos artifcios... Por momentos, no entanto, Sverine tinha a impresso 
de que uma fadiga amargurada envelhecia a fisionomia de sua amiga e que na vivacidade de Rene havia qualquer coisa de maquinai. Uma tarde, quando se achavam juntas, 
trouxeram um carto de visitas a Sverine. Ela o examinou, por algum tempo. E depois disse a Rene:
   -  de Henri Husson. Houve um silncio.
   - Certamente no vais receb-lo! - exclamou, de sbito, Rene.
   Seu tom, brusco, breve, tenso, era to diferente do usual que Sverine quase se submeteu sem refletir. Mas, passada a surpresa, perguntou:
   - Mas por qu?
   - No sei... Mas me lembro de que ele te desagradava... E, alm disso, tenho tantas coisas para te contar...
   Sem a estranha atitude de sua amiga, Sverine sem duvida evitaria ver Husson, mas a vontade, demonstrada por ela, de impedir esse encontro, provocava-lhe ao mesmo 
tempo curiosidade e orgulho.
   - Posso ter mudado de opinio - disse. - E, alm disso, ele tem sido to gentil... enviando-me todas essas flores.
   - Ah, ele te enviou flores...
   Rene levantou-se, como para fugir, mas no conseguia enfiar as luvas.
   - Que  que tens, minha querida? - perguntou Sverine, comovida por essa perturbao. - Podes falar-me francamente... Ests com cimes?
   - No, no... Se assim fosse, eu j te teria dito, sem perder tempo. s uma pessoa direita. E compreenderias. No. O que tenho  medo. Ele se diverte comigo. 
Agora, conheo-o bem.  feito apenas de perversidade. No experimenta prazer algum, a no ser por meio de maquinaes cerebrais. Assim, fez tudo para que eu despreze 
a mim mesma... E conseguiu muito bem o seu intento. Contigo, d-se o contrrio: ele cultiva a repulsa que te inspira. Isso  uma delcia para ele. Mas presta ateno, 
minha querida. Esse homem  perigoso.
   Nenhuma palavra, mais do que essa, poderia decidir Sverine.
   - Tu vais ver... - disse ela.
   - No, no... Eu no poderia - escusou-se Rene.
   Ficando sozinha, Sverine deixou o leito de repouso c fez com que Henri Husson fosse introduzido. Encontrando-a sentada a uma pequena mesa, e como que protegida 
por um vaso cheio de ris, atravs das quais mal era vista, ele sorriu. Esse sorriso prolongado, que ele sublinhou por um silncio intencional, abalou a tranqilidade 
de Sverine, que se sentiu ainda menos  vontade quando Husson, sentando-se diante dela, afastou o vaso com as flores.
   - Srizy est ausente? - perguntou, de sbito.
   - Sem dvida. Do contrrio, j o teria visto.
   - Ele nunca se afasta de seu lado, quando est aqui, no? E... sente falta dele?
   - Muita.
   - Eu a compreendo muito bem, pois eu prprio tenho sempre grande prazer em v-lo. Ele  belo, alegre, ponderado, leal. Deve ser um companheiro incomparvel.
   Sverine mudou bruscamente de conversao. Cada elogio sado de tal boca diminua, apagava a imagem de Pierre.
   - Mas, graas a uma amiga que me vem todos os dias - falou Sverine -, eu no me aborreo tanto...
   - A Sra. Frvet?
   - No a viu sair?
   - No. Mas sinto o perfume dela aqui. Um perfume, como a prpria dona, algo suplicante...
   E riu. E o seu riso pareceu odioso a Sverine.
   - Por um segundo, parece ter retomado o seu ar habitual - observou Husson.
   - Terei mudado tanto? - indagou a jovem senhora, com um estremecimento.
   Arrependeu-se depressa da inquietude desrazovel que, como logo depois compreendeu, transparecia nessa pergunta. Husson respondeu:
   - Acho que perdeu seu aspecto de mocinha...
   - Obrigada pelo cumprimento.
   - E que se tornou mais franca a seu prprio respeito...
   Sverine esperava uma explicao acerca dessa frase. Mas a explicao no veio. Para acentuar seu enervamento, Sverine ergueu-se um pouco e simulou arranjar 
as flores, que se achavam colocadas perto dela.
   - Est muito fatigada para permanecer sentada disse Husson. - No faa cerimnias comigo. Torne a deitar-se.
   - Mas lhe asseguro que estou habituada...
   - No, no... Srizy no me perdoaria... V i deitar-se.
   Levantara-se afastando a cadeira, para deixar a passagem livre a Sverine. Ela procurou uma resposta dura e incisiva, como as que costumava encontrar antes de 
sua doena, mas nenhuma se apresentou ao seu esprito. Para evitar que essa espcie de luta se tornasse ridcula, foi deitar-se, cheia de irritao e de constrangimento.
   - Se soubesse como est melhor assim - recomeou suavemente Husson. - Precisa compreender e j lhe devem ter repetido isso que no nasceu para o movimento. As 
pessoas se denunciam pelo seu exterior.
   Desde que a conheci, eu a vejo assim, deitada. Como eu tinha razo! Que maciez repentina! Que apaziguamento dos msculos...
   Sempre falando, ele se colocara um pouco por trs dela, de sorte que Sverine no o via mais. Apenas a voz dele permanecia atuante, aquela voz cujo poder, aparentemente, 
ele parecia ignorar, mas com o qual agora jogava com percia, transformando-o num perigoso instrumento. Essa voz no se dirigia agora apenas aos seus ouvidos, mas 
a todas as suas clulas nervosas, dissolvente, secreta. Sverine, toda crispada, no achava foras para obrig-lo a calar-se. Enfraquecida pelo esforo que fizera, 
cativa dessas ondas insinuantes, tinha a impresso de reencontrar os limbos de sua convalescena e aquela volpia sem rosto que ento a banhara.
   Subitamente, duas mos pousaram sobre suas espduas e um hlito vido queimou-lhe os lbios. Durante uma frao incalculvel de segundo, Sverine permaneceu estupefata 
com o prazer agudo que se apoderara dela, mas que logo cedeu a um nojo sem limites. Sem que soubesse como, encontrou-se de p e murmurando num sopro contido e carnal:
   - No, o senhor no nasceu para violar... Encararam-se longamente. Nesse minuto, nenhuma barreira existia entre os dois. Descobriam nos olhos, um e outro, os 
sentimentos e os instintos de cada um, ignorados, talvez, por eles prprios. Foi assim que Sverine leu em Husson uma admirao que lhe fez medo.
   - Tem razo - disse ele, por fim. - Merece algum muito melhor do que eu.
   Sua doura respeitosa era daquelas que cercam as vtimas escolhidas por Deus.
   
   
   Os sentimentos que Sverine experimentou depois da partida de Husson foram neutros, sem relevo, sem ao. Descobria que no tinha por ele nem raiva nem repugnncia. 
E no se espantava com isso. Sabia tambm, quase com certeza, que no lhe cederia nunca e que ele prprio nada mais tentaria junto dela. Contudo, considerava-o como 
um cmplice.
   Bruscamente, ocorreu-lhe a idia de que precisava revelar tal cena a Pierre. Estava to habituada a contar-lhe tudo que no sentia a menor tentao de guardar 
segredo dessa vez. Contudo, essa revelao a enchia, antecipadamente, de tdio. Pierre parecia to estranho ao seu novo universo...
   - Pierre... Pierre..
   Sverine surpreendeu-se a repetir esse nome como se quisesse insuflar-lhe contedo. Mas nem isso conseguiu tir-la de sua singular anestesia. Quando ouviu os 
passos do marido, no se preocupou com o modo pelo qual lhe comunicaria a tentativa de Husson. Ele notaria imediatamente, pelo rosto dela, que algum acontecimento 
anormal se produzira. E ento a interrogaria. E ela falaria... No era isso o mais importante?
   Mas Pierre no a examinou com aquele olhar penetrante e amoroso que Sverine esperava. E mal a beijou. Mais do que a ausncia de pergunta insistentes, essa atitude 
devolveu Sverine a si mesma. Sentiu que um poderoso sustentculo, to constante que nem lhe dava cuidados, desabava de sbito e que ela prpria vacilava. Ento, 
o rosto de Pierre se destacou aos seus olhos de um modo inslito. Mirrada, inerte, no parecia mais pertencer-lhe. Nos grandes olhos de Pierre, ainda que ele tudo 
fizesse para dissimular, aparecia uma angstia desgarrada.
   - Tiveste alguma contrariedade, meu querido? - perguntou a jovem senhora.
   Pierre estremeceu, apoiou o queixo na mo, como para impedir o maxilar inferior de tremer.
   - No te inquietes - disse ele. - So aborrecimentos profissionais...
   Esforou-se para sorrir, mas percebeu que esse esforo era lamentvel, e renunciou. Como Pierre jamais lhe falava de sua profisso, para que ela se esquecesse 
de sua natureza sangrenta, Sverine convenceu-se de que dificilmente ele revelaria a causa de sua tristeza. Mas esta era por demais pesada para que Pierre a pudesse 
suportar. E ele continuou:
   -  horrvel, sabes?... Ainda me custa acreditar... Nada nos fazia prever... Aquele pequeno italiano, to alegre...
   Como no terminasse, Sverine interrogou, em voz baixa:
   - Ele morreu... durante a operao?
   Pierre quis responder, mas seus lbios tremiam demais. Tudo quanto Sverine sentia de perturbador, de estranho a Pierre, foi varrido de dentro dela. E s ficou 
uma ternura infinita, qualquer coisa de vasto e de material, que parecia dissolver o fundo de seu corao. Rodeou a cabea de Pierre com os braos, dizendo-lhe palavras 
que no mais conseguia controlar:
   - Meu pequeno, no tens culpa. No fiques triste. Quando te sentes infeliz  que vejo bem que s toda a minha vida.
   
   
  
  
  3
   
   
   
   Sverine acordou cedo. Embora tivesse abreviado o repouso, sentia-se to fresca e to lpida que o seu primeiro movimento foi sair do leito. Mas se deteve ao 
perceber um corpo imvel estendido ao lado do seu e que limitava a sua liberdade. Pierre estava ali... Pela primeira vez, desde a doena dela, tinham passado a noite 
juntos. Como Sverine dormira bem, sem sonhos, sem temerosos devaneios!
   Fora ele prprio quem at ento se tinha proibido de tocar nela? Pertencendo a ele, teria ela se libertado?
   Sentira-se atrada para Pierre pelo simples desejo de vencer soberanamente a sua tristeza. Para Sverine, como sempre, no havia seno a alegria inocente de v-lo 
sentir-se feliz por ela. Quando ele a apertara contra si, Sverine tinha perguntado a si mesma se o trabalho, cheio de obscuras delcias, que suavizara a sua convalescena, 
no se ia resolver num transporte que ela ainda ignorava. Mas Pierre, tendo desatado os seus braos, havia encontrado os olhos de Sverine sempre virgens de prazer. 
Se uma decepo confusa aflorara ento na jovem senhora, ela logo a esqueceu, ao ver que os traos de Pierre, desfeitos pelas contrariedades, recobravam sua virilidade 
e sua doura.
   Agora, na penumbra do amanhecer, ela no os podia distinguir, mas a massa da cabea de Pierre lhe bastava para reconstituir as belas linhas. Seu marido ressonava 
confiadamente, como um menino. E Sverine comovia-se profundamente, ao contempl-lo. Os dois anos que tinham vivido lado a lado desfilaram em sua memria, como um 
claro rico e contnuo. Como Pierre lhe tinha tornado fceis esses anos! Jamais houvera um enfraquecimento em sua solicitude. Com que docilidade ele - que ela sabia 
to orgulhoso em relao aos outros - se empenhara em faz-la feliz!
   O silncio era penetrante, propcio  gratido e ao escrpulo.
   - Terei sabido reconhecer tamanho amor? - perguntava Sverine a si mesma. - Fiz tudo quanto podia para lhe dar alegrias? Tudo quanto ele fez por mim eu aceitei 
como natural, como alguma coisa que me fosse realmente devida...
   Tais remorsos, Sverine tinha prazer em nutri-los. Para uma alma vigorosa em suas reaes, nada possui uma virtude to exaltante como o reconhecimento das faltas 
que ela tem o desejo de reparar. Principalmente quando  vontade juntam-se os meios. Agora, Sverine tomava conhecimento ao mesmo tempo do quanto devia a Pierre 
e do poder que possua sobre ele. Um dia antes, no teria ainda acreditado que sua voz e os seus braos poderiam restituir to depressa a paz a um corao inteiramente 
desesperado.
   - Agora, sei - pensava Sverine. - Ele depende de mim como uma criana.
   Lembrou-se de que Pierre s vezes dizia que ela era o seu entorpecente. No compreendia a sombra tenebrosa e poderosa dessa palavra e no a amava, tanto lhe repugnava 
tudo quanto se desviasse da saudvel normalidade. Seu esprito nunca se detivera nas experincias que o marido poderia ter feito antes de a conhecer. Que necessidade 
teriam de outra coisa que no fosse aquilo que existia entre eles: essa ternura, essa simplicidade?
   Sverine pensou no sorriso irradiante de Pierre, em suas mos francas e fortes. Por um segundo teve medo,  idia de que esse sorriso e essa fora estavam  sua 
merc.
   - Como eu lhe poderia fazer mal, se quisesse! - murmurou ela, de si para si.
   Nenhum orgulho alterava essa inquietude. Por ela, Sverine media ainda melhor a profundidade e a integridade de seu amor. No tinha seno Pierre no mundo, no 
se devotava seno a ele.
   Essa certeza era to forte, tinha razes to profundas, que Sverine acabou por sorrir de seus fugitivos temores. Acontecesse o que acontecesse, Pierre jamais 
haveria de sofrer por ela. Que maravilhoso calor afetivo o que sentia por esse homem que ressonava como um menino. Como repousavam em suas mos tanto as suas tristezas 
como as suas alegrias, ela saberia fazer de cada um de seus dias um dia feliz. E assim seria at o fim de suas vidas gmeas. Assim iriam at o fim, sem um equvoco. 
Sverine tinha conscincia de ser a zeladora de uma flama esplndida, mas sentia-se revestida de tanta fora, tanta pureza e tanto amor que essa misso lhe parecia 
magnfica e fcil.
   Fosse outra, nesse instante decerto se teria lembrado dos devaneios que se seguiram  sua doena, aqueles sonhos malsos, aquela unio que, na vspera, ainda, 
a tinha ligado a Henri Husson. Mas a educao - principalmente a educao fsica - que Sverine recebera, a sade habitual de seu corpo, seu perfeito equilbrio, 
uma propenso natural  calma e  alegria, tudo a incitava a no se afligir com tais coisas. No se preocupava seno com as emoes que vinham  superfcie, no 
controlava seno a parte mais ostensiva de si mesma. Assim, acreditando governar-se perfeitamente, Sverine nem sequer suspeitava de suas foras essenciais, adormecidas, 
e por isso mesmo no fazia a menor tentativa para domin-las. Como essas reservas secretas tinham sustentado at ento inclinaes que a sua razo considerava serem 
direitos, seus desejos tinham sempre um vigor a que ela cedia com um impaciente e invencvel movimento.
   No quis esperar mais para demonstrar a Pierre a nova ternura em que submergira e beijou-o longamente na fronte. Ainda nesse limite incerto entre a viglia e 
o sono, em que o corpo sem guia se deixa conduzir pelo instinto, Pierre se encostou em Sverine. Permaneceu, por alguns segundos, nessa praia obscura e quente que 
 a mulher amada, antes que tenhamos conscincia dela. E depois murmurou, com uma voz povoada de sonhos:
   - Querida, minha queridinha.
   Sverine acendeu suavemente a lmpada colocada sobre a pequena mesa de cabeceira, ao lado da cama. Tinha necessidade de ver a felicidade pura, despojada do pensamento 
contido nessas palavras. A luz, velada por uma seda opaca, coava-se docemente atravs do quarto. No feriu a vista de Pierre, nem ele se mexeu, mas o que Sverine 
tentava surpreender - o mistrio vegetal de um rosto que pertencia tanto s sombras como  vida - havia desaparecido de seus traos. Ele recobrara o sentimento de 
si mesmo.
   - Como me sinto feliz por te reencontrar - disse ele. - Isso me fazia tanta falta...
   Abriu subitamente os olhos.
   - Ah, sim - continuou, lentamente. - O pequeno Marco... sim, o italianinho... Ele gostava imensamente de brincar comigo...
   Dessa vez, bastou Sverine colocar a mo sobre os cabelos dele para acalm-lo.
   - J no sofro mais. Eu te quero tanto que me resta muito pouca sensibilidade para gastar com os outros.
   - Cala-te. Se todo mundo se parecesse contigo, a vida seria melhor. Sabes? - disse Sverine com ardor. - Esta manh, pensei muito em ti...
   - Ests acordada h muito tempo? Mas apenas amanhece. No te sentes bem? E eu, que dormia a sono solto!
   Sverine comeou a rir ternamente.
   - No invertas os papis - falou. - Gostaria de dizer quanto te quero, de perguntar-te como te posso fazer mais feliz...
   Deteve-se, como se tivesse desferido uma nota falsa. Havia no rosto de Pierre um pouco de estupor e muito de enfado.
   - Eu te peo... - murmurou ele. - s muito gentil. Mas precisas saber que tu  que s a minha menininha...
   - Em todo caso - tornou Sverine -,  preciso que eu participe um pouco mais de tua vida. Quero saber tudo o que fazes, quem so teus doentes, tuas operaes... 
No te ajudo em nada...
   No foi reconhecimento, mas sentimento de culpa, o que Pierre experimentou. Tal como os homens delicados e fortes, quando amam, ele era feito de matria to sensvel 
que o menor cuidado de Sverine parecia-lhe uma falta cometida para com ela.
   - No consegui conter-me ontem  noite - declarou ele -, e agora j ests inquieta por minha causa. Mas fica tranqila, minha querida, que no voltarei a te dar 
motivo para preocupaes...
   Sverine deu sinais de ligeira impacincia. Era to difcil poder manifestar toda a intensidade de seu amor! Tudo se voltava contra os seus desejos. Queria servir 
a Pierre, c era ele quem, sem cessar, se colocava a seu servio.
   Pierre alm de sua profisso, tinha sua vida moral, suas leituras, suas meditaes, que ela tentava partilhar. Mas, nesse domnio, Sverine sentia-se importante, 
malgrado toda a sua boa vontade. A cultura, as faculdades intelectuais, o prprio gosto lhe faltavam para associar-se a atividades com as quais jamais se preocupara.
   Com um nascente sentimento de derrota e uma imensa vontade de poder dar algo mais de si mesma, murmurou:
   - Que mais poderei fazer por ti, meu amor?
   O tom em que falou fez com que Pierre se inclinasse atentamente para ela. Os dois se encaravam como se s estivessem descobrindo. E a jovem senhora leu esta splica 
trmula no fundo dos grandes olhos cinzentos do marido: "Ah, Sverine, Sverine, se pudesses finalmente deixar de me dar apenas o teu corpo para o meu prazer, mas 
o conhecesses tu mesma e te perdesses dentro dele!"
   Esse olhar traduzia um apelo to forte e to denso que Sverine sentiu-se carnalmente comovida, como jamais se sentira. O que o gesto de Husson a fizera experimentar 
na vspera, eis que ela tornava a experimentar agora, misturado com a felicidade da ternura. Que Pierre a apertasse com aquelas mos cuja fora to bem conhecia, 
com aqueles membros cujos msculos tantas vezes vira retesarem-se, e ela, sem a menor dvida, se vergaria ao gozo que ele lhe suplicava. Mas, no momento em que ele 
a enlaou, Sverine surpreendeu um vislumbre de gratido em seu olhar. E uma vez mais se abandonou nos braos dele com os mesmos sentimentos maternais.
   Depois, Pierre e Sverine permaneceram imveis.
   Em quem ou em que pensaria Pierre? Talvez nas amantes que havia tido, que no havia amado e que, no entanto, tinham frudo dele o prazer quase mortal da volpia... 
Ou, talvez, na injustia que fazia, dessa mulher estendida a seu lado, dessa mulher a quem ele amava, um corpo incapaz da perfeita conjuno, daquele isocronismo 
pelo qual ele nutria um desejo religioso e selvagem.
   Em Sverine, um triste espanto se tornava patente: o de saber que detinha todo o poder sobre Pierre e que, malgrado isso, no estava em condies de comunicar-se 
com ele na medida desejada. A alma dele, sem o querer, recusava-se a ela, do mesmo modo que a carne dela recusava-se a ele.
   O silncio que reinava entre os dois tinha o peso dessa dupla derrota.
   Nutriam, felizmente, um pelo outro, essa amizade apaixonada que tudo aplaca. Nada de seus sentimentos essenciais fora soterrado. Experimentavam, ao contrrio, 
a necessidade de se aproximarem, para afirmar aquilo que era indestrutvel. Sem se dar conta, Sverine colocou a mo na de seu marido. Ele a apertou com uma presso 
firme, sem perturbao sensual, como um companheiro de jornada, de vida. Ela respondeu do mesmo modo. Sentiam ambos que o seu amor se achava acima de um desacordo 
contra o qual nada podiam.
   "A volpia - pensaram ambos, ao mesmo tempo - no  mais que uma flama fugitiva. Ns dois partilhamos um bem mais raro e mais seguro."
   O dia veio dissipar os misteriosos e profundos debates em que estavam empenhados os seus instintos. Pierre e Sverine se olharam e sorriram. A luz crua do dia, 
implacvel para tudo o que fenece, era clemente para com os seus rostos jovens. Emergiram da noite cheios de frescor.
   - Ainda  cedo - disse Sverine. - Tens muito tempo, antes de ires para o hospital. Acompanha-me ao Bosque de Boulogne.
   - No tens medo de te fatigares?
   - A doena acabou. No sinto mais nada. Vai vestir-te depressa.
   Quando Pierre deixou o quarto, Sverine se lembrou de que ainda no lhe havia falado de Husson.
   "No direi nada", decidiu ela. "No quero que sofra inutilmente."
   Sentiu-se melhor por ter, pela primeira vez, de esconder alguma coisa de Pierre. E o amou ainda mais por isso.
   
   
  
  
  4
   
   
   
   Sverine sentia-se como se tivesse sido exorcizada. Aquela mulher desconhecida que, to prxima da morte, na sua fraqueza como na sua ressurreio, sentira que 
se dissolviam os elementos de sua integridade por um jogo de imagens singulares e corrompidas, misturadas, durante algumas semanas, ao seu ser ntegro e puro - o 
nico que ela aceitava. E esse ser se tinha, enfim, dissociado dela e, agora o sentia, para sempre. Nascida da enfermidade, essa sombra esfarinhara-se num p sutil, 
agora que Sverine voltara  sade e que seu esprito retomara normalmente as relaes com um mundo razovel.
   Sverine ocupou o seu lugar com segurana. A alimentao, o sono, a afeio, os prazeres honestos, tudo se colocou ao servio dela, como antes, numa ordem favorvel 
ao seu equilbrio. Um gosto novo, um interesse crescente pelas mincias da existncia, estimularam-lhe a vivacidade. Ela ia de um aposento a outro como quem estivesse 
fazendo descobertas. Os mveis, os objetos, tudo lhe comunicava a sua profunda e til coeso. Governava de novo todas essas coisas, a criadagem, seus sentimentos, 
sua vida.
   Sobre o seu rosto srio essa fora e esse movimento interior no se denunciavam seno por uma claridade discreta. Jamais Pierre lhe descobrira tanta seduo, 
nem jamais ela lhe demonstrara uma ternura to eficaz.  que o nico trao consciente que subsistia em Sverine aps a crise informe que se seguira  sua doena 
fora a resoluo, que ela tomara, de se dedicar  felicidade do marido.  verdade que fracassara numa tentativa demasiado direta, mas o desejo que a havia inspirado 
no foi destrudo por esse insucesso. Ao contrrio, persistia nas inflexes de sua voz, numa doura constante que ao mesmo tempo comovia e inquietava Pierre. Essa 
solicitude deslocava o eixo em que at ento haviam repousado suas vidas.
   Dois traos, que ele reconhecia como fixos, vieram dissipar a apreenso que lhe causava essa atitude to nova: Sverine demonstrava sempre o mesmo pudor selvagem 
que antes e nunca mudava a sua maneira de vestir-se. Renovava o guarda-roupa com uma disposio jovial, com o mesmo apetite que agora tinha para todas as coisas, 
mas continuava a escolher, como no passado, tecidos e modelos que conviriam a moas solteiras. Algumas vezes Pierre a acompanhava aos costureiros e modistas para 
partilhar o prazer de Sverine e tambm para que os preos, quaisquer que fossem, no a fizessem hesitar. Mas, em geral, nessas longas peregrinaes, a companhia 
inseparvel de Sverine era Rene Frvet.
   Rene desvendava a sua verdadeira razo de ser entre cortes de fazendas, manequins, costureiras de provas e vendedoras. Juntava a uma espcie de lirismo um toque 
de emoo verdadeira e um bom-gosto sem falhas. Sverine, menos atrada por esses exerccios e sempre tentada a terminar tudo depressa, dava grande apreo a to 
apaixonado concurso.
   Uma noite, porm, quando devia ir provar um vestido pela ltima vez, para o acerto definitivo, esperou em vo sua amiga Rene. Foi sozinha ao costureiro, e j 
estava experimentando o vestido quando ela chegou.
   - Desculpa-me - disse Rene. - Mas se tu soubesses...
   Mal deitou um olhar ao vestido de Sverine. No fez nenhuma observao. E, depois, aproveitando-se de um momento em que a vendedora se afastara, cochichou rapidamente:
   - Acabo de saber uma coisa inaudita pelos Jumige, em casa de quem tomei ch. Henriette, nossa amiga Henriette, vai regularmente a uma casa de rendez-vous...
   Como Sverine no reagisse, Rene prosseguiu:
   - No acreditas. Tambm eu, a princpio, no acreditei, mas depois fiquei sabendo certos pormenores que... Bem, no posso mais duvidar. Foi o prprio Jumige 
que, tendo ligado o telefone para Henriette, ouviu uma conversa dela com a dona da tal casa. E conheces bem Jumige.  tagarela, mas no mentiroso. E, alm do mais, 
uma mentira dessas seria um crime... Tudo isso me foi dito, naturalmente, debaixo do maior segredo. Jumige me recomendou que no passasse adiante...
   - Ento, todo mundo vai sab-lo - respondeu Sverine, placidamente. - Mas que pensas do meu vestido?  o que vou usar amanh  noite...
   - Oh, desculpa-me, querida. Ainda no tenho a cabea no lugar... Espera um pouco... Oua, senhorita...
   E, dirigindo-se  vendedora, fez meticulosas indicaes. Mas Sverine percebia que um grande esforo de vontade lhe era exigido para desempenhar essa tarefa que, 
de ordinrio, a absorvia inteiramente. Mal a prova terminou, Rene perguntou-lhe:
   - Que vais fazer agora?
   - Vou para casa. Pierre no deve demorar.
   - Ento, eu te acompanho. Afinal de contas,  necessrio que te fale a respeito de Henriette. Francamente, no te estou entendendo...
   Tomaram o carro e, logo depois, Rene recomeou:
   - Francamente, no te compreendo... Acabo de te anunciar uma coisa dessas, c nem pareces ligar...
   - No vi Henriette seno umas duas vezes, no mximo. E bem o sabes...
   - Cem vezes ou uma, isso pouco importa. O que importa  o fato,  o fato em si mesmo. Ainda que se tratasse de uma desconhecida... uma desconhecida que se tenha... 
que se tenha... no encontro a palavra... Mas vejo que no adianta. S ests pensando em teu vestido... No ligas ao fato de que uma mulher do nosso mundo, menos 
rica do que ns, l isso  verdade, mas afinal uma mulher como tu e como eu, freqenta uma casa de rendez-vous...
   - Uma casa de rendez-vous? - perguntou maquinalmente Sverine.
   Chocada com o tom de sua amiga, Rene pareceu perplexa durante alguns minutos e, depois, disse cm voz baixa:
   - Eu j devia ter contado com isso. Ests por fora de todas essas coisas... Es to ingnua que nem podes medir o horror que vai em tudo isso. Alis,  bem melhor 
assim...
   Mas a necessidade em que se encontrava, de comunicar sua agitao, a impelia cada vez mais vivamente:
   - No,  preciso que saibas - gritou. - Isso no te pode fazer mal. No se deve viver a vida inteira de olhos fechados. Ouve... Mesmo vindas de um homem pelo 
qual se tem muita ternura ("ela pensa em seu marido", disse a si mesma Sverine, que comeou a pensar tambm em Pierre), certas coisas so constrangedoras. Agora, 
querida, imagina como no h de ser numa dessas casas, onde uma mulher fica  merc de quem primeiro chega, quer seja feio ou sujo... E tem de fazer tudo o que ele 
quiser, tudo o que ele quiser... So desconhecidos, que mudam todos os dias. E aqueles mveis, que so usados por todo mundo... Aquelas camas... Por um segundo, 
somente por um segundo, imagina que tens essa profisso, e compreenders...
   Falou longamente sobre esse tema, porque Sverine no respondia e o seu silncio incitava Rene a carregar nas tintas, tornando cada vez mais terrvel a pintura 
que fazia, com o deliberado intuito de provocar uma exclamao que quebrasse aquele mutismo obstinado.
   No o conseguia. Mas, se o crepsculo estivesse menos avanado, o aspecto de Sverine teria impressionado a amiga. Figura fria e retrada, como que dentro de 
uma carapaa invisvel, quase incapaz de respirar, os membros pesados, to pesados que ela s vezes no acreditava que pudesse mexer-se, Sverine sentia-se morrer. 
No sabia o que se passava nela. Mas no iria jamais esquecer esse estado cadavrico, essa angstia indizvel que lhe fazia parar o corao. Diante dela, agitavam-se 
labaredas e nuvens, atravs das quais adivinhava a nudez de corpos contorcidos. Gostaria de ter cerrado os olhos com as mos, pois suas plpebras estavam to rgidas 
como o resto de sua carne. Mas suas mos pendiam, sem foras, ao seu lado.
   - Chega, chega - teria gritado a Rene, se tivesse podido.
   Contudo, cada uma das frases de sua amiga, cada uma das imagens odiosas que ela descrevia penetrava em Sverine e, aproveitando-se, ao que parece, de sua letargia, 
iam alojar-se, terrivelmente vivas, no mais profundo de seu ser, longe, muito longe...
   Sverine no se recordava de como descera do carro, nem de como entrara em seu apartamento. Uma vaga conscincia de si mesma s lhe voltou depois que se achava 
em seu quarto, e por meio de um choque violento. Uma vez em casa, Sverine dirigiu-se diretamente ao grande espelho de que se servia ao vestir-se. Permaneceu imvel 
diante de sua prpria imagem, to perto que parecia querer fundir-se com ela. Foi no mistrio vtreo do espelho que se reencontrou. A princpio, pelo efeito de seu 
estupor e por uma defesa puramente orgnica, teve a impresso de estar diante de uma estranha. Mas, pouco a pouco, veio-lhe a idia de que a mulher que via no espelho 
se aproximava, a envolvia, incorporava-se a ela. Sverine fez um movimento para afastar-se do espelho, para fugir a uma posse que no desejava, mas um desejo mais 
forte a reteve. Era preciso que conhecesse a figura que avanava para a sua. No saberia dizer por que isso era necessrio, mas sentia que o era. No havia, para 
ela, ato mais essencial, mais urgente do que esse exame.
   E foi um exame de atroz acuidade. Dessa face branca como uma superfcie caiada, dessa fronte arqueada e nua sobre olhos cavos, dessa boca, por fim to vermelha, 
sem ser viva, e anormalmente desenvolvida, desprendia-se tal impresso de bestialidade e de espanto que Sverine no pde suportar por mais de um instante o espetculo 
que ela prpria oferecia. Correu para a porta, a fim de ganhar outro aposento e colocar maior distncia, a maior distncia possvel, entre ela e aquela outra que 
deixara colada no espelho, lisa e terrvel. Mas, ao girar a maaneta, notou que a porta resistia. Estava trancada, com duas voltas da chave.
   - Eu quis, portanto, me esconder - disse, em voz alta.
   Por um reflexo de seu orgulho, de sua franqueza, abriu violentamente a porta e murmurou:
   - Esconder-me? De quem?
   Mas no atravessou a soleira. A imagem que vivia ainda, como estava segura, ali to perto, no espelho, iria mostrar-se fora do lugar em que a tinha surpreendido?
   Sverine bateu violentamente a folha da porta e, evitando pousar os olhos em tudo quanto pudesse refletir a sua imagem, deixou-se abater sobre uma poltrona. Comprimiu 
as tmporas, estralejantes e em fogo, com os punhos, que estavam gelados. Pouco a pouco, o frescor destes acalmou a estranha febre de Sverine c ela pde, enfim, 
pensar, pois tudo o que nela at ento ocorrera no passara de movimentos instintivos, impulsos e desordens, de que havia perdido a memria. Dissipara-se at a lembrana 
de sua prpria mscara de animal desatinado.
   Sverine emergiu desse caos sem outro sentimento que o d uma vergonha intolervel. Parecia-lhe que se enxovalhara para sempre e que, ao mesmo tempo, no podia 
nem queria lavar essa ndoa.
   - Mas que tenho eu? Que tenho? - gemeu, por diversas vezes, balanando a cabea de um lado para outro.
   Tentou religar os vestgios esparsos e vagos dos minutos que acabara de atravessar. Tudo em vo... Fizesse o esforo que fizesse, uma interdio mais poderosa 
que tudo, vinda de profundezas a que a sua vontade no tinha acesso, a impedia de reconstruir a conversa de Rene.
   Bruscamente, Sverine dirigiu-se ao escritrio de Pierre, onde se encontrava o telefone, e pediu o nmero de sua amiga.
   - Escuta, querida - falou, com uma voz de que soube vencer a alterao -, devo ter tido uma espcie de tontura, no carro. Imagina que nem recordo em que condies 
te deixei...
   - Muito naturalmente... A tal ponto que nem me apercebi de coisa alguma.
   Sverine respirou profundamente. No se tinha trado. Mas no perguntou a si mesma o que poderia ter feito. Na verdade, ela o ignorava.
   - Ests-te sentindo melhor? - perguntou Rene.
   - J passou inteiramente - afirmou Sverine, com vivacidade. - E nem mesmo vou falar disso a Pierre.
   - Devias ser mais prudente. Estas noites de primavera so perigosas. No te ests agasalhando bastante...
   Sverine a ouvia com impacincia. Contudo, no procurava abreviar a conversa. Esperava, temia, aguardava que Rene continuasse. Talvez a amiga aludisse de novo 
quela aventura...
   "Ento", dizia a si mesma Sverine, "eu, sem dvida, compreenderei o que se passou."
   Acreditava sinceramente ser esse o nico motivo que a induzia a permanecer ao telefone.
   Mas Rene no havia ainda terminado as suas recomendaes, e Sverine j ouvia os passos de Pierre. E, de sbito, o medo inexplicvel que a tinha dominado no 
quarto novamente apoderou-se dela. Se Rene falasse de Henriette, Pierre adivinharia. No se perguntou o que poderia ele adivinhar, porque ela prpria no o sabia. 
Mas pendurou o receptor com um gesto febril.
   - Acabas de chegar, querida? - perguntou Pierre.
   - No. J faz bem uns dez minutos que cheguei...
   Sverine se deteve, embaraada. Vestia ainda o seu manto e conservava na cabea o chapu. E corrigiu, precipitadamente:
   - Dez minutos... -  um modo de dizer. No sei ao certo... Sem dvida, um pouco menos. E me esquecia de uma coisa que devia perguntar a Rene... E, ento, como 
vim telefonar, sabes, no tive tempo para... Mas no creias que...
   Sentindo que cada uma de suas palavras revelava ainda mais o sentimento de culpa que a esmagava e que nem ao preo de sua vida poderia definir, balbuciou:
   - Um minuto. Vou trocar de roupa.
   Quando voltou, a razo lcida, quase viril, triunfara do inimigo ainda desconhecido, oculto no mais recndito de si mesma. Ela tomara conhecimento da extravagncia 
de sua atitude, quase vizinha da demncia. No era culpada de coisa alguma. E bem o sabia. Por que, ento, essa necessidade de desculpar-se? Essa confuso suspeita?
   Beijou o marido. Mais do que qualquer argumento, a segurana que ela experimentou, que sempre experimentava ao seu contato, a distendeu. Pela primeira vez nessa 
noite em que tudo se desenrolava segundo uma vontade estranha  dela, desregrada e desptica, Sverine sentiu-se livre. E soltou um suspiro de bem-estar e de sade 
to eloqente que Pierre interrogou:
   - Tiveste alguma contrariedade? Algum mal-entendido com Rene?
   - Oh, de onde tiraste tal idia, meu querido?
   Ao contrrio, estou muito contente. Meu vestido  encantador, e tenho vontade de me divertir. Se ns sassemos...
   Sverine percebeu logo em Pierre uma ponta de tristeza. E se lembrou de que, em toda a semana, essa noite era a nica que lhes pertencia inteiramente e que eles 
haviam decidido passar em completa intimidade. Lembrou-se tambm de sua deciso, at ali fielmente observada, de tudo fazer para agradar ao marido, mas agora sentia 
uma necessidade invencvel de fazer com que, graas a uma mudana brutal, recuassem os terrores que experimentara, num passado que quase era ainda presente.
   Conseguira, de incio, o seu propsito. O music-hall e o salo de danas a que se fizera conduzir lhe propiciaram, com suas luzes e os seus rudos, aquela suspenso 
do sentimento que ela desejava. Mas, desde que saram, a inexplicvel angstia, que bem reconhecia, comeou a se infiltrar por todo o corpo de Sverine. O rudo 
do motor do carro, as claridades e as sombras de seu interior, as costas do chofer vagamente distinguveis atravs da vidraa recordaram-lhe a viagem de volta com 
Rene, enquanto esta contava o segredo da outra...
   Sverine estava toda branca quando Pierre, no elevador, pde discernir os seus traos.
   - Como vs, estas sadas te fatigam - observou ele, docemente.
   - No, no  isso... Tranqiliza-te. Eu te explicarei...
   Por um instante, Sverine julgou-se definitivamente liberta. Uma vez que decidira confiar-se a Pierre, tudo se tornava claro, lmpido. Ele vivera muito, antes 
de conhec-la. Pelos exemplos tirados de sua prpria experincia, saberia acalmar aquela agitao satnica.
   Teria sido essa esperana de apaziguamento que fez subir uma onda de calor s tmporas de Sverine? Ou entrara nisso outro elemento de atrao menos distinto 
e mais perturbador e possante? Para no se debater em tais conjeturas, Sverine falou, mal se fechara sobre eles a porta do apartamento:
   - Fiquei muito abalada por uma histria que Rene me confidenciou. Uma de suas amigas, Henriette, que no conheces, vai freqentemente a... a uma casa de rendez-vous...
   As ltimas palavras foram ditas numa voz to chocada que Pierre ficou surpreendido. Perguntou:
   - E depois, querida?
   - Depois, o qu?  tudo.
   - E ficaste nesse estado s por isso? Vem sentar-te, depressa.
   A conversao se desenrolara no vestbulo. Pierre levou a jovem esposa para o escritrio. Ela se deixou cair sobre um diva. Estremecia, mas, embora se tratasse 
de uma vibrao ligeira, sua freqncia e rapidez tiravam-lhe todas as foras.
   Contudo, sua ateno estava avidamente vigilante, desesperadamente presa ao que Pierre iria dizer. E no era mais um desejo de calma que a dominava, mas uma curiosidade 
invencvel, uma necessidade, orgnica como a fome, de ouvir falar de coisas que ela prpria se recusava a imaginar.
   - Que dizes a isso? Fala, vamos, fala - disse ela, com uma splica, um temor e uma violncia iguais.
   - Mas, minha pobre querida, essa espcie de aventura  muito mais comum do que pensas. A ambio do luxo, eis o que a justifica. Essa Henriette... Seu marido 
ganha pouco? Sim? Que queres? Ela deseja vestir-se como Rene, como tu... E ento... Eu mesmo, alis como todo mundo, encontrei mulheres da mesma espcie em lugares 
como esses de que falamos.
   - Ias muito a esses lugares?
   Dessa vez, Pierre ficou impressionado pelo tom de Sverine. Tomou-lhe a mo e lhe disse:
   - Mas no... Acalma-te. Eu no podia imaginar que tivesses cimes de um passado que  igual ao de qualquer rapaz...
   Sverine teve a coragem de sorrir. Mas que poderia fazer para estancar a sede que a devastava?
   - No estou com cimes - respondeu. - E me interesso em saber mais coisas a teu respeito. Continua... Continua...
   - Que queres que te diga ainda? Essas mulheres falo das mulheres como Henriette, quando l se encontram, so doces, submissas, temerosas. Eis a tudo, minha querida. 
E, agora, falemos de outras coisas, porque tais prazeres figuram entre os mais tristes do mundo.
   Se Sverine tivesse tentado uma intoxicao qualquer, teria penetrado na intolervel natureza do sentimento que se fundia sobre ela prpria. Estava to prxima 
da loucura como uma morfinmana a quem a droga  arrebatada no momento da inoculao. Todas as explicaes de Pierre correspondiam to pouco ao que ela esperava! 
Vinham despojadas de qualquer sabor, de qualquer ressonncia. Uma irritao que Sverine no mais acreditava fosse possvel a obrigava a voltar-se contra o marido. 
Era uma irritao que nascia dos seus dedos e se expandia, sem poupar um nervo, uma clula, ganhando os seios, a garganta, a cabea. Desorientada, sussurrou:
   - Mas fala! Fala... Continua a falar.
   E, como Pierre a contemplasse muito atentamente, gritou-lhe:
   - Cala-te! Basta... No posso mais... Isso devia ser proibido... Pierre, Pierre, tu no sabes...
   Os soluos, as convulses a interromperam.
   - Sverine, querida... Minha pequena Sverine. Pierre acariciava-lhe o rosto, os cabelos, as espduas, com uma piedade ainda maior do que a sua inquietao. Porque 
Sverine se agarrara a ele como se procurasse amparo contra uma perseguio horrvel. E, quando os movimentos desordenados deixaram a descoberto sua fisionomia, 
ela revelou a dilacerante expresso de uma criana inocente e aterrorizada.
   Por fim, entre suas queixas, Pierre pde distinguir palavras que se ligavam, formando sentido:
   - No me desprezes, no me desprezes. Acreditou que Sverine se envergonhava de suas prprias lgrimas - ela, que jamais chorava - e disse-lhe, com uma espcie 
de venerao:
   - Mas eu te quero ainda mais, minha filhinha.  preciso realmente muita pureza para algum ficar to ferida com uma histria dessas...
   Sverine afastou-se dele com uma breve sacudidela, encarou-o e balanou a cabea, num movimento estonteado.
   - Sim. Tens razo - concordou ela. - Vou-me deitar.
   Levantou-se penosamente. Pierre no completou o gesto que esboara para dar-lhe ajuda. Tivera subitamente a intuio de que se tornara estranho a Sverine. Entretanto, 
quando a viu de p, to desfeita, ainda props, timidamente:
   - Queres que passe a noite contigo?
   - Por coisa alguma do mundo.
   Ela ajuntou, alguns segundos depois, ante a palidez de Pierre:
   - Mas ficarei contente se permaneceres perto do meu leito at eu ter dormido.
   No era a primeira vez que Pierre velava Sverine, mas jamais o fizera com o corao to oprimido. Na penumbra, adivinhava que os olhos da jovem esposa se voltavam 
incessantemente para ele. Por fim, no mais pde conter-se e se inclinou para ela. Seus olhares eram de uma fixidez mortal.
   - Que tens, minha querida?
   - Tenho medo. E ela tremia.
   - Mas no estou aqui? De quem tens medo? Ou de qu?
   - Se eu pudesse saber!
   - No tens confiana em mim?
   - Oh! Sim, Pierre.
   - Ento? Pensa no belo dia que vai fazer amanh. Viste como o cu estava estrelado. Pensa que amanh irs jogar tnis, te vestirs de branco e ganhars trs partidas 
seguidas. Fecha os olhos. Aplica todas as tuas foras em representar-te assim. No  verdade que isso te faz bem?
   -  verdade - respondeu Sverine, enquanto a inimiga instalada dentro dela (mas seria mesmo uma inimiga?) e que duplicava de maneira secreta todos os seus pensamentos, 
misturava s alvas bolas de tnis que voavam ao sol o sorriso friorento de Husson.
   
   
   Sverine e Husson tinham-se encontrado algumas vezes em lugares pblicos, depois da tentativa que ele fizera em casa dela, e a jovem senhora sempre fingira no 
reconhec-lo. Ele aceitara docilmente tal atitude. Entretanto, foi sem surpresa aparente que Husson a viu dirigir-se a ele, naquela manh, na quadra de tnis.
   - Ainda no comeou a jogar? - perguntou Sverine.
   - Ainda no - respondeu. - E no comearei antes que a minha conversao a tenha enfadado...
   Assim que ele pressentira Sverine, os dois ficaram inteiramente  vontade. Apenas, a estranha deferncia de Husson, a mesma que testemunhara  esposa de Pierre 
depois de seu fracasso, esfriava um pouco a jovem senhora. Nem por isso ela deixou de dizer:
   - Rene e eu falamos a seu respeito, ontem  noite ("ele deve ter percebido que estou mentindo", pensou Sverine, com uma lucidez e uma indiferena perfeitamente 
iguais). Ela me comunicou uma novidade que certamente deve interess-lo. Trata-se de uma amiga dela que freqenta uma dessas casas...
   - Henriette, no  mesmo? Sei... Sei...
   No levantou o olhar para Sverine, mas pareceu observar longamente o ritmo de sua respirao, antes de recomear.
   - O caso no  divertido...  um problema de dinheiro. Absolutamente, nada tem de divertido em si mesmo - corrigiu ele, com uma voz sem nuanas, como para domar 
Sverine -, mas ainda assim no deixa de ter o seu lado interessante e saboroso para os que dele se beneficiam. Eis uma mulher que comumente tem direito a homenagens 
ou, pelo menos,  polidez dos outros, e a quem conseguimos impor os nossos desejos... Os mais exigentes e, como se diz, os mais vergonhosos. Oh! Em geral a fantasia 
dos homens  restrita, mas tratar assim uma mulher da melhor sociedade  pior ou, talvez, melhor do que uma violao...
   Sverine ouvia com a cabea um pouco inclinada e o busto muito ereto. Husson prosseguiu, com sua voz impessoal:
   - Hoje em dia, no freqento mais essas casas. J as vi demais. Antigamente, eu as adorava. Tinham um odor de vcio pobre. Via-se a melhor para que os nossos 
corpos so feitos. H uma espcie de humildade nessa luxria, tanto para as que vivem dela como para os que a pagam. Falo, bem entendido, das casas modestas, pois 
h tambm aquelas em que o luxo  nababesco, como a do nmero 42 da Rua Ruispar ou a do nmero 9-bis da Rua Virne ou... Mas poderia continuar citando durante longo 
tempo... No entro mais nelas, mas ainda gosto de passar, s vezes, diante de suas fachadas... Ningum diria que por trs de uma fachada burguesa, perto do Hotel 
des Ventes ou do Louvre, homens desconhecidos se desnudam e tm a seu dispor mulheres escravas, como mais lhes agradar, sem nenhum controle. Isso excita a imaginao...
   Sverine deixou Husson, sem uma palavra. Sem mesmo estender-lhe a mo. Seus olhos no se reencontraram.
   
   
   A partir desse momento, os mil movimentos informes que haviam supliciado Sverine se cristalizaram numa firme obsesso. Ela no tomou conhecimento disso imediatamente, 
mas j havia rompido a membrana que isolava o seu ser aparente do fundo obscuro em que fervilhavam suas larvas cegas e todo-poderosas. J se estabelecera a comunicao 
entre o mundo ordenado em que sempre vivera e aquele que se lhe abrira sob o impulso de um instinto de que ainda hesitava em medir o poder. J se penetravam, j 
se ligavam a sua personagem habitual e o ser que nela despertava com todo o vigor que d um longo sono.
   Sverine levou dois dias para compreender o que tal ser dela reclamava. Dois dias durante os quais praticou os gestos e disse as palavras de que estava acostumada 
a servir-se. Ningum, nem mesmo Pierre, notou o estado de fremente auscultao em que ela vivia. Entretanto, ela prpria sentia encravado em seu flanco, ardente 
e sem misericrdia, um espinho envenenado.
   A mesma imagem torturou ao longo de todas essas horas o seu crebro aflito. Essa imagem, concebera-a durante a felicidade equvoca do primeiro perodo de sua 
convalescena. Um homem, cujo rosto mal definido no tinha outra forma que a de um espesso desejo, a perseguia atravs de um quarteiro srdido. Fugia-lhe, mas de 
modo to precrio que ele nunca a perdia inteiramente de vista. Quando entrava, por fim, num beco sem sada, o homem se aproximava tanto dela, que lhe ouvia cada 
vez mais perto o barulho dos passos. Ela respirava ansiadamente, com angstia, na expectativa de uma volpia sem nome. Mas o homem no a encontrava no canto em que 
se escondera. E partia. Quando se afastava, Sverine em vo procurava, com desespero, aquele bruto que levava o seu mais importante segredo.
   Outras vises, ainda mais baixas e mais confusas do que as que experimentara durante a sua doena, igualmente voltaram a perturb-la, mas era essa a que formava 
o tema profundo, em torno do qual as outras se ordenavam. Sverine, por dois dias e duas noites, apelou para o homem do beco e, finalmente, certa manh, tendo Pierre 
partido, como de costume, para o hospital, vestiu-se o mais sobriamente possvel, desceu e chamou um chofer.
   - O senhor me levar  Rua Virne - disse - e a atravessar de ponta a ponta, bem lentamente. No me lembro mais do nmero, mas creio que reconhecerei a casa.
   O automvel partiu pelo cais. Em breve, Sverine recebeu a massa pardacenta do Louvre. Sua garganta cerrou-se por n to apertado que ela levou as mos ao pescoo, 
como se quisesse desfaz-lo. O seu objetivo estava prximo.
   -  esta a Rua Virne - informou o chofer, freando o carro.
   A cabea de Sverine se voltava para o lado dos nmeros mpares. Uma fachada... Mais outra... e eis que ela - antes de o automvel parar - adivinhou a que procurava. 
Essa casa em coisa nenhuma se distinguia das outras, mas um homem acabara de penetrar no prtico, e Sverine, ainda que lhe visse apenas as costas, reconhecera as 
suas intenes. Corpulento, o palet amarfanhado, com aquelas espduas e aquela nuca vulgar... ia  procura de mulheres dceis... Sim, no podia ser outro lugar. 
Sverine arriscou sua vida nessa certeza. Uma intuio promscua levava-a a partilhar a pressa com que aquele homem ali havia entrado, o desajeitamento involuntrio 
dos seus braos e a dura sensualidade que o impelia.
   O automvel chegara ao fim da curta rua. Foi preciso que o chofer o dissesse a Sverine. Ela o fez conduzi-la de volta a casa.
   Tinha, agora, um alimento a mais para a sua obsesso. O homem furtivo da Rua Virne e o homem que no conseguira agarr-la no beco se confundiam. No podia pensar 
naquela silhueta que desaparecera na casa vergonhosa sem que um sofrimento embriagador ralentasse o ritmo de seu corao. Imaginava rever-lhe a fronte baixa, as 
mos carnudas cobertas de plos, as roupas grosseiras. Ele subia a escada... tocava a campainha. As mulheres vinham. A, detinha-se o pensamento de Sverine, porque 
o que se seguia era um delrio de sombras, de carnes, de respiraes difceis.
   Por algum tempo, essas imagens lhe bastaram. Mas, depois, por sua prpria freqncia e intensidades, exauriram-se. Sverine sentiu necessidade de rever a casa.
   Na primeira vez, fizera-se levar num carro. Da segunda, porm, foi a p. Tinha medo, e no ousou deter-se sequer por um instante, para ler a placa colocada junto 
da porta. Contemplou, porm, com uma profunda perturbao, aquelas velhas paredes, que pareciam embebidas da luxria, a triste e violenta luxria que abrigavam.
   Na terceira vez, Sverine decifrou rapidamente os caracteres discretos:
    Madame Anais - Sobreloja  esquerda.
   E, na quarta vez, entrou.
   Sverine no saberia dizer como subiu a escada nem como se encontrou, depois de aberta a porta, diante de uma agradvel e grande mulher loura, ainda relativamente 
jovem. A respirao lhe faltava. Quis fugir, mas no ousou. E ento ouviu dizer:
   - Deseja alguma coisa, senhorita? Murmurou:
   -  a senhora quem... quem toma conta?...
   - Sou Madame Anais.
   - Ento, eu gostaria de...
   Sverine lanou um olhar de animal perdido  antecmara em que se encontrava.
   - Venha conversar tranqilamente - convidou Madame Anais.
   E levou a jovem senhora para uma pea revestida de papel pintado, de cor sombria, onde uma grande cama estava coberta por uma colcha vermelha.
   - Pois muito bem, minha pequena - recomeou logo Madame Anais. - Voc quer passar um pouco de manteiga no seu po. E estou pronta para ajud-la.
   Voc  simptica e jovem. Exatamente do gnero que mais agrada aqui. Mas j sabe: metade para voc, metade para mim. Como deve compreender, tenho as minhas despesas...
   Sverine concordou com a cabea, incapaz, como estava, de responder por palavras. Madame Anais abraou-a e beijou-a.
   - Um pouco emocionada, no? J percebi - disse - que  a primeira vez... no  verdade? Mas ver que no se trata de uma coisa to terrvel assim... Ainda  muito 
cedo. Suas colegas no chegaram. Seno, elas mesmas lhe diriam... Agora, diga: quando quer comear?
   - No sei ainda...-Depois... verei. Repentinamente, Sverine gritou com fora, como se temesse no mais poder sair:
   - Em todo caso,  preciso que me v embora s cinco...  preciso...
   - Como quiser, minha pequena. Das duas s cinco  um bom horrio, no? Voc ficar sendo chamada aqui a Belle-de-Jour, a nossa estrela da tarde... Mas precisa 
ser pontual, ouviu? Sem o qu, no nos daremos bem. s cinco horas, ficar livre.  um amiguinho que estar  sua espera, no? Ou ser um maridinho?...
   
  
  
  5
   
   
   
   "Ou ser um maridinho?... Ou ser um maridinho... Ou ser um maridinho..."
   Logo aps essas palavras, Sverine deixara Madame Anais. Mas continuava a murmur-las obstinadamente. No as compreendia. E sentia-se aniquilada.
   Passou diante das colunatas do Louvre. Olhou, por um segundo, para essa nobre fachada, e isso lhe fez bem. Mas, logo, desviou a cabea. Achava que no tinha mais 
direito a esse espetculo.
   Um congestionamento do trfego, provocado por nibus, barrou-lhe o caminho. Um deles se dirigia para Saint Cloud e Versalhes. Sverine lembrou-se de que, um dia, 
saindo do museu com Pierre, lhe dissera gostar dessa linha que levava s belas residncias reais. Pierre... O Louvre de Pierre Lescot... Pierre, o seu maridinho... 
O homem a quem convinham to bem as paisagens dos palcios e dos parques sem defeito... E era ele quem tinha por esposa uma...
   Tudo se confundia na mente de Sverine: o retinir das campainhas dos nibus, as perspectivas augustas, Madame Anais, a sua prpria personalidade. Atravessou s 
cegas a calada e se encontrou diante do Sena, apoiada a um parapeito. Ali, respirava melhor. No rio, rolavam, lodosas, as guas da primavera. Sverine sentia-se 
fascinada pela possante e duvidosa cor daquelas guas. E desceu a ribanceira.
   A paisagem e a humanidade que descobriu eram to novas para ela que experimentou a impresso de ter sido arrebatada para sempre  sua existncia anterior. Aquelas 
margens arenosas, aqueles montculos de carvo e de ferragens, os barcos achatados cobertos de fuligem sobre os quais homens corpulentos seguiam em silncio, aquelas 
muralhas to altas, muito mais altas do que supunha, e, especialmente, aquela gua, lodosa, rica, impenetrvel... Sverine avanou para ela, abaixou-se, abaixou-se 
mais, at mergulhar nela a mo.
   Retirou-a, vivamente, sem poder reprimir um grito abafado. A fascinante corrente estava gelada como a morte. Ficou espantada com o seu desejo, que s nesse momento 
reconheceu, e que quase a confundiu com o leito lamacento do rio. Mas que crime tinha cometido, para querer sepultar-se na densidade lquida? Madame Anais... Era 
fora de dvida que fora  casa dessa mulher e lhe dera ouvidos... Mas Pierre, o prprio Pierre teria piedade dela, caso lhe narrasse o seu atroz sofrimento, a sua 
obsesso implacvel e sem alegria, que a levara  Rua Virne. Ela o sabia, c amava-o ainda mais por isso. Ele no sentiria clera, nem desprezo, mas piedade, porque 
isso era mais justo. A prpria Sverine sentia-se dilacerada de compaixo por si mesma.
   Seria acaso punvel um acesso de loucuras? E o que havia feito poderia merecer qualquer outro nome? Era preciso curar-se do mal que subitamente a atingira. E 
ento nada mais subsistiria dessa semana terrvel. E a cura, dizia a si mesma, estava assegurada, pois j se sentia quase morta, em conseqncia de sua iniciativa 
insensata. E a idia de voltar  casa de Madame Anais bastava para que se inteiriasse de medo, pois que...
   Os pensamentos que, com uma velocidade desesperada, se atropelavam no crebro de Sverine foram brutalmente substitudos por uma impotncia total para refletir. 
Seu vazio era completo. Parecia-lhe que toda a sua substncia, aspirada por uma boca insacivel, desertava-lhe o corpo. Levantou os olhos... Bem perto, quase a toc-la, 
estava um homem que, no seu febril debater-se, ela no percebera que se aproximara. Tinha o pescoo nu, poderoso, e largas espduas tranqilas. Trabalhava, sem dvida, 
como maquinista de uma das embarcaes encostadas ao cais, perto da Pont Neuf, pois conservava na cabea o bon azul e tinha no rosto vestgios de fuligem e de leo. 
Cheirava a fumo ordinrio, a graxa, a fora.
   E fixava pesadamente Sverine, talvez sem se dar conta do desejo que ela lhe inspirava. Esse homem estava descendo o rio, de Ruo para o Havre. E se detinha, 
agora, diante de uma bela mulher. Ela se achava por demais bem vestida para ele, bem o sabia, mas mesmo assim a desejava e a contemplava.
   Muitas vezes, em lugares pblicos, Sverine sentira sobre o seu corpo os olhares cobiosos de desconhecidos, sem que experimentasse mais que simples embarao 
ou aborrecimento. Mas esse desejo de agora, macio, cnico e, ao mesmo tempo, puro, jamais o tinha encontrado antes, a no ser naquele homem que a perseguia em seus 
sonhos e naquele que vira penetrando na casa de Madame Anais. E o mesmo homem -- porque era o mesmo - avanava para ela. Bastaria estender-lhe a mo para que ela 
sentisse o contato que desesperadamente havia implorado. Mas ele no ousaria, no poderia ousar...
   "E, contudo, se eu estivesse na Rua Virne, por trinta francos, ele poderia..." - pensou Sverine, com sbita e terrvel acuidade.
   Percorreu com o olhar todas as fisionomias, todos os corpos que encontrara naquele universo primitivo, abrangido de um lado pela muralha rgida e do outro pelo 
rio espesso. O carroceiro que segurava o seu cavalo pelo focinho para entravar a descida, parecendo suster com os seus punhos o animal, a carroa e o carregamento 
de pedras que ela trazia; o carregador de fronte baixa e de rins imveis; os biscateiros brancos, enfartados de bebidas e de comidas pesadas - todos esses homens 
cuja existncia Sverine at ento ignorara, esses homens de uma carne to diversa da dela -, poderiam t-la nos braos, em casa de Madame Anais, por trinta francos.
   Sverine no teve o vagar necessrio para discernir a espcie de espasmo que lhe cerrava o peito. O maquinista da embarcao deu um passo para trs. O medo que 
se apoderou da jovem mulher foi intolervel, porque no se ajustava a uma impresso real. Ela reencontrava o seu sonho. Esse homem ia desvanecer-se, como o outro, 
aquele do beco. Sverine sentiu-se impotente para enfrentar, pela segunda vez, o desgosto de sua desapario. No o suportaria mais.
   - Espere um pouco... Espere - gemia. Depois, pousando os olhos brilhantes nos olhos sem expresso do maquinista:
   - s trs horas, na Rua Virne n. 9-bis, na casa de Madame Anais.
   Ele sacudiu, estupidamente, seus cabelos cheios de carvo.
   "No compreende ou no quer mais", dizia Sverine a si mesma, com esse pavor inumano que os pesadelos provocam. "Ou, ento, no tem dinheiro."
   Sem tirar os olhos do homem, remexeu na bolsa, estendendo-lhe uma nota de cem francos. Aturdido, o homem a apanhou e examinou atentamente. Quando ele levantou 
a cabea, Sverine subia depressa os degraus que, da ribanceira, conduzem ao cais. O homem ergueu as espduas, dobrou a nota na mo e se dirigiu a seu barco. No 
havia tempo a perder. Iam partir exatamente ao meio-dia.
   Essa mesma hora do meio-dia, quando comeavam a carrilhonar os velhos sinos da velha Paris, determinara a partida de Sverine. Pierre a essa hora terminava o 
seu trabalho no Htel-Dieu. Precisava ir-lhe ao encontro, antes que ele deixasse o hospital pblico. Como todas as decises que Sverine tomava naqueles dias, essa 
tanto tinha de imprevisto quanto de imperioso.
   Um pndulo, submetido a uma oscilao brutal, logo executa um movimento compensatrio. Era assim o corao de Sverine: impelia-a para Pierre com um ardor to 
ou mais fatal quanto mais baixamente o havia esquecido.
   Que ele a protegesse contra o que ela prpria empreendera, Sverine no o esperava. Estava terrivelmente convicta de que ningum poderia impedir que se encontrasse, 
 hora aprazada, na Rua Virne. Procurava uma desculpa no acaso que a tinha colocado diante daquele homem, nas margens do Sena. Agora, que tomara tal deciso, sentia 
que tudo lhe servia de pretexto para refor-la e que, em qualquer homem que encontrasse, no cruzamento de uma rua, acreditaria reconhecer a figura do seu pesadelo, 
animal, exigente  qual deveria pertencer. Mas, antes que se cumprisse o sacrifcio, que ainda no sabia se seria feito de horror ou de felicidade, corria para Pierre, 
a fim de se ver pela derradeira vez envolta por seu carinho, pois dentro em breve esse prazer lhe seria roubado pelo ato que ia consumar.
   - O Dr. Srizy ainda est? - perguntou Sverine, com angstia, ao porteiro do hospital.
   - No tardar a sair... Ali vai ele, para trocar de roupa...
   Pierre atravessava o ptio, cercado por um grupo de estudantes. Todos vestiam blusas brancas. Sverine contemplou a figura jovem do marido, para o qual se voltavam 
outras figuras, ainda mais jovens. Ela era muito pouco sensvel s emoes intelectuais, mas nesse grupo transparecia to ardente sede de conhecimentos, tanta sade 
moral, e tudo isso convergia to visivelmente para Pierre, que Sverine no ousou cham-lo.
   - Eu o esperarei aqui - disse, em voz baixa.
   Mas, advertido, sem dvida, por seu instinto amoroso, Pierre voltou a cabea para o lado da mulher e, se bem que ela se conservasse entre as sombras do saguo, 
reconheceu-a. Sverine o viu dirigir algumas palavras aos jovens que o seguiam, encaminhando-se ento ao seu encontro. Enquanto ele se aproximava, ela examinava 
avidamente aqueles traos mais preciosos do que todos, como se no devesse mais rev-los. Pierre apresentava-lhe um rosto desconhecido, ainda marcado pelas horas 
passadas num domnio que no pertencia seno a ele, a seus mestres, a seus alunos. Os vestgios de um trabalho a que se dedicava com amor e com paciente bondade, 
uma expresso ao mesmo tempo de chefe e de bom operrio, eis o que Sverine descobria sob aquela blusa branca, to branca que a obrigava invencivelmente a pensar 
na vermelhido sagrada do sangue.
   - No te zangues por eu ter vindo perturbar-te - disse Sverine, com um sorriso entre amoroso e culpado. - Mas, como fazia compras aqui por perto... Compreendes...
   - Zangar-me? - perguntou Pierre, comovido por uma impacincia e uma timidez s quais estava pouco habituado. - Zangar-me, minha querida, quando me ests dando 
um prazer?... O que estou  orgulhoso de mostrar-te aos meus camaradas. No notaste como todos eles te olharam?
   Sverine curvou-se ligeiramente para o cho, como se quisesse ocultar a palidez que lhe gelava a face. Pierre continuou:
   - Espera-me um segundo. Temos ainda meia hora, antes do almoo. Ah, se no tivesse sido convidado por meu chefe, como gostaria de ficar contigo...
   O tempo era agradvel. Sverine, atrada por um lugar mais que inocente, arrastou Pierre para o pequeno jardim que verdeja ao flanco da Igreja da Notre-Dame. 
Ali a primavera se apresentava bem mais humilde que nos demais recantos da cidade. Os quarteires malsos que cercam o Hotel de Ville tinham emurchecido as fisionomias 
das crianas que l brincavam. De quando em quando, um raio de sol que se escapava de entre as nuvens de abril ricochetava numa grgula ou se embebia na matria 
misteriosa de um vitral. Velhos operrios conversavam, nos bancos. Diante deles, estendiam-se a Ilha de So Lus e o cais tranqilo do brao esquerdo do Sena.
   Sverine, apoiada ao brao do marido, fez vrias vezes a volta ao jardim. Pierre falava das vidas que quela hora do dia se abrigavam na catedral para orar, mas 
Sverine no escutava seno o som confuso de sua voz, a que se tornava surda, sem o querer. Alguma coisa se estilhaava dentro dela, lentamente, funestamente. Quando 
Pierre ia partir, ela no o acompanhou at junto ao gradil.
   - Quero ficar ainda um pouco - desculpou-se. - Vai, meu querido.
   Abraou-o com uma veemncia convulsiva e repetiu, surdamente:
   - Vai, meu querido, vai.
   Depois, Sverine encaminhou-se dificilmente para um banco, onde, entre duas mulheres que faziam tric, comeou a chorar sem rudo.
   No pensou em alimentar-se nem em sair daquele lugar. Recolhida em si mesma, ouvia o que, dentro dela, era inacessvel a todos. Duas horas assim se passaram. 
Sem consultar relgio, Sverine dirigiu-se do jardim da Notre-Dame  Rua Virne.
    Madame Anais pareceu contente ao v-la.
   - J no contava com voc, minha pequena - disse. - Nesta manh, saiu to bruscamente que at acreditei que estava com medo. Mas no h motivo para isso, como 
vai ver...
   Riu, com um riso afetuoso e sadio. E encaminhou Sverine para um quarto de dimenses reduzidas, que dava para uma rea obscura.
   - Guarde suas coisas aqui - comandou alegremente Madame Anais, abrindo um armrio, onde Sverine percebeu dois chapus e dois casacos.
   Obedeceu, sem uma palavra. Seus maxilares, alis, pareciam soldados um ao outro. Enquanto isso, pensava febrilmente: " preciso avis-la... Sobre esse homem que 
vir para mim...somente para mim." Mas lhe foi impossvel articular um som. E continuou a ouvir a voz de Madame Anais, de quem o esforo sincero de atrao e envolvimento 
ao mesmo tempo a adormentava e terrificava.
   - Como v, minha pequena,  aqui que fico, quando no tm necessidade de mim. No  um quarto muito claro, mas, junto  janela, onde coloquei a minha mesa de 
costura, posso ver suficientemente. Matilde e Charlotte so ambas muito gentis. Alis, no suporto seno pessoas bem-educadas e alegres.  preciso que a gente trabalhe 
se divertindo e sem histrias. Foi por isso que h uns cinco dias mandei embora Huguette, a terceira. Era uma bela garota, mas conversava muita bobagem. Voc... 
voc  de um gnero verdadeiramente requintado, minha pequena... minha pequena... Como  mesmo que voc se chama?
   - Eu... no posso dizer.
   - Bobalhona! Ningum est pedindo sua certido de nascimento ou a carteira de identidade... Escolha voc mesma o nome de guerra que quiser. Que seja gentil, gracioso. 
E que agrade,  claro. Bem, isso no lhe deve causar preocupaes. Suas colegas e eu lhe arranjaremos um nome que lhe assentar como uma luva...
    Madame Anais apurou o ouvido. Vinham risos do outro lado do corredor.
   - Matilde e Charlotte - revelou - esto acabando de entreter o Sr. Adolphe, um dos nossos melhores fregueses.  um caixeiro-viajante que ganha muito bem... e 
 muito divertido. Quase todas as pessoas que vm aqui so muito decentes. Voc vai agradar-se da minha casa, estou certa. Enquanto esperamos, vamos tomar qualquer 
coisa, para comemorar sua chegada. Que  que prefere? Tenho toda espcie de bebidas na minha pequena adega... Veja.
   Num armrio, colocado em frente do outro, em que Sverine guardara o chapu, Madame Anais indicou vrias garrafas. Ao acaso, Sverine apontou para uma e tomou 
o seu gole de bebida, sem nem ao menos perceber-lhe o gosto, enquanto Madame Anais respirou longamente o cheiro do anis. Depois de ter bebido, recomeou:
   - Por enquanto, ficar sendo chamada Belle-de-Jour. Acha que est bem? Sim? Voc  de boa paz. Ainda um pouco tmida, mas isso  natural. Desde que saia daqui 
s cinco horas, tudo o mais estar bem... No  isso mesmo o que quer?
   Sverine teve um movimento instintivo de recuo.
   - Oh, no insisto... No procuro forar confidencias... Voc no demorar muito a faz-las por sua prpria vontade. No sou uma patroa, mas uma camarada, uma 
verdadeira amiga. Compreendo a vida... Claro que prefiro o meu lugar ao seu, mas, afinal de contas, no fomos ns duas, voc e eu, que organizamos a sociedade tal 
como ... Venha c: d-me um abrao e um beijo, minha Belle-de-Jour.
   No havia mais que o sinal de uma verdadeira simpatia e amizade na voz de Madame Anais. Contudo, Sverine desvencilhou-se bruscamente dela. Com os superclios 
franzidos, toda a fisionomia tensa e lvida, voltou a cabea para o quarto de onde, momentos antes, vinham aqueles risos. Reinava um silncio entrecortado de rudos 
abafados. Sverine tinha a sensao de que esses rudos disciplinavam a marcha de seu corao. Dirigiu-se a Madame Anais com os olhos to fixos, to cheios de angstia 
animal, que, por um segundo, esta teve talvez percepo do obscuro drama carnal a que diariamente presidia. Um sinal de aborrecimento transpareceu-lhe na boca benvola. 
Seus olhos percorreram o quarto que ela mostrara com tanta boa-f e, depois, voltaram aos de Sverine. Trocaram um desses olhares fraternais de que sempre nos arrependemos 
porque revelam uma verdade muito profunda, que ordinariamente nos esforamos por esconder. Esse olhar era uma pusilnime queixa sexual.
   - Vamos, vamos - disse Madame Anais, sacudindo os cabelos louros e ondulados. - Voc est alterando o meu temperamento. E eu tinha acabado de lhe dizer que no 
fomos ns que fizemos a sociedade...
   Um chamado um pouco rouco, mas alegre, lhe chegou aos ouvidos:
   - Patroa, patroa, d uma chegadinha aqui!
   - Com certeza  Charlotte que quer beber alguma coisa - disse Madame Anais.
   Ela saiu, sorrindo, com segurana. Uma vez sozinha, Sverine se inteiriou. Fugir... devia fugir. No podia permanecer naquele lugar, nem um minuto mais... No 
conseguia ligar sua presena em tal lugar a qualquer coisa real, possvel. Esquecera o maquinista da embarcao do Sena, esquecera Pierre, esquecera a prpria Madame 
Anais. No sabia por que encadeamento de fatos estava ali, e esse mistrio lhe inspirava um desejo desesperado de liberdade. Todavia, no saiu dali.
   Uma voz masculina se fez ouvir, em tom de censura:
   - Mas como  isso? Ento tinha uma novata aqui e no me disse nada? Isso no est direito...
    Madame Anais apareceu, tomou Sverine pelo brao e a conduziu.
   - Aqui est Belle-de-Jour - disse uma mulher jovem, de cabelos bem negros.
   O quarto onde Sverine se encontrava era o mesmo que lhe tinha sido mostrado, naquela manh, por Madame Anais. Se no o reconhecia, tampouco nele encontrou qualquer 
coisa parecida com a caverna devorante e lasciva que um minuto antes ainda imaginava. A cama estava parcimoniosamente amarrotada. Havia um colete colocado nas costas 
de uma cadeira, os sapatos alinhados lado a lado, tudo testemunhando uma licenciosidade burguesa. E o homem, que ria beatamente numa poltrona, acariciava como por 
um dever de ofcio os seios da grande mulher morena. Sverine no esperava encontrar-se nesse lugar, at ento envolvido, para ela, numa perversidade quase mstica. 
O homem se achava em mangas de camisa. Fortes suspensrios acompanhavam a curva de seu corpo arqueado. O pescoo gordo sustentava uma cabea um pouco calva, onde 
a bonomia lutava com a auto-suficincia.
   - Salve, minha bela - disse ele, agitando uns ps muito pequenos, calados de meias de cor viva. - Vais tomar um copo de champanha conosco e com a nossa velha 
amiga Anais tambm. Evidentemente, depois de pequeno almoo reforado que comi hoje, um bom conhaque me cairia melhor, mas Matilde (apontou uma mulher algo doentia 
que, sentada na cama, acabava de vestir a saia) quer champanha. Ela trabalhou bem, e no sei negar nada...
   O Sr. Adolphe seguiu com o olhar Madame Anais, que fora buscar a bebida. O corpo rijo e bem construdo da dona da casa o fez suspirar.
   - Voc ainda est pensando nisso? - perguntou Charlotte, que continuava a acariciar o viajante comercial.
   - Ah, juro que, por mais que vocs duas me hajam fatigado, se ela quisesse eu ainda dava um jeito...
   Matilde observou docemente:
   - Nem pense nisso. No seria direito. Madame Anais sabe guardar as convenincias. Por que, em vez disso, no prefere a novata? Ela nem ousou sentar-se...
   - Belle-de-Jour, minha querida - falou Madame Anais, que voltara com uma garrafa e alguns copos. - Venha ajudar-me a servir.
   -  verdade que ela tem um ar de garota de famlia - observou Charlotte -, mas com um jeito um pouco ingls, no  verdade? Olhe s para o tailleur dela...
   Aproximou-se de Sverine e lhe sussurrou ao ouvido, com muita gentileza:
   - Precisa usar vestidos que possa tirar facilmente, como se fossem uma camisa. Desse jeito, vai perder um tempo louco...
   O viajante comercial entendera a ltima frase.
   -  verdade... A pequena tem razo - concordou. - Esse tailleur no te assenta bem... Chega aqui, um pouco mais perto.
   Puxou Sverine para ele e lhe murmurou ao ouvido:
   - Deve ser bom a gente arrancar essa tua roupa...
    Madame Anais, inquieta com a sbita expresso estampada no rosto de Sverine, interveio:
   - O champanha vai ficar quente, minha gente.  boa sade do Sr. Adolphe!
   - So tambm os meus votos, so tambm os meus votos - fez ele, alegremente.
   Sverine hesitou, quando a bebida morna e por demais aucarada tocou os seus lbios. Como se na verdade se tratasse de outra, viu uma jovem mulher de espduas 
nuas, que era ela, sentada perto de um homem belo e enternecido, que era Pierre. E essa mulher escolhia o vinho mais seco e jamais achava esse vinho suficientemente 
gelado. Mas aqui Sverine se julgava condenada a fazer o que dela se esperava. E terminou a taa. Outra garrafa foi esvaziada e, depois, uma outra. Charlotte veio 
colar os lbios longamente nos de Matilde. Madame Anais ria com maior freqncia o seu riso franco. Os gracejos do Sr. Adolphe visavam a uma obscenidade espiritualizada. 
S Sverine se mantinha calada e lcida. Sbito, mos fortes, apoiando-se com fora sobre suas ancas, fizeram-na sentar-se numas coxas gordas. E ela viu, contra 
os seus olhos, uns olhos midos de sensualidade, enquanto a voz do Sr. Adolphe sussurrava-lhe aos ouvidos:
   - Belle-de-Jour, agora  a tua vez. Vem c: vamos ser felizes juntos.
   De novo, a expresso de Sverine se alterou, de uma forma que no se casava com o ambiente da Rua Virne. E, de novo, Madame Anais preveniu a exploso de uma 
clera que no podia ser a de Belle-de-Jour, mas de uma outra, contra quem esta ainda lutava. Chamou de parte o Sr. Adolphe e lhe disse:
   - Vou levar Belle-de-Jour comigo por uns minutos. Mas, quando voltar, no seja muito brusco com ela, porque ainda  nova...
   - Nesta casa?
   - Nesta casa ou em qualquer outra. Jamais freqentou casa alguma.
   - Uma estreante, ento? Obrigado, Anais. Sverine encontrou-se no quarto dos armrios e da mesa de costura.
   - Ento, minha pequena? No tem todos os motivos para estar contente? Mal entrou paia a casa e j foi escolhida... E por um homem generoso e bem-educado. No 
deve atormentar-se. O Sr. Adolphe no  exigente. Basta voc ir-se deixando levar. Ele no pede mais do que isso. O gabinete de toalete fica ao lado esquerdo, mas 
entre vestida como est. Ele prestou ateno em voc por causa do seu tailleur. E sorria um pouco. Vocs precisam sempre dar a impresso de que tm tanta vontade 
quanto eles...
   Sverine parecia no ter ouvido nada. Cabea curvada sobre o peito, respirava com dificuldade. Esse rudo irregular era a sua nica manifestao vital. Madame 
Anais a empurrou para a porta, com uma doce firmeza.
   - No, no! - ops de chofre Sverine. -  intil. No irei.
   - Mas que  isso? Onde pensa que est, pequena? Por mais embotada que estivesse a sua sensibilidade, Sverine estremeceu de alto a baixo. Jamais acreditara que 
a voz amvel de Madame Anais pudesse adquirir um tom to imperioso, uma expresso to inflexvel. Nem que seu rosto to claro pudesse endurecer-se at a crueldade. 
No fora de medo ou de revolta que o corpo de Sverine estremecera, mas por um sentimento que naquele instante descobrira e a atravessava de lado a lado, deliciosa 
e aviltantemente. Vivera at ento com um orgulho de tal modo tranqilo que ningum jamais o tinha ousado tocar. E eis que agora uma dona de bordel a advertia energicamente, 
como se chamasse  ordem uma criada relapsa. Um confuso claro de reconhecimento transpareceu no olhar altivo de Sverine. E, para esgotar at o fim o filtro da 
humilhao, ela obedeceu.
   Esse curto espao de tempo no fora desperdiado pelo Sr. Adolphe. Dobrara as calas, colocando-as sobre a cmoda, com os suspensrios tambm cuidadosa e artisticamente 
arrumados. Quando completava essa tarefa, Belle-de-Jour entrou. Vendo o caixeiro-viajante em longas e anacrnicas ceroulas coloridas, a mulher recuou de tal forma 
que o Sr. Adolphe julgou prudente colocar-se entre ela e a porta.
   - s mesmo uma coisinha selvagem, garota - disse ele, com satisfao. - Mas, como vs, sei viver. Mandei embora as outras. Assim, ser tudo mais ntimo. S ns 
dois...
   E se adiantou para Sverine - o que a fez ver que era bem mais alta do que ele - e perguntou:
   - Ento,  verdade? Diga:  mesmo a primeira vez que anda com outro, alm do seu apaixonado? Necessidade de dinheiro? No? Enfim... Voc est bem vestida, mas 
isso no prova nada. Ento... ser talvez por um pouco de... perverso?
   A nusea de Sverine era tanta que ela se voltou, para no ceder  tentao de abater a mo sobre aquela face to branca.
   - Voc tem vergonha. Confesse. Tem vergonha - sussurrava o Sr. Adolphe. - Mas vai gostar. Voc vai ver.
   Quis tirar-lhe o casaco, mas Sverine se lhe escapou, com um movimento brusco.
   - No falo por falar - admitiu o Sr. Adolphe -, mas a verdade  que voc me excita. Com esse seu jeito arisco, como voc me excita, querida!
   Ia torn-la nos braos, quando um empurro em pleno peito o fez cair. Ficou por um segundo estonteado, mas, de sbito, o desejo contrariado do homem que paga 
operou nos seus olhos sem brilho e nos seus traos bonaches a mesma espcie de transformao que obrigara Sverine a dobrar-se a Madame Anais. Agarrou a jovem mulher 
pelos punhos e aproximou do dela um rosto alterado pelo furor, articulando:
   - Voc no  louca, hem? Gosto de rir um pouco, mas isso tambm  demais. H um limite para as mulheres dessa espcie...
   E a mesma volpia terrvel que sentira momentos antes, agora ainda mais intensa, arrebatou todas as foras de Sverine.
   Mal acabou de vestir-se, ela se escapou, sem dar ouvido s recriminaes de Madame Anais. O prazer que experimentara por seu rebaixamento se desvanecera mal fora 
tocada por quem o havia dado. Ele tivera em seus braos uma mulher morta.
   Agora, ao longo do cais mido sob a luz crepuscular, ou caminhando pelas avenidas resplandecentes que no mais reconhecia, pelas praas imensas como a sua angstia 
e cheias dos zumbido de cigarras to numerosas que lhe faziam estalar o crebro, Sverine fugia para bem longe da Rua Virne, do Sr. Adolphe e, sobretudo, do que 
fizera. No queria mais pensar nisso, to inadmissvel lhe parecia a idia de que ia voltar para casa e encontrar tudo e\n seus lugares, como se nada houvesse acontecido. 
Marchava apressadamente, sem ligar  direo tomada, como se o nmero de passos dados por si ss bastasse para colocar o espao de mais um minuto entre ela e o seu 
apartamento. Vagueou, assim, tanto atravs de ruas cheias de densas multides quanto atravs de vielas desertas, como um animal perseguido que, em desabalada corrida, 
tenta fugir aos ferimentos.
   A fadiga, por fim, a deteve. Aproveitando-se da sombra, apoiou-se a uma amurada. Imediatamente, as imagens opressoras invadiram-lhe o esprito. Quis evit-las, 
ainda uma vez, voltando a caminhar. Mas, agora, depressa viu-se vencida pelo cansao. Entregou-se, ento,  lembrana do dia que acabara de viver. Ainda que sentisse 
um medo mortal, Sverine persistiu por longo tempo nessa rememorao, porque, pelo menos, tal lembrana a protegia contra uma deciso a tomar. Mas, a pouco e pouco, 
no teve mais o poder de ocupar o seu pensamento por inteiro. Em pequenas vises alucinatrias, aparecia aos seus prprios olhos entrando em casa, sentindo incidir 
sobre ela o olhar do porteiro, o sorriso da criada de quarto, os espelhos, todos os espelhos, cada um deles refletindo, por sua vez, aquele rosto impuro, beijado 
pelos lbios febris do Sr. Adolphe. Antes voltar correndo para casa de Madame Anais e trancar-se l, dia e noite, por toda a vida!
   - Belle-de-Jour... Belle-de-Jour... - dizia Sverine.
   Seria esse nome a promessa de uma volta?
   Sbito, precipitou-se para um txi de luz acesa, que passava lentamente, e gritou seu endereo ao chofer, ajuntando:
   - Depressa, depressa. Estou-me sentindo mal. Acabara de denunciar o seu estado de verdadeira angstia. Malgrado todo o esforo que fazia para repeli-la, a imagem 
de Pierre aparecera no campo de sua conscincia. E Sverine sabia que nada mais contava: nem degradao nem terror, mas sim o fato de que devia estar em casa antes 
de Pierre e fazer tudo para que ele no sofresse.
   - So mais de seis horas - disse, trmula, quando penetrou em seu quarto. - No disponho seno de meia hora...
   Despiu-se furiosamente, lavou o corpo inteiro vrias vezes, esfregando-se at doer. Era como se quisesse mudar de pele.
   Quanto s vestimentas e  roupa de baixo, foi com dificuldade que resistiu  tentao de acender um fogo e queim-las, como procede quem quer fazer desaparecer 
os vestgios de um crime.
   Pierre a encontrou de peignoir. Quando ele a beijava, Sverine pensou, com pavor: "Os meus cabelos... eu me esqueci deles!" Estava certa de que desses cabelos 
se desprendia um perfume reconhecvel, entre todos: o da Rua Virne. E foi com surpresa que ouviu Pierre dizer com sua voz habitual:
   - Vejo que j ests quase pronta, querida. Vou tratar de me aprontar tambm.
   Sverine lembrou-se de que uns amigos deviam vir busc-los para jantar e ir ao teatro. Por um instante, sentiu-se contente, mas no pde aceitar a idia de voltar 
com Pierre e se tornar alvo daquela delicada ternura da meia-noite, que os ligava mais estreitamente quando se achavam a ss.
   - No me sinto muito bem, meu querido - queixou-se, hesitante. - Creio que me resfriei um pouco durante o passeio no jardim. Gostaria mais de no sair, mas precisas 
ir,  bom que vs... Fao questo, meu querido. Os Vernois so muito gentis conosco. E sei que a pea te interessa, tu mesmo me disseste. Eu teria pena de privar-te 
de v-la...
   A noite foi longa e cruel para Sverine. Malgrado sua infinita fadiga, de corpo e de alma, ela no conseguia dormir. Temia a volta de Pierre. At ento ele nada 
ainda notara, mas, quando voltasse ao seu quarto, como sempre fazia, era impossvel que esse milagre ainda durasse. Era impossvel que sobre ela, dentro dela, ao 
redor dela no subsistisse um vestgio sequer daquele dia monstruoso. Mais de uma vez, Sverine saltou bruscamente do leito para verificar se em sua fisionomia no 
surgira uma ruga, uma marca, um estigma. As horas se passaram nessa perseguio manaca.
   Finalmente, a porta se abriu. Simulou dormir, mas sua fisionomia estava de tal forma contrada que, se Pierre se tivesse aproximado dela, o fingimento seria vo. 
Ele teve medo de despert-la e se retirou sem fazer rudo. O primeiro sentimento de Sverine foi de morna surpresa. Ento, era assim to fcil esconder a quem to 
bem a conhecia as suas perturbaes ntimas? No se demorou nessa idia que, embora tranqilizadora, lhe fazia mal. Com certeza, no se tratava mais do que uma simples 
trgua, de um breve armistcio que lhe fora concedido pelas trevas da noite. Seria castigada quando o dia viesse. Pierre, ao encar-la  luz meridiana, sem dvida 
saberia...
   - E ento... ento... - gemia, inteiriando-se, apertando o travesseiro, como uma doente que experimenta uma sufocao.
   Incapaz de imaginar o que se seguiria a essa descoberta, incapaz de discernir se sofreria mais com o que j sentia ou com o que Pierre faria dela, Sverine fechava 
os olhos, como se a obscuridade de seu quarto no estivesse na medida exata de seu desespero.
   Essas alternativas de terror e de abandono faziam com que no sentisse vergonha nem arrependimento. Esperava simplesmente a manh e a sua justia. Contudo, a 
manh veio, sem traz-la. Embora intimamente convencida de que uma astcia to grosseira no poderia salv-la duas vezes, Sverine ainda uma vez fingiu dormir e 
Pierre novamente se deixou levar por seu artifcio.
    medida que o tempo passava, e com o socorro da luz do dia, uma fraca esperana deitou razes em Sverine. Ainda no acreditava na possibilidade de uma evaso, 
mas j sentia o desejo de luta por ela. Durante toda a manh, telefonou sem descanso, convidando e se fazendo convidar para almoos e jantares, assumindo compromissos 
para todas as horas do dia e ocupando uma boa parte de suas noites. Quando leu a lista que havia estabelecido, pde, enfim, respirar. Durante mais de uma semana, 
no passaria um s instante a ss com Pierre.
   Ele ficou surpreendido, sem dvida, com aquele frenesi de prazer que Sverine demonstrava por to intensa atividade social. Mas a esposa se desculpava com um 
olhar to suplicante que, sem saber a que atribuir essa atitude implorativa, ele se sentia perturbado e desarmado. Nesse perodo s voltavam para casa no momento 
em que Sverine, extenuada, quase adormecia na cadeira do restaurante noturno. E, to logo chegavam, ela cedia a um sono pesado que, na manh seguinte, lhe permitia 
evitar Pierre. O dia era devorado pelos mil deveres que ela a si mesma impusera. E cada noite repetia as fadigas da vspera.
   Desse modo, a pouco e pouco, Sverine foi desgastando os seus terrores e at mesmo as suas lembranas. Aquele turbilho a distanciava indefinidamente, reduzia 
a uma tnue poeira de realidade o dia em que estivera na Rua Virne. Em breve, no teria mais necessidade de um escudo entre ela e Pierre.
   Foi ento que se produziu em Sverine um fenmeno ao qual raramente escapam os que so governados por um instinto muito decisivo. Como um jogador que, por algum 
tempo, viveu agoniado por uma perda perigosa, e logo que cicatrizam as suas feridas passa a sonhar com o pano verde, com as cartas do baralho, com as palavras rituais 
do jogo, ou como um aventureiro que, por um instante fatigado das aventuras, rodo pela solido e pela inao, passa a sonhar com os combates e os largos espaos, 
ou, ainda, como um opimano, aparentemente desintoxicado, cr sentir em torno de si, com doce terror, a fumaa da droga que o escravizara, assim tambm Sverine 
se deixou dominar pelas lembranas da Rua Virne. Igual a todos os seus irmos e irms em desejos proibidos, no era propriamente a satisfao desses desejos o que 
a tentava, mas as primcias de que tal satisfao era cercada.
   A figura de Madame Anais, os belos seios de Charlotte, a humildade equvoca do lugar, o odor que supunha de l ter trazido naquela tarde em seus cabelos, tudo 
isso se afervorou na memria carnal de Sverine. Ela a princpio fremiu de repulso, mas depois aceitou e, por fim, experimentou at mesmo certo prazer. A presena 
de Pierre e o amor dilacerante que sentia por ele a detiveram por alguns dias. Mas a fatalidade interior, inscrita em Sverine, como um verdadeiro selo do seu destino, 
devia cumprir-se.
   
  
  
  6
    
    
    
    Madame Anais acabava de acompanhar  porta um dos freqentadores habituais da casa, refletindo sobre a justeza de suas observaes. Era preciso arranjar uma 
nova companheira para Charlotte e Matilde. Por mais agradveis que elas fossem, faltava variedade  casa. E que desperdcio era aquele quarto vazio! Contudo, Madame 
Anais hesitava em arranjar uma substituta para Belle-de-Jour. Esta lhe convinha singularmente, por sua boa educao e por sua reserva. E talvez Madame Anais no 
pudesse esquecer aquele olhar que, por um instante, as ligara...
   Charlotte e Matilde repousavam, nuas, sobre uma cama. Os cabelos de Matilde eram mais claros do que as espduas em que se apoiavam, e Charlotte os alisava ternamente.
   - Sinto vir perturb-las, minhas filhas - disse Madame Anais -, mas preciso falar de negcios. No conhecem ningum que possa vir trabalhar aqui?
   Matilde respondeu primeiro, no seu tom habitualmente lamuriento, como se expiasse uma falta ignorada por ela prpria, mas de que os outros deviam aperceber-se.
   - Madame bem sabe que no conheo ningum. De minha casa para a sua, de sua casa para a minha, assim  toda a minha vida...
   - E voc, Charlotte? Entre as suas velhas amizades?
   - Isso no  nada fcil. Quando sa da outra casa, a fim de vir para aqui, dei a desculpa de que ia me amigar. Agora, a senhora compreende: mesmo que eu me encontre 
com alguma delas, no posso me desdizer.
    Madame Anais suspirou, para mostrar que tinha vergonha de sua fraqueza, e perguntou:
   - Belle-de-Jour... essa no voltar mais... No acham?
   - Oh, chega! Sempre esse realejo... - bradou Charlotte, espreguiando-se com sensualidade.
    Madame Anais deu um passo discreto para a porta,, mas Matilde a reteve. Era um ser passivo e nebuloso, gostando de conversas que no davam ensejo a devaneios.
   - Senti logo que nunca mais a veramos - falou. - Acho que essa mulher no pertence ao nosso meio. Ela tem um segredo...
   - Segredo! Um segredo! - zombou Charlotte. - Voc tem a mania do cinema. Tudo, para voc, parece uma fita. O que h  que tinha algum, o tal tipo a largou, depois 
ela encontrou outro... e acabou-se!
   - No, no... Isso que diz no corresponde  verdade. Ela pediu para sair sempre s cinco horas. E tinha, portanto, algum na sua vida a essa hora. Essa mulher 
tem, realmente, um segredo.
    Madame Anais ouvia atentamente essas conversas. A questo vinha  baila todos os dias, abordada em termos mais ou menos idnticos, com inesgotvel pacincia, 
por aquelas criaturas semi-reclusas. Mas Madame Anais esperava sempre que uma palavra dita ao acaso pudesse trazer algum esclarecimento vlido. E dizia, lentamente:
   - Sem ter ainda formado uma idia justa, creio que nenhuma de vocs duas tem razo... Porque eu... ainda tenho a impresso de que Belle-de-Jour voltar. Charlotte 
vai rir muito, mas  assim mesmo: quando se espera, nunca se tem razo, a no ser no ltimo minuto...
   
   
   Esse pressentimento triunfaria alguns minutos mais tarde. A primeira pessoa para quem a porta se abriu era Sverine.
   - Ah,  voc? - disse Madame Anais, sem perda de tempo, mas num tom bastante glacial. - E por que no tem vindo?
   As gotas de suor que tremiam nas tmporas de Sverine testemunhavam o seu esforo para satisfazer a abominvel e dissolvente exigncia que a perseguia. Mas o 
acolhimento de Madame Anais dissipou-lhe as resistncias. Iria ela interditar-lhe esse apartamento, com o qual sonhara como com uma espcie de ignbil paraso? Onde, 
ento, saciaria aquela fome que acreditava extinta, mas que recomeara ainda mais atroz, depois que se habituara ao gosto de um alimento corrompido?
   - Eu queria... eu queria... - balbuciou Sverine - saber se poderia...
   - Recuperar o seu lugar? E desaparecer, depois, pelo tempo que entender, sem sequer me dar notcias? No, minha pequena, no posso aceitar essa espcie de amadorismo. 
Para isso, a rua  livre...
   Que no teria feito a orgulhosa Sverine para reencontrar a antiga afabilidade na fisionomia de Madame Anais! Todo o seu corpo suplicava, mendigava que no a 
obrigasse a procurar outro abrigo impuro. Bastava-lhe j ter conhecido esse, que deixara nela sua marca srdida, como uma lama pegajosa.
   - Eu lhe peo... eu lhe peo... - murmurou.
    Madame Anais empurrou-a para o quarto de descanso e das confidencias. E lhe disse:
   - Voc teve muita sorte em procurar uma pessoa indulgente como eu. Uma outra lhe bateria com a porta na cara. Era o que eu devia fazer. Mas, como despertou minha 
simpatia, tornei-me uma espcie de madrinha sua... Agora, voc abusa.
   E contemplou Sverine com uma afeio que nada tinha de fingida.
   - Vejamos, minha pequena Belle-de-Jour - acrescentou. - Acaso, no foi bem tratada aqui? Ser que no se sentiu em casa?
   Sverine, incapaz de responder com palavras, limitou-se a balanar a cabea. Na verdade, reencontrava a mesa de costura como se fosse um mvel familiar.
   - Posso? - pediu, esboando um gesto para tirar o chapu.
   Sem aguardar a permisso de Madame Anais, guardou-o no armrio. S ento sua fisionomia se distendeu, adquirindo uma expresso de paz.
   - Mas no preciso dizer-lhe - declarou Madame Anais - que s a aceito de novo se estiver disposta a levar a srio as suas obrigaes.
   - Sim, sim, mas virei somente de dois em dois dias - props ela, humildemente. - Mais do que isso no posso, eu lhe asseguro.
   - Est bem - concordou Madame Anais, depois de alguns segundos de silncio. - Mas, daqui a pouco, voc mesma me pedir para vir todas as tardes...
   Depois, com a voz to alegre que fez Sverine estremecer, chamou as outras:
   - Charlotte! Matilde! Belle-de-Jour est de volta!
   As duas amigas acorreram, incrdulas e nuas. Enquanto revelavam o seu espanto, Sverine sentia os joelhos tremerem. Aqueles corpos despidos, aquelas peles to 
prximas e de uma cor impudicamente diferente inspiravam-lhe uma espcie de agradvel debilidade. Perguntou, malgrado seu:
   - No tm medo de um resfriado, andando assim?
   - Temos o hbito - informou Charlotte. - Alm disso, o apartamento ainda est aquecido. Para isso, Madame Anais no regateia o seu dinheiro.
   Um sorriso ambguo deixou ver os dentes, muito brancos, de Charlotte, que acrescentou:
   - Experimente, e ver.  to bom! No  mesmo, Matilde?
   E logo comeou a despir Sverine, que no oferecia qualquer resistncia. Quando todas as suas vestes foram tiradas por aquelas mos destras e quentes, ela se 
sentiu tomada de uma perturbao que lhe embaciou a vista.
   O silncio que se estabeleceu devolveu-a a si mesma. Por maior que fosse o hbito profissional das mulheres que cercavam Sverine, sentiam-se estranhamente emocionadas 
e como que constrangidas. Aquele corpo esbelto, so e rijo tinha qualquer coisa de muito virginal. E denunciava uma mulher de outra estirpe.
    Madame Anais foi quem primeiro se recuperou. Tanto tinha o maior orgulho de sua casa como cuidava muito bem da defesa de seus interesses. Agora, via que esses 
dois sentimentos estavam sendo retribudos.
   - No se pode ter um corpo mais bem feito - disse ela, respeitosamente.
   Charlotte beijou, com um beijo ativo, as espduas de Sverine. Nesse momento, a campainha soou. Sverine empalideceu. Mas a visita era apenas de um familiar de 
Charlotte.
   - Uma vez que vocs querem ficar  vontade - i falou Madame Anais -, Matilde vai-lhe mostrar o seu quarto. Quanto a mim, vou trabalhar nas minhas costuras. Se 
algum tocar, tratem de vestir-se.  preciso guardar as convenincias.
   O aposento destinado a Belle-de-Jour era menor do que aquele em que conhecera o Sr. Adolphe. Mas, quanto ao resto, era em tudo e por tudo semelhante. O mesmo 
papel pintado de cor sombria nas paredes, o mesmo tom vermelho-escuro nas cortinas, na poltrona, na colcha. E, por trs de um biombo, os mesmos utenslios destinados 
 higiene pessoal.
   - J  preciso acender a luz - murmurou Sverine.
   Mas, em vez de faz-lo, foi  janela. A Rua Virne era velha e estreita, mas via-se nela uma incessante procisso de homens, de mulheres livres. Matilde, que 
a seguira, olhava tambm os passantes. E perguntou, com timidez:
   - Tem um grande desgosto de estar aqui, no  mesmo, Madame Belle-de-Jour?
   Sverine voltou-se, como se tivesse sido colhida em flagrante. Esquecera-se da presena da companheira e, sem que soubesse por qu, essa voz indecisa, essa sombra 
um pouco mais clara do que a obscuridade do quarto e to imvel que parecia ainda mais nua, inspiraram-lhe uma infinita tristeza.
   - Oh! No lhe estou perguntando a razo - disse vivamente Matilde, que se surpreendera com o movimento esboado por Sverine. - Cada uma de ns tem os seus segredos, 
no  mesmo? No falo por mim, porque, no meu caso, a senhora sabe, o Luciano mesmo ( meu marido) no ignora nada. No foi por culpa minha, nem por culpa dele. 
Bem, o fato  que ele est doente. Precisa viver no campo. E que  que eu podia fazer para ajudar, no  mesmo?
   Esperou, em vo, uma resposta, a fim de continuar. E murmurou:
   - Se estiver chateando com as minhas histrias, peo-lhe desculpas. Elas tm razo, Madame Anais e Charlotte, quando dizem que sou meio pancada. Mas que posso 
fazer? Sinto necessidade de contar... A voc, ainda  natural... Mas aos fregueses...
   "Ela procura algum", pensava Sverine, que lhe explique "por que pertence a todos, quando ama a um s". Mas o problema no lhe provocava o interesse. Era bem 
fcil situar essa miservel existncia dentro das leis de um mundo mal ajustado. Mas como explicar a presena dela prpria em tal lugar? Quem lhe daria a chave do 
procedimento dela, que era rica e tinha Pierre?
   - E Charlotte? - perguntou bruscamente Sverine.
   - Oh! Ela tem sorte. Antes era manequim, mas encontrou mais relaes aqui. E, alm disso, goza com quase todos, e ainda comigo. Eu, para falar a verdade, no 
gosto dessas coisas, mas acho que no nasci para discutir. Ento,  prefervel fazer o que ela quer.
   Calou-se por algum tempo e, depois, disse com hesitao:
   - Tenho pena da senhora, fique a senhora sabendo, Madame Belle-de-Jour... Bem vi que da outra vez...
   Uma obscuridade que no era a da hora reinava no aposento, onde todas as manchas vermelhas pareciam ter o negrume da noite fechada. Assim, Matilde no pde ver 
a clera furiosa que invadira o rosto de Sverine. Mas uma voz carregada de dio fez Matilde estremecer:
   - V-se embora! V-se embora, j! - dizia ela. - No tem o direito de...
   Uma contrao de toda a sua vontade impediu Sverine de rebentar em soluos. Bruscamente, apertou Matilde contra ela e disse, imperiosamente:
   - No d ateno... Sou um tanto louca. E, uma vez que temos tempo, mostre-me como  que voc faz com Charlotte.
   
   
   "Por qu? Por qu?" - repetia Sverine, entre os dentes cerrados; e cerrados a tal ponto que nem os solavancos do txi conseguiam separ-los. Por que essa prostituio 
sem nenhuma alegria? Lembrava-se com desgosto do contato passivo de Matilde, das lgrimas dessa infeliz, do respeito que lhe testemunhava contra a sua vontade e 
quase a fazia enlouquecer. Entregue, em seguida, a um homem idoso, no sentira o mesmo frmito de degradao que a levara a aceitar as carcias do Sr. Adolphe. Por 
um minuto, tinha experimentado um leve prazer, ao qual procurava no dar nome: no momento em que Madame Anais partilhara com ela o preo derrisrio de seu corpo. 
Mas isso seria suficiente para compensar o perigo que iria depois afrontar - os olhos de Pierre?
   Dessa vez, Sverine no tentou subtrair-se ao exame desses olhos por uma fuga insensata. Sua primeira experincia dirigia-lhe agora os movimentos, mas o terror 
no era menor.  medida que se aproximava de casa, esse terror ainda mais intenso se tornava. Contudo, Sverine preferia essa angstia  de sondar sua absurda, monstruosa, 
insolvel perversidade: sabia que ficaria louca se prolongasse essa investigao sem sada. Agora, sentia que tinha o dever de defender o seu nico bem. E acreditava 
saber como.
   Terminada a sua purificao exterior, Sverine vestiu-se. No tinha o hbito de dissimular. O seu carter se prestava mal a isso e o instinto de conservao a 
inspirava a no empregar de novo os recursos anteriormente utilizados. Assim, no pediu a Pierre para sair e teve a fora de parecer natural at a hora do jantar. 
Por mais que se esforasse, no entanto, no podia comer. Pierre a interrogou com aquela voz magntica, que era, para Sverine, um reativo por demais violento. Ela 
respondeu mal. Era ainda novia no erro para saber desempenhar bem o seu papel. E ainda muito consciente para se deixar levar, como fizera duas semanas antes, por 
uma intuio puramente animal. Todos os seus gestos revelavam algum embarao. Todas as suas palavras traduziam a preocupao dos culpados.
   Uma vaga angstia espraiou-se na fisionomia de Pierre. Ele no sentia uma inquietao profunda e real, mas todos os seus sentidos se mantinham alertados, chegando 
quase  fronteira da suspeita. Sverine o percebeu e se afligiu. Por felicidade, a refeio terminava.
   - Vais trabalhar? - perguntou.
   - Sim. Vens? - respondeu Pierre, nervosamente. Sverine se esquecera de que quando Pierre tinha um artigo a escrever, ela habitualmente se instalava junto  sua 
mesa, com um livro nas mos. Ela prpria tomara essa resoluo, a partir do dia em que decidira empenhar todos os seus esforos para tornar o marido mais feliz. 
A lembrana desse perodo cheio de promessas to belas e to puras desolou ainda mais Sverine, que, no entanto, no ousou furtar-se  obrigao assumida. Desde 
que se sentou na poltrona que costumava ocupar, compreendeu que o menos hbil dos pretextos para ficar sozinha teria valido para ela muito mais do que essa falsa 
intimidade. O aposento em viglia, a nobre vida dos livros, os traos graves de Pierre - como suportar o confronto de tudo isso com as imagens srdidas da Rua Virne, 
que vinham constantemente assalt-la? O constrangimento em que Sverine se debatia era to cruel que nem notava os olhares que, de quando em quando, o marido lhe 
dirigia. De repente, ouviu-o levantar-se. Ento, dirigiu precipitadamente o olhar para as pginas do livro que tinha nas mos e empalideceu. O volume estava de cabea 
para baixo. E no tinha mais o tempo necessrio para endireit-lo. Pierre no disse que se tinha apercebido disso, mas evitou as explicaes que Sverine comeava 
a balbuciar:
   - Se sentes necessidade de te entregares s tuas reflexes, ento  melhor que te vs deitar - disse ele.
   Ela se levantou, com uma obedincia queixosa.
   Pierre esperou alguns instantes - sentia necessidade de manter o tom natural de sua voz - e perguntou:
   - Isso te impede de me dar um beijo de boa noite?
   Essas palavras aniquilaram Sverine. Certamente, gostaria de ter encontrado uma razo que impedisse Pierre de ir procur-la em seu quarto, como fazia sempre, 
ainda que apenas para ver se ela estava dormindo. Mas ele prprio renunciara a isso, espontaneamente.
   Ento, era porque pressentia a verdade. Ou talvez mesmo porque a conhecia e...
   Atirando-se sobre o leito, mordeu o travesseiro para no deixar escapar o gemido que lhe forava os lbios. Depois, uma prece, ardente e vasta como o seu desespero, 
subiu de todo o seu ser: se escapasse ainda essa vez, somente essa vez, encerraria para sempre aquelas experincias ignbeis, aquelas extravagncias de demente.
   Esse impulso foi to vivo e total que a apaziguou.
   Comeou a despir-se.  medida que se aproximava da nudez, as linhas de dois outros corpos flutuavam-lhe confusamente na memria. O prazer que sentiu foi a princpio 
lmpido, mas se perturbou assim que Sverine reconheceu as formas impudicas de Matilde e Charlotte. Abandonou-se por um instante, mas esse abandono bastou-lhe para 
que adquirisse a certeza de que a promessa feita ainda h pouco era inteiramente v. Sabia que no alteraria a sua sorte, mas no queria reconhec-lo. E, para evitar 
um debate que lhe ameaava a razo, que talvez a obrigasse a pedir socorro a Pierre, ao preo de uma confisso completa, tomou um pouco do soporfico que usara durante 
a doena.
   O sono sobreveio, brutal, mas de durao bastante curta. Ela se levantou s primeiras claridades do dia. Tinha a cabea dolorida. Os movimentos de seu esprito 
eram incertos, iguais aos de folhas macias deslocadas pelo vento. Quando ia saindo de sua pesada atonia, Pierre entrou no quarto. Essa apario, no momento exato 
em que a conscincia das coisas comeava a voltar-lhe, trouxe-lhe  memria a situao em que se encontrava. E os olhos de Sverine revelaram o estupor dos condenados. 
Se Pierre tivesse hesitado em falar, esse olhar bastaria para decidi-lo.
   - Sverine, isso no pode continuar assim entre ns dois - disse ele. - No quero que tenhas medo de mim.
   Ela continuou a fit-lo, sem pestanejar. Pierre prosseguiu, mas depressa:
   - s muito franca para tal espcie de jogo. Que  que tens, querida? Bem sabes que podes dizer-me tudo. Nada me poderia fazer sofrer mais do que a tua atitude. 
 para me poupar que te peo que fales... que te abras comigo. E no queres confiar-me nada, ainda que eu te possa ajudar. Ouve... talvez (como ests vendo, falo-te 
com a mesma ternura de sempre, e, no entanto, passei a noite inteira tentando decifrar isto), talvez ames algum. Sei que no me enganaste, estou certo disto. Seria 
uma palavra estpida, tratando-se de ns dois. Mas  bem possvel que te sintas atrada por outro, que sofras por isso e...
   Um riso estridente e de som estranho fez Pierre interromper-se. O riso foi seguido de protestos desatinados:
   - Um outro!... Podes pensar, ento... ? Eu te amo, no poderia amar a ningum mais, seno a ti. Meu querido, minha fora s tu... Sou tua... Mas ser que no 
posso me sentir nervosa?... Eu morreria pela tua felicidade...
   O olhar de Sverine perdera o desvairamento inicial. mido e brilhante, resplendia agora de to humilde adorao que Pierre no podia desconfiar de seu erro. 
Agora, tudo lhe parecia maravilhosamente claro.
   Sverine tinha razo. Ningum se aproximava da morte, tal como h pouco ela havia feito, sem que o organismo inteiro fosse abalado. Ele era estpido. Estpido 
e feliz.
   - Eu devia pensar sempre em tua figura tal como apareceste  minha espera no saguo do Htel-Dieu - disse ele.
   Sverine o interrompeu, febrilmente:
   - Irei esperar-te todos os dias, vers... E agora mesmo... espera um pouco... eu me visto num minuto e te acompanho.
   Ele no conseguiu faz-la desistir dessa deciso, nem tampouco de ir esper-lo todos os dias  sada do hospital. Ela o acompanhava igualmente  clnica onde 
operava todas as tardes. Ao acabar o trabalho, ela o estava aguardando, na sala de espera.
   Sverine quis transformar-se numa espcie de criada de Pierre, mas, apesar disso, no queria receb-lo em seu leito quando, comovido por to calorosa devoo, 
ele deixava transparecer esse desejo.
   Mas a fome carnal que, por um instante e com certa beleza, alterava a fisionomia de Pierre, endurecendo-a, Sverine a transferia, durante sua insnia, para as 
faces mais vis, que se moviam no meio de um cenrio suspeito, feito de papel pintado sombrio, em que as manchas vermelhas pareciam to escuras quanto o negrume da 
noite. No tinha o desejo de rev-las naquele dia mesmo, mas sabia que em breve sentiria essa devoradora necessidade. Se faltasse aos seus compromissos, a porta 
de Madame Anais no se abriria mais para ela. O medo de ver recusado o alimento  sua triste luxria se precipitava sobre ela, mal deixava Pierre  porta da clnica, 
aonde nesse dia j o tinha acompanhado.
   Desde ento, comeou a verdadeira intoxicao de Sverine, em quem o hbito ocupava cada vez mais o lugar do prazer. No era mais impelida para a Rua Virne por 
um movimento impetuoso e incontrolvel. Deixava-se levar por uma moleza que cada vez mais punha em jogo nmero menor de seus reflexos. Nesse perodo, no conheceu 
os prazeres que de incio esperava, mas tinha satisfao em reencontrar o apartamento bem aquecido e, nele, o seu quarto equvoco. Ouvia sem desprazer, como uma 
espcie de cantiga de ninar em surdina, as interminveis conversas de Madame Anais e de suas companheiras. Tomava parte nelas. Para satisfazer a curiosidade de que 
se via cercada, inventou um passado mais ou menos conforme as verses de Matilde e de Charlotte. Tivera um amante que a seduzira muito jovem. Ela o adorava. Ele 
a abandonara. Um outro a mantinha agora, bastante menos bem do que o primeiro, e por isso procurava ajud-lo, sem que ele o soubesse. Da a sua prudncia e o pouco 
tempo de que dispunha para ficar em casa de Madame Anais.
   Quanto a esse tempo, Belle-de-Jour no devia mostrar-se avara. A casa vivia sobretudo de freqentadores fiis. Eles se atiraram  "novidade". Sverine suportou 
essas preferncias sem perturbao nem prazer. Muitas vezes, lamentou seus primeiros terrores de animal indcil, mas o prprio Sr. Adolphe vinha por vezes possu-la, 
para faz-los renascer. Agora, admirava-se at mesmo de que um personagem to ridculo tanto tivesse significado para ela.
   Enquanto isso, ia estudando os artifcios da profisso a que se dedicara, mesmo os mais secretos. Essa aprendizagem, pelas revoltas que lhe causou, pelo sentimento 
que experimentou, de se tornar uma mquina impura, fez Sverine fremir ainda uma vez de humilhao perversa. Mas o desregramento carnal tem limites depressa atingidos, 
quando uma paixo mtua no os transporta ao infinito. Sverine apercebeu-se disso e se tornou insensvel. Seu pudor desgastou-se, e o seu pavor igualmente. Podia, 
agora, pertencer a um homem sob as vistas de vrios outros. Charlotte ou Matilde, ou mesmo ambas, podiam misturar-se aos exerccios de que j no compreendia o sabor. 
Nada mais importava a Sverine. Apenas persistia nela um ligeiro estremecimento quando Madame Anais a chamava para ser escolhida, e ela avanava, submissa. Tudo 
quanto ainda saboreava, agora, era a sua obedincia.
   
   
   Por vezes, quando Sverine se lembrava do orgulho que por to longo tempo e to altivamente arvorara, parecia-lhe existir dentro dela um lugar vazio. Ora, precisamente 
essa ausncia  que fazia o tormento de Pierre. Ele no conseguia reencontrar a antiga simplicidade, o maravilhoso desafogo de viver ao lado de Sverine. A embriaguez 
de reconhecer um temor que poderia ter devastado a sua existncia por algum tempo o havia protegido contra a sua prpria perspiccia. Mas no tardaria em se espantar 
com a docilidade persistente, com a humildade anormal de Sverine. Um desequilbrio nervoso poderia explicar suas alternativas de bom e mau humor, essa ternura medrosa 
e magoada, essa pressa em se mostrar servial, essa ausncia completa de vida pessoal. Mas como admitir tudo isso numa mulher jovem, que um ms antes o impressionava 
precisamente por sua fora de vontade e por seu orgulho, um orgulho nela to natural, to essencialmente caracterstico como as batidas do prprio corao?
   A inquietao de Pierre no podia fixar-se em qualquer hiptese vlida. No podia mais duvidar do amor de Sverine. Nunca, alis estivera to certo dele. Mas 
o que acentuava o seu mal-estar  que tal certeza no lhe dava nenhuma alegria. Por instantes, e de maneira apenas consciente, pensava no dia em que, pela primeira 
vez, encontrara Sverine numa espcie de delrio. Fora quando ela lhe falara na aventura de Henriette... nas casas de rendez-vous. Mas logo abandonara essa pista. 
Sverine no era, no podia ser uma das que se deixam marcar por essas imagens sensuais, principalmente de tal baixeza.
   Assim sofria Pierre e, cada manh esperava rever, nos traos de Sverine, uma autoridade de que sua felicidade necessitava. Entretanto, cm vez dessa recuperao 
da prpria personalidade perdida, encontrava um ser cada vez mais submisso, cuja nica preocupao era a de evitar todos os seus desejos. At Sverine se tornava 
cnscia de que o seu amor estava-se revestindo cada vez mais de uma forma servil, que ia muito alm do que ela pretendia, mas nada podia fazer contra isso. Do mundo 
srdido, a que descera, encarava Pierre, e ele parecia de uma elevao moral to grande que ela se sentia aniquilada. Ao mesmo tempo, ele se lhe tornava ainda mais 
caro. A pureza, a limpeza, a mocidade (ela agora se sentia terrivelmente envelhecida) que outrora tivera, Sverine as adorava respeitosamente nele. E, quanto mais 
o amava, mais sofria por v-lo rodo por um tormento que provinha dela.
   O esquecimento dessa situao sem sada, Sverine s o encontrava na Rua Virne. Desde que ultrapassava a soleira da casa de Madame Anais, a imagem de Pierre 
se desvanecia. Tal era a marca eficaz de seu amor por ele. E, pelo intolervel sofrimento que lhe infligia, era esse amor que impelia Sverine  casa de Madame Anais, 
agora no trs vezes por semana, mas todos os dias.
   A prostituio cotidiana no lhe proporcionava mais que lassido e angstia. Ao sair de l, ia reencontrar a angstia junto do marido. Abalada por esses choques 
constantes, Sverine perguntava a si mesma, ao longo do cais, que se tornara para ela uma paisagem extremamente familiar, at quando o frio das guas do Sena a impediria 
de consumar o gesto que uma vez esboara. Talvez que, por fim, aqueles rudes barqueiros acabassem retirando da correnteza o seu cadver, quando ela tivesse, afinal, 
recebido a recompensa de um martrio at ento gratuito.
   
   
   A recompensa desse martrio lhe chegou uma tarde em que Sverine, uma vez mais profanada e desiludida, se preparava para despedir-se de Madame Anais. Um toque 
de campainha paralisou o gesto que ela fazia, rumo ao armrio dos chapus. Pelo tom com que Madame Anais as chamou, as pensionistas perceberam que se tratava de 
uma tarefa desagradvel. E no se enganavam. O homem que as esperava estava bbedo. Vestia uma blusa comum, como as dos trabalhadores do mercado, olhando ora para 
os seus prprios sapates enlameados, ora para o aposento, que visivelmente lhe agradava. Suas mos, muito fortes e calejadas, se apoiavam sobre os joelhos.
   - Aquela ali - disse ele. - E um copo de rum.
   Indicara Belle-de-Jour.
   Enquanto ele bebia, Sverine se despia. O recm-chegado seguia-lhe os movimentos, sem dizer palavra. E foi sem uma s palavra que a possuiu. Seu corpo era pesado. 
Tudo nele era mais rudemente espesso que no comum dos homens, tudo, at mesmo a matria dos olhos. E Sverine, reconhecendo imediatamente esse furor grosseiro, essa 
luxria bestial, gemeu no saberia dizer que espcie de gemido. No era mais um desejo policiado, minucioso, que se apoderava dela, mas o desejo trino que a havia 
atirado naquele leito. Naquele homem se confundiam o homem do beco, o homem do pescoo obsceno, o homem das margens do Sena. Eram os trs que se apoderavam dela 
na pessoa daquele que a esmagava com o seu peso, que a dispersava com os seus membros nodosos. Sverine foi percorrida por uma onda que ainda no conhecia. A surpresa 
e o medo se estamparam em sua fisionomia. Sentiu que os seus dentes rangiam ligeiramente e, depois, de sbito, assumiu tal expresso de repouso, de felicidade e 
de juventude que, se outro fosse o homem de que tinha sido a presa, no poderia deixar de sentir-se perturbado.
   Ele depositou na mesinha de cabeceira uma nota dobrada dez vezes, e se foi.
   Sverine ficou por longo tempo estendida na cama. Sabia que um dever urgente a chamava l fora, mas no se preocupava com isso. Parecia-lhe que, de agora em diante, 
no precisava mais ter medo de nada. Acabara de adquirir um bem sobre o qual ningum mais tinha direitos. Tinha, enfim, chegado ao termo de sua pavorosa corrida, 
e essa chegada era como uma partida. Sua alegria espiritual ultrapassava mesmo o fluxo da alegria fsica que a agitara de uma forma sem paralelo. Alguma coisa justificava 
agora todos os movimentos que, desde a convalescena, haviam tido para Sverine, por sua inutilidade, um aspecto de loucura repugnante. Conquistara por fim, o que 
havia procurado s cegas. E essa conquista, terminada ao preo de tal inferno, a entontecia, inspirando-lhe um estranho mas imenso orgulho.
   Quando Charlotte lhe perguntou, penalizada:
   - Sentiu-se muito infeliz com esse bruto? Sverine no lhe respondeu, mas comeou a rir calorosamente. As mulheres da casa de Madame Anais se entreolharam, com 
manifesta surpresa. Acabavam de notar que, at ento, Belle-de-Jour jamais rira.
   Pierre tambm, nessa mesma noite, devia ter ficado espantado com a atitude de Sverine.
   - Vamos jantar no campo. Vai depressa buscar o carro - ordenou ela, numa voz que no admitia contradio.
   
   
   Sverine no tentou identificar os elementos que determinaram a sua revelao sexual. No queria alterar por qualquer exame minucioso a integridade de sua descoberta. 
No se perguntou mesmo como se renovaria o maravilhoso relmpago que a atingira. Agora, que aprendera que seus flancos tinham vibraes profundas c estava certa 
de que isso facilmente se repetiria. Mas nenhum daqueles que escolheram Belle-de-Jour no curso dos dias seguintes conseguiu reanim-la. Impaciente e febril, Sverine 
perseguia em vo aquela alegria que, uma vez cativa, agora lhe fugia de novo. E adivinhou, ento, que o seu prazer exigia um clima singular, mas que era por si mesma 
impotente para estabelec-lo. No demorou muito, um movimento profundo de sua sensibilidade lanou um claro sobre ela prpria.
   No incio de uma tarde, apareceu em casa de Madame Anais um jovem alto, com um embrulho sob o brao.
   - No me separo deles - disse, imediatamente. - Amo-os por demais.
   Tinha a voz encantadora e articulava todas as slabas de uma forma divertida, como se visse formarem-se pela primeira vez as palavras que elas construam e experimentasse 
alguma surpresa em reconhecer nelas um sentido nico, quando bem poderiam ter podido apresentar cem outros.
   Assim como  maior parte das mulheres, a ironia desagradava  Madame Anais. Contudo, a desse jovem no se tornou suspeita, pois era mesclada de infinita gentileza. 
Alm do mais, via-se que era moo fino, largo de espduas, vestido com gosto e evidenciando com facilidade sinais de esprito, de ternura e de certa infantilidade.
   - Fao entrar as damas, no  mesmo? - perguntou Madame Anais.
   - Assim o espero, por uma questo de lgica. Diga-lhes que me chamo Andr. Eu o digo, porque prevejo que elas me trataro pela segunda pessoa do singular, e a 
familiaridade se transforma em intimidade, quando no se  annimo. A senhora certamente vai dizer-me que elas no tm o direito de ser feias, nem mesmo passveis, 
uma vez que escolhi, entre todas a sua casa. Mas lhe confesso que s estou aqui, Madame, por ter fechado os olhos e corrido o dedo sobre uma coluna de anncios excitantes... 
Portanto,  o acaso quem me envia. Ele no se engana nunca e se...
    Madame Anais o interrompeu, rindo:
   - Se fosse menos gentil, confesso que teria medo do senhor - disse ela.
   Matilde e Charlotte iriam lembrar-se por longo tempo da hora que ento passaram. Uma esquisita loucura transparecia atravs de todas as opinies de Andr. No 
o compreendiam, mas sentiam que eram endereadas a espritos de condio superior. E esse jovem, em vez de utilizar-se delas como de simples mquinas de prazer, 
prodigalizava-lhes, elas o compreendiam, o que havia de melhor em si mesmo, algo que as tocava um tanto confusamente, mas de forma poderosa.
   Somente Sverine permanecia insensvel a esses discursos, embora fosse a nica a penetrar-lhes a fantasia e a perfeio do estilo conversacional. A tal ponto 
que a prpria Matilde, chocada com a sua indiferena, disse-lhe ao ouvido:
   - Veja se se mostra um pouco mais amvel com esse rapaz. No  todos os dias que aparece por aqui um moo to fino.
   Andr teve a impresso de que Matilde segredava um desejo que no ousara exprimir em voz alta.
   - No me pedem nada, minhas amiguinhas? - perguntou. - Estou muito satisfeito com isso, no por avareza, mas por fatuidade. Mesmo que fosse rico, no gostaria 
de ver as nossas relaes colocadas num terreno de excessiva venalidade. Contudo, como tenho hoje um pouco de dinheiro, gostaria de beb-lo em companhia de vocs, 
escolhendo o vinho mais caro da casa.
    Madame Anais olhou para as outras mulheres, em cujos olhos havia a mesma hesitao enternecida.
   - Obrigado - fez Andr, com mais reconhecimento do que deixava transparecer. - Preferem, ento, que eu leve os meus cobres a outro lugar? Recusam-se a beber comigo, 
para festejar a publicao do meu primeiro livro?
   - Voc escreve livros! - exclamou Charlotte, incrdula, pois muitas vezes perguntar a si mesma como seriam feitas as pessoas cujos nomes via nas prateleiras 
dos quiosques.
   Andr desamarrou os cordes do pacote que colocara no aparador da lareira. Continha cinco volumes, que traziam, todos, o mesmo ttulo.
   -  verdade, ento? - perguntou Charlotte. - Andr Millot  voc?
   Andr sorriu com um orgulho to ingnuo que at parecia fingido.
   - Eu nunca podia imaginar - comentou Charlotte. - Voc precisa me dar um...
   - Bem...  que esses exemplares... so numerados.
   - E que  que tem isso, meu querido?
   Andr no teve a coragem de dizer que pretendia vende-los. O acento to cheio de ternura e a sinceridade de palavras em geral to mortas e sem cor em lbios tarifados 
o tinham comovido. Estendeu um livro a Charlotte. E, ao faz-lo, encontrou de novo o olhar tmido de Matilde. No pode resistir-lhe. Depois disso, experimentou o 
escrpulo de parecer desdenhoso em relao a Madame Anais e a Sverine.
   Em seguida, balanando a cabea, considerou o ltimo exemplar que lhe restava e o enfiou num dos bolsos. Fez dedicatrias afetuosas s quatro mulheres. A celebrao 
se impunha, e o champanha foi servido. Jamais se bebeu com tanta alegria e com tanta inocncia na casa de Madame Anais.
   Mas, nesse instante, a campainha tocou. Um constrangimento, uma estranha tristeza obrigou Matilde e Charlotte a baixarem as cabeas.
   -  preciso que eu v abrir - falou Madame Anais, como quem pede desculpas.
   Andr, surpreendido com o silencio que se estabelecera - pois no podia compreender o cruel benefcio que prestara quelas almas cm disponibilidade -, olhou sucessivamente 
para Matilde, para Charlotte e para Sverine. Os olhos da ltima, mais brilhantes, exprimiam a alegria de uma libertao.
   - Voc em todo caso, ficar comigo - disse-lhe Andr.
   Belle-de-Jour compreendeu ento que coisa alguma do mundo poderia induzi-la a aceitar a hiptese de permanecer nos braos desse moo encantador e limpo. Murmurou, 
em voz to baixa que ele foi o nico a ouvir:
   - Peo que o senhor me desculpe, por favor... Uma vibrao percorreu a fisionomia mvel de
   Andr. Nos momentos que se seguiram, ele pensou muito nessa splica, cuja discrio no condizia com uma mulher que usava tal apelido. Entretanto, no momento 
em que a ouvira, limitara-se a inclinar-se quase imperceptivelmente e se voltara para Charlotte, que o beijou apaixonadamente.
   - Voc no tem sorte, minha pobre pequena - dirigiu-se Madame Anais a Sverine. - Estava apostando que esse moo ia ficar com voc. Enfim... Agora, despache-se, 
que o Sr. Lon est  sua espera e me disse que s dispe de um quarto de hora.
   Belle-de-Jour j conhecia o Sr. Lon, um comerciante apressado, dono de uma casa de couros, perto da Rua Virne. J obtivera os seus favores e deles guardava 
uma lembrana morna. Mas, dessa vez, esse homem baixote e impregnado do cheiro de couro cru at em sua prpria respirao, com a sua avidez de aproveitar-se dela 
num espao de tempo to curto, fez Sverine estremecer de angstia e daquele calor de luxria que to desesperadamente vinha procurando reencontrar.
   Depois de alguns momentos de torpor, ela ganhou o quarto onde Madame Anais costumava ficar. Esta no estava l e aos ouvidos de Sverine chegavam risos provindos 
do aposento onde ressoava a voz requintada de Andr. Sentada perto da mesa de costura, com o queixo apertado entre as mos ainda midas de prazer, Sverine escutava 
as surdas confidencias de seu corpo.
   Ao recobrar a conscincia das coisas que a cercavam, sua fisionomia era grave e firme; Agora, ela sabia. Sim, sabia que repelira Andr Millot porque ele pertencia 
 mesma classe - quer fsica, quer espiritualmente - dos homens que se haviam aproximado dela em sua existncia normal. Era, em suma, um homem da mesma categoria 
de Pierre.
   Com Andr, ela sentia que teria realmente trado o marido a quem desmedidamente adorava. Sabia, agora, que no viera buscar na Rua Virne nem ternura, nem confiana, 
nem doura, porque de tudo isso Pierre a vinha cumulando, mas sim aquilo que ele nunca poderia dar-lhe: essa alegria bestial e admirvel.
   A elegncia, a educao, o cuidado de agradar ao marido iam de encontro a qualquer coisa, nela, que exigia ser rompida, submetida, domada sem apelo, para que 
a sua carne se expandisse.
   Sverine no se sentiu desesperada ao adquirir conscincia desse divrcio fatal entre ela e aquele que era a sua prpria vida. Ao contrrio, um alvio infinito 
a embalou.
   Depois de semanas de tortura e de quase demncia, afinal se compreendia. O seu duplo, o terrvel duplo que a tinha dirigido atravs dos terrores e das trevas, 
como que era reabsorvido por ela.
   Forte e serena, reencontrara a sua unidade. Uma vez que o destino no lhe permitia receber de Pierre o dom que os desconhecidos grosseiros lhe traziam, que poderia 
fazer? Devia renunciar a um prazer que, nas outras mulheres, se confundia com o prprio amor?
   Quem poderia justificadamente censurar-lhe atos que lhe haviam sido exigidos por clulas que no podia controlar? Acreditava ter o direito que tem qualquer outro 
animal de conhecer o espasmo sagrado que, na primavera, faz a prpria terra estremecer num tremor mido.
   Essa revelao transformou Sverine ou, melhor, anulou os ltimos efeitos de seu penoso tatear, restituindo-lhe a antiga imagem. Recuperou a segurana, o ar de 
tranqilidade que antes transparecia em seus menores gestos. Sentia-se, mesmo, mais serena que outrora, tendo descoberto e preenchido o fosso cheio de monstros e 
de clares fantasmagricos em que sua vida, por to longo tempo, se arrastara perigosamente.
   Tivesse Sverine experimentado qualquer perturbao a respeito do caminho que deliberadamente escolhera, os prprios olhos de Pierre, aqueles olhos que tanto 
temia, teriam sido os primeiros a convenc-la de que estava com a razo. Eles assistiam, com uma tocante alegria,  ressurreio de Sverine, e tiveram todo o vagar 
para se tranqilizarem por inteiro, pois a jovem mulher soube prudentemente gradu-la.
   Aos poucos, por graus quase imperceptveis, ela foi abandonando a sua humildade, sua queixosa vigilncia. A cada novo dia, dava mais um passo  frente. Mas somente 
um passo. A cada dia impunha a Pierre uma vontade nova. Mas apenas uma.
   Sentia que ele ardia de impacincia para obedecer-lhe, mas Sverine igualmente sentia que, se mudasse violentamente de atitude, estaria arriscando-se a despertar 
em Pierre uma suspeita, uma angstia. E isso era coisa que no desejava. Como tampouco desejava renunciar a ir  casa de Madame Anais. Procurava o equilbrio entre 
os dois plos essenciais. O equilbrio de sua plenitude.
   E o alcanou com uma pacincia ao mesmo tempo forte e tranqila. Ou teria sido antes com dissimulao? Essa dissimulao se impunha to naturalmente a Sverine 
que ela prpria no a reconhecia como tal. Jamais sentira pertencer mais puramente e mais inteiramente a Pierre do que quando vinha, exorcizada, da Rua Virne.
   As horas que l passava cada dia tinham uma durao isolada das outras horas. Eram estanques e se nutriam delas mesmas. Enquanto esse prazo se escoava, ela se 
esquecia verdadeiramente do que era e de quem era. O segredo de seu corpo vivia por si mesmo, nessas horas, como essas flores singulares que se abrem por alguns 
instantes e depois, fechando as corolas, voltam ao seu repouso habitual.
   No tardou at mesmo a deixar de notar que a sua vida era dupla. Parecia-lhe que sua existncia, muito tempo antes que ela prpria tivesse nascido, j fora assim 
determinada.
   O selo definitivo desse hbito foi o de ter voltado a ser, fisicamente, a mulher de Pierre. No tinha mais a conscincia de que lhe oferecia um corpo maculado 
e indigno, pois acreditava que, durante o trajeto da Rua Virne para casa, seu corpo inteiro se renovava, clula a clula. Era outra a sua carne. E nos transportes 
amorosos com o marido ela se mostrava ainda mais maternal do que antes, porque temia, sem o confessar, que um movimento mais apaixonado ou demasiado experiente lhe 
revelasse a cincia ilcita de que Belle-de-Jour era depositria...
   
   
   
 
 7
   
   
   
   Marcel, nos primeiros instantes em que Sverine o viu, quase nem sequer foi notado por ela. Viera com seu amigo Hiplito e, muito naturalmente, foi este quem 
primeiro atraiu a ateno da jovem mulher. Antes mesmo que ela se encontrasse na presena deles, uma atmosfera de mal-estar que parecia irradiar-se daqueles dois 
homens a intrigara poderosamente.
   - Sejam muito gentis com Hiplito - recomendara Madame Anais, sem olhar diretamente para o rosto de qualquer delas.
   - Pode ficar tranqila - respondeu nervosamente Charlotte. - Eu pensava, no entanto, que j estvamos livres dele...
    Madame Anais levantou os ombros e suspirou:
   -  um homem cheio de extravagncias. Talvez nunca mais tornemos a v-lo, mas talvez no saia daqui durante uma semana a fio. Enfim, sejam boazinhas, e no se 
arrependero.
   J no corredor, Sverine voltou-se para perguntar:
   - Quem  ele?
   - No sabemos.
   - Rico?
   - Que  que est pensando? Ele no paga nunca!
   - E ento?
   -  Madame Anais quem paga por ele. Chegamos a pensar que era amante dela. Mas, no. Eu pensava que ele vinha de tempos em tempos e, depois, ficava com ela. Ainda 
bem que no aparece freqentemente. Duas vezes, em dezoito meses, foi tudo. Se no fosse isso, eu no estaria mais aqui.
   - Nem eu - acrescentou Matilde.
   Elas, tendo chegado diante da porta do quarto grande, hesitaram. Sverine perguntou ainda:
   - Ele  muito brutal?
   - No bem assim, no  mesmo, Matilde? Em vez disso,  at tranqilo. E no  perverso. Mas tem qualquer coisa que mete medo e que no se pode explicar.
   Bastaram alguns segundos para que Sverine partilhasse o sentimento de suas companheiras. Hiplito era um bloco slido, brbaro, mais vasto e mais alto que o 
comum dos homens. Nada havia de particularmente cruel em sua fisionomia, que uma gordura possante alargava alm das medidas comuns. Seria o contraste entre sua imobilidade 
majestosa, quase mortal, e a bravia vida animal que coloria de sangue escuro os seus lbios e acentuava as suas mandbulas, semelhantes a armadilhas para feras, 
e que fazia de seus punhos verdadeiras massas de carne e de ossos? Ou a sua maneira de enrolar e colar com saliva um cigarro? Ou ainda o minsculo aro de ouro que 
trazia na orelha direita? Menos ainda que Charlote, Sverine no saberia dizer, mas o medo deslizou lentamente por suas veias. Fascinada, no podia desviar o olhar 
desse homem bronzeado, que tinha a cor e as propores de um dolo.
   Ainda que tivesse os olhos fixados sobre um ponto que s ele sabia qual fosse e que decerto estava bem longe daquele quarto, Hiplito percebeu o constrangimento 
e o medo das trs mulheres. Mas no se dignou de fazer qualquer observao. Apenas disse, com uma preguia em que transparecia o mais completo desdm:
   - Como  que vo, meninas?
   Depois, calou-se. Via-se que no gostava de falar e que o silncio - gua morna intolervel para a maior parte das pessoas - absolutamente no o perturbava. Mas 
Charlotte resolveu romp-lo:
   - E o senhor como  que vai, Sr. Hiplito? - perguntou com falsa alegria. - H j uns bons meses que no o vemos...
   Ele no respondeu. Limitou-se a tirar uma longa baforada do cigarro.
   - Ponha-se  vontade. A tarde est quente - props Matilde, que tambm no podia suportar-lhe o mutismo.
   Hiplito fez-lhe um breve sinal, e ela foi ajud-lo a tirar o casaco. Sob a camisa, que era de seda, apareciam os braos musculosos, o desenho das espduas, do 
trax. Pareciam pedaos fundidos, organizados por um labor misterioso.
   - Eu trouxe algum comigo - declarou Hiplito. -  um amigo meu.
   O tom em que proferira essas ltimas palavras diferia muito de sua soberba despreocupao, de sua imponente superioridade. Grave e sonora, a palavra amigo parecia 
ser para Hiplito, a nica que contava, no vocabulrio humano.
   Sverine voltou a cabea para o jovem que se mantinha um pouco retrado, por trs da figura macia de Hiplito e como que  sua sombra. Percebeu ento que ele 
tinha os olhos, muito negros e muito brilhantes, fixados sobre ela. Mas sua ateno foi de novo magnetizada pelo colosso, que lhe dizia:
   - No dispomos de muito tempo. Pagarei umas bebidas para vocs, qualquer outro dia. Venha c, voc a, novata.
   Sverine fez um movimento em direo a ele, mas foi detida por uma voz quente c persuasiva:
   - Deixa essa para mim - pediu o jovem.
   Charlotte e Matilde tiveram um movimento de inquietao, to fora de propsito lhes parecia qualquer tentativa destinada a modificar o curso de um desejo de Hiplito. 
Mas este sorriu, com uma doura macia, e disse-lhe pondo a mo sobre o ombro do jovem companheiro, que apesar de frgil suportou bem a carga:
   - Diverte-te  vontade, pequeno. Ests na idade. Hiplito era quem atraa fisicamente Sverine.
   Sentiu-se tanto mais decepcionada por no ter ganho sequer, com essa troca cnica, o apaziguamento de seu mal-estar, pois o moo magro tambm para isso contribua, 
em grau no menor que o outro.
   - Voc precisava agradar-me muito, para que eu a tivesse pedido ao meu amigo - disse ele, quando ela o conduzia para o seu quarto.
   Em condies ordinrias, tal frase teria bastado para neutralizar os sentidos de Sverine, que odiavam o silncio, a pressa, a brutalidade. Agora, porm, surpreendia-se 
com o desejo paciente que a perturbava. E examinou melhor aquele a quem Hiplito acabara de ced-la, com tanta impassibilidade.
   Seus cabelos, brilhantes de gomalina, sua gravata cara mas de cores berrantes, suas roupas excessivamente justas, o grande diamante no anel que trazia no dedo 
anular - tudo isso era to suspeito como a pele spera e a fisionomia cerrada, como aqueles olhos ao mesmo tempo inquietos e inflexveis.
   Sverine lembrou-se de que a gigantesca manopla de Hiplito se abatera sobre aquelas espduas estreitas e elas no se vergaram. Uma emoo sutil apoderou-se dela.
   - Tu me agradas, estou-te dizendo - repetiu o moo, sem descerrar os dentes.
   Sverine percebeu que ele no tinha a inteno de lhe fazer um cumprimento. Antes, era como se lhe estivesse dando uma espcie de presente. E parecia irritado 
por no a ver desde logo reconhecida e grata.
   Ela avanou para ele com a boca entreaberta. Ele colou-lhe a sua, com um ardor calculado. E, depois, conduziu Sverine para a cama. Como se sentiu pequenina e 
leve, em seus braos pouco musculosos!
   Tudo, no amigo de Hiplito, no era seno aparente fraqueza. Os dedos de suas mos belas e longas tinham a dureza de estiletes. Suas pernas delicadas e finas 
fizeram Sverine gemer de dor, quando a apertaram entre elas, mas j um prazer mais violento que suas piores delcias a perturbava.
   - O moo tirou um cigarro de um estojo de grande luxo e perguntou-lhe:
   - Como te chamas?
   - Belle-de-Jour.
   - E que mais?
   -  s.
   Ele franziu os lbios, com indiferena mesclada de ironia.
   - Se ests pensando que sou da polcia, ests enganada - preveniu-a.
   - E tu? Como  teu nome?
   - No o escondo. Chamo-me Marcel, mas os outros tambm me conhecem como O Anjo...
   Sverine sentiu um ligeiro estremecimento, de tal modo a alcunha equvoca assentava bem  pureza cnica da fisionomia apoiada, ao lado da sua, sobre o travesseiro.
   - E ainda tenho outro apelido... - prosseguiu Marcel, hesitando. - Tenho outro... Bem, no vou encabular por tua causa, ora bolas! O outro apelido  Boca de Ouro.
   - Por qu?
   - Repara.
   S ento ela notou que ele mantinha sempre o lbio inferior repuxado sobre os dentes, ocultando-os. Ele puxou o lbio para baixo, descobrindo as gengivas. E Sverine 
viu que os dentes inferiores, que tanto ocultava, eram todos de ouro.
   - Rebentados com um soco - gargalhou Marcel -, mas tambm eu...
   No acabou de dizer aquilo que Sverine no tivera dificuldade em adivinhar. Diante do estranho espetculo daquela boca, ela sentira medo.
   Marcel se vestiu rapidamente.
   - J te vais? - perguntou Sverine, malgrado seu.
   - Sim,  preciso. Um camarada me espera... Interrompeu-se de sbito, com surpresa e com uma ponta de irritao. E disse:
   - Ora, essa! E eu ia te dando explicaes... Foi-se embora, sem dirigir-lhe um olhar, porm, no dia seguinte, voltou sozinho. Sverine estava ocupada, mas Charlotte 
e Matilde se apresentaram.
   - No forcem - observou Marcel. - Quero  Belle-de-Jour.
   Esperou pacientemente. O tempo, para ele como para Hiplito, no tinha a medida ordinria. Possua, como os animais, a faculdade de deixar o corpo respirar, sem 
que este interviesse em seu jogo perfeito. O que flutuava ento sob sua fronte no poderia pretender nem ao nome nem  forma de um pensamento.
   O rudo dos passos de Sverine dissipou num instante esse entorpecimento vigilante. Ela avanou para ele alegremente, mas Marcel a deteve com um gesto.
   - At que enfim apareces - disse ele.
   - No tive culpa de que me tenhas esperado. Ele dificilmente pde evitar um desdenhoso dar de ombros. Como se acaso se tratasse apenas da espera! Mas como confessar 
a uma mulher a razo daquela clera que evitava confessar a si mesmo?
   - Est bem - disse. - No te peo nada.
   Beijou-a nos lbios. Como no procurava mais dissimular a mandbula de ouro, Sverine sentiu ao mesmo tempo o calor de sua boca e a frialdade do metal. E nunca 
mais esqueceria o gosto dessa mistura.
   Marcel permaneceu por longo tempo com Belle-de-Jour. Parecia querer esgotar de uma vez a sede que o afligia. E Sverine sentiu que um temor confuso estremecia 
os recessos mais profundos de seu corao. Frua com delcia os seus abraos, experimentava um grande bem-estar ao sentir-lhe o corpo repousando contra o dela. Teve 
de reprimir vrias vezes o desejo de acariciar o corpo de Marcel, quase invisvel na penumbra crepuscular. Por fim, no podendo mais resistir, correu-lhe levemente 
a mo pelas espduas. Mas logo retirou a mo. Acabara de tocar uma espcie de rotura em sua carne. Marcel fez ouvir um pequeno assobio de desdm.
   - Vejo que no tens o hbito de lidar com essas costuras - falou. - Precisas ires te habituando.
   Tomou o punho de Sverine e percorreu com os dedos dela a extenso de seu corpo. Estava coberto de cicatrizes: nos braos, nas coxas, nas costas, sobre o ventre.
   - Mas... como!? - exclamou Sverine.
   - Vais querer tambm que te mostre a minha ficha na polcia? No se fazem perguntas dessa espcie a um homem.
   A severidade sentenciosa de sua voz soou como uma advertncia ao prprio Marcel.
   - E, agora, chega. Boa noite.
   Sverine no olhou para ele, quando se vestia. No queria contar com o olhar as suas cicatrizes, receando que a vista dessas marcas viris e misteriosas estreitasse 
ainda mais um liame que j lhe parecia muito slido.
   Pde medir a fora desse liame no curso das tardes que se seguiram e em que Marcel no apareceu. A inquietude tenaz e o estranho langor famlico que se instalaram 
nela obrigaram Sverine a reconhecer quanto Marcel lhe faltava.
   Temia no lhe agradar mais. E temia, sobretudo, que ele no tivesse meios com que pagar a Madame Anais e esse obstculo o afastasse definitivamente.
   Por isso, quando, ao cabo de uma semana, reviu a sua bela fisionomia alterada por um ricto sardnico, props:
   - Se no tens dinheiro, posso...
   - Cala-te - interrompeu ele.
   Respirou forte e depois disse, com um riso insultante:
   - Sei perfeitamente bem que, se eu quisesse... Mas j tenho trs mulheres para me' sustentar, fica sabendo... Mas tu, no, no quero. Fica entendido... Quanto 
a dinheiro, se  em dinheiro que pensas, toma!
   Atirou sobre a mesa um mao de notas amarfanhadas. Cdulas de cem francos se misturavam com outras de pequeno valor.
   - Nem sei mesmo quanto tem a - prosseguiu, com desprezo. - E, quando o que est a no der mais, dinheiro  o que no me faltar nunca.
   - E ento? - murmurou Sverine.
   - Ento, o qu?
   - Por que no tens vindo?
   Ele teve a reao violenta que sempre sentia em face das perguntas de Sverine. E replicou:
   - J falei demais. No vim aqui para conversar. Mas sua voz deixara transparecer o trao de uma fratura secreta.
   Desde ento, no faltou mais um nico dia. A princpio crispado e taciturno, ele gradualmente se ia distendendo, como se no mais quisesse combater uma atrao 
demasiadamente forte. E,  medida que progredia mais e mais em direo de Sverine, cada vez ela experimentava maior dificuldade em se desfazer de sua lembrana. 
A tal ponto que, a pouco e pouco, viu romper-se a barreira que, at ento, separara rigorosamente as suas existncias. Essa barreira fora, sem dvida, desfazendo-se 
gradualmente, sem que ela prpria disso se apercebesse. Mas Sverine acreditava que tal acontecera precisamente no memento em que isso lhe fora revelado pelas circunstncias 
seguintes.
   Marcel acabava de deix-la, e o prazer que ela frura fizera com que perdesse a noo das horas. Subitamente, lembrou-se de que devia ir jantar com Pierre e uns 
amigos e de que o marido j voltara para casa, estando, sem dvida, inquieto com a sua ausncia.
   Mas, ainda fatigada e quente dos beijos de Marcel, a preguia no lhe permitia aceitar a perspectiva de voltar apressadamente para casa. Vestia-se lentamente, 
a fim de que o seu atraso se transformasse num obstculo ainda mais decisivo e, depois, telefonou a Pierre, para dizer-lhe que se atrasara muito, com as provas de 
vestidos, que duraram mais tempo do que imaginara. E, por esse motivo, iria encontr-lo diretamente no restaurante. Isso a fatigaria menos, tanto mais que o jantar 
era simples, e um vestido de tarde seria o bastante.
   Assim, pela primeira vez, Sverine passou sem nenhuma transio da sociedade de Madame Anais para aquela que era normalmente a sua. E no pde deixar de experimentar 
um ligeiro choque no corao, ao perceber que os homens  sua espera se levantavam todos, respeitosamente, enquanto lhe vinha  mente a viso fugitiva, mas intensa, 
de Hiplito, sentado, fazendo Matilde vir tirar-lhe o palet.
   Pierre e Sverine tinham sido convidados por dois jovens cirurgies. Um deles, o mais moreno, passava por um tenaz conquistador, que obtinha grandes sucessos 
com as mulheres da alta roda. Tinha os movimentos de uma inteligncia sensual e, estampada no rosto, uma deciso ao mesmo tempo firme e terna,  qual elas mal podiam 
resistir. Sverine sabia disso, e disso se lembrou, com uma segurana irnica, quando ele a convidou para danar um tango.
   Esse amigo de Pierre sempre tratara Sverine de maneira corts c respeitosa, mas, nessa noite, parecia ter adivinhado nela singulares eflvios, pois a apertava 
de encontro a ele de forma ousada.
   Longe de perturbar-se com essas audcias, os traos fisionmicos de Sverine revelavam apenas uma expresso de involuntrio desdm. Como o desejo desse homem, 
reputado por sua brusquido, revelava, apesar de tudo, as suas boas maneiras! E como era pobre e exangue, perto do impetuoso desejo daquele que se apossava de Belle-de-Jour 
todas as tardes... num s gesto espontneo de Marcel, numa presso de suas mos, semelhantes a pinas de ao, havia mais despotismo e mais promessas do que em todos 
os esforos desse sedutor de mulheres do alto mundo.
   Podia tentar o que quisesse, mas nunca alcanaria a selvageria ingnua do outro, daquele outro cosido de cicatrizes e que trazia nos dedos, arrancado em desordem 
do bolso, para atirar sobre a mesa, o preo do amor que lhe davam.
   Nesse instante, Sverine sentiu-se mais prxima do anjo impuro da boca de ouro do que da gente que a cercava. E tinha nos lbios, para dirigir a seu par de dana, 
as mesmas palavras que um dia atirara a Husson, com obscura prescincia:
   - O senhor no nasceu para violar ningum...
   Durante toda a noite, a imagem de Marcel no a abandonou. Ainda se sentia ligada a ele pelo vestido que trajava e que ele ajudara a tirar, pela pele que ele acariciara 
e que ela no tivera tempo de purificar.
   Sverine, nessa noite, sentia-se mais bela ainda que nos outros dias. Sentia tambm uma embriaguez perversa em confundir as duas mulheres que existiam dentro 
dela. E, no momento de sair, beijou Pierre com um calor que no se destinava somente a ele.
   Nesse momento, porm, percebeu um recuo do marido e, durante todo o trajeto para casa, qualquer coisa de informe e de pesado os separou, para terror de Sverine. 
Ela mesma, num segundo de aberrao, comprometera todo um trabalho laboriosamente estudado. Agora, Pierre sofria de novo por causa dela.
   Sverine no compreendia inteiramente toda a violncia de seu amor por Pierre seno nas horas de enternecimento ou de perigo, mas, ento, sentia-se invadida pela 
angstia. Compreendeu, de sbito, que no ia mais  casa de Madame Anais por uma luxria annima, mas por causa de Marcel. E que a sua vida secreta, essa vida to 
bem circunscrita s paredes da Rua Virne, comeava a irromper atravs da outra vida, a vida consagrada a Pierre, que uma onda de salsugem ameaava corromper e arrastar.
   Precisava, a qualquer custo, restabelecer o dique. O hbito contrado, de entregar-se a Marcel, abrira a brecha perigosa. Devia esquec-lo. Isso seria um sacrifcio, 
mas um sacrifcio que Sverine estimaria fazer, ao olhar, como agora, o perfil grave de Pierre, recortado pelas sombras noturnas.
   E decidiu, ento, mudar o curso de seu destino.
   
   
    Madame Anais acolheu a resoluo de Belle-de-Jour com um prazer mesclado de inquietude.
   - No quer mais v-lo? Muito bem. S posso aprovar a sua deciso - disse ela. - No sei nada a respeito desse rapaz, mas antes estimarei v-lo bem longe daqui 
do que em minha casa. S h um problema: como ser que ele vai aceitar as coisas?  amigo de Hiplito. ,. Enfim, eu lhe direi que voc est doente. E talvez se deixe 
convencer.
   Quatro dias mais tarde, quando Sverine saa da casa de rendez-vous, uma silhueta que ela, antes mesmo de a ver, reconheceu pela sombra que projetava, barrou-lhe 
a passagem. Era to macia que a jovem mulher teve a impresso de que interceptava todas as luzes da noite.
   - Vou acompanhar-te durante uma parte do caminho - falou calmamente Hiplito.
   O sobressalto paralisou de incio qualquer reao de Sverine. Mas, uma vez deixada para trs a curta Rua Virne - que era, para ela, como que a antecmara da 
casa de Madame Anais - e tendo eles enveredado pela Praa de Saint-Germain-L'Auxerrois, uma espcie de grito interior a despertou.
   Mas, como? Ela se encontrava l fora, quer dizer, l fora, onde era toda virtude, toda sadia, l fora onde voltava a ser a esposa de Pierre - em companhia de 
um freqentador da casa de Madame Anais! E logo com qual! Vinha levando aquela vida reclusa, claustral e, para evitar a projeo da outra personalidade, a personalidade 
impura, tinha at mesmo renunciado ao seu mais candente prazer - e eis que essa mesma vida voltava contra ela os seus tentculos, no apenas por uma confuso de 
imagens, mas com a terrvel intromisso de Hiplito.
   O pavor que fez Sverine estremecer vinha menos ainda da situao em que se encontrava do que da marcha inflexvel de um destino que acreditava ter modelado  
sua vontade. Mas essa covardia, num minuto, cedeu ao seu instinto de conservao.
   Toda inteiriada, prestes a gritar por socorro, Sverine atirou-se de encontro a um txi que passava. Mas tropeou, ao sentir sobre ela a manopla poderosa de 
Hiplito. E, ento, experimentou o resignado apatetamento dos forados quando ensaiam os primeiros passos, arrastando aos ps os seus grilhes.
   O peso daquela mo enorme esgotou de um s golpe todas as energias da jovem mulher.
   - Nada de manhas - advertiu Hiplito, sem elevar o tom da voz. - Preciso falar-te e hei de te falar. Queres vir para um recanto tranqilo? Vem.
   Ele se dirigiu a uma biboca que servia vinhos, naquela mesma praa. Se bem que tivesse largado Sverine e nem olhasse para ela, a mulher o seguia.
   A sala, exgua, estava quase inteiramente vazia. Apenas um operrio bebia um copo de vinho branco, no balco lustroso. Fazia-o com um prazer to evidente que 
despertou inveja em Hiplito. Este esperou ser servido, antes de se voltar para Sverine.
   - Presta ateno ao que te vou dizer, para que no me veja na necessidade de o repetir - disse. - Se queres garantia acerca da minha palavra, vai perguntar em 
Montmartre ou no mercado, nas Halles, quem  Hiplito, o Srio. Portanto, eu te digo: se no queres ter aborrecimentos (e essa palavra benigna bastou para gelar 
Sverine), no brinques com Marcel...
   Bebeu lentamente o seu vinho e refletiu, porque tinha dificuldade de exprimir um pensamento articulado.
   - Tens um ar honesto e pareces ser uma boa garota. Por isso, posso explicar-te certas coisas - prosseguiu. - Marcel  um rapazinho que uma vez salvou a vida de 
Hiplito. Presta ateno a isso.  pior do que se ele fosse meu filho. S tem uma fraqueza: vocs, mulheres... J no ano passado, sem que eu estivesse ao seu lado 
para impedi-lo, ele... Bem, mas  melhor no falar nisso. Chega. Eu bem que j devia ter desconfiado que estava embeiado quando me pediu que te cedesse... Bem, 
mas a gente no pode desconfiar de tudo, que diabo! O fato  que, desde o comeo, ele ficou subjugado... Mas, mesmo nas suas besteiras, Marcel sabe ser homem... 
Alm disso,  to sincero esse garoto... Deixa-se levar com tal facilidade... Apesar disso, no deves pensar que engoliu como um boboca a histria da tua doena. 
E, se eu no lhe tivesse mo, era ele mesmo quem teria vindo esta tarde ao teu encontro. Mas no deixei. Ele  estourado demais... Hiplito se deixou absorver por 
um devaneio longo e pesado, a tal ponto que Sverine julgou ter sido esquecida.
   - Em suma - disse -, creio que no preciso pr mais na carta. Tu me deves ter compreendido...
   Colocou a mo enorme sobre a espdua de Sverine, fixou nela os olhos imveis e concluiu:
   - Podes sair, agora. Vai depressa. Fico para tomar mais um trago.
   Atravs da vidraa da taverna, Sverine percebeu-lhe a sombra enorme, curvada sobre o copo vazio. Ainda que j se encontrasse ao ar livre, a jovem mulher afastou 
violentamente a cabea. Aquela sombra a fascinava. Mas, nesse momento, precisava agir depressa. Tanto mais que sentia todos os nervos doloridos, como que expostos.
   Mais um dia, e ela cairia em poder desses dois homens, dos quais no sabia a quem mais temia e por trs de quem j adivinhava outros, to ou mais perigosos do 
que eles prprios, prontos a obedecer-lhes. Sverine voltou rapidamente  Rua Virne.
   - No poderei mais vir. Vou-me embora - explicou.
   - Esteve com o seu amigo? Ele vai lev-la para fora, cm suas frias? - perguntou Madame Anais, que, no compreendia um desligamento definitivo.
   - Sim, sim - respondeu a jovem mulher, para evitar qualquer outra explicao.
   Sc a suposio de Madame Anais no determinara a atitude de Sverine, pelo menos evitou que esta hesitasse por longo tempo. Alis, j no prprio momento em que 
Hiplito lhe falara, sentira-se subitamente invadida por um intenso desejo de fuga.
   Mas fugir da casa da Rua Virne no a satisfazia. Sverine no queria mais, no podia mais respirar o mesmo ar que os seus perseguidores. Um grande espao devia 
separ-la de Marcel c de Hiplito. O vero ia comear. Pierre, sem dvida, pretendia, como sempre, pedir suas frias mais para o fim. Iria, com certeza, falar-lhe 
do hospital, de sua clnica, do rodzio h longo tempo preestabelecido. Mas Sverine se sentia bastante amadurecida pelas provas a que se submetera e estava convencida 
de que o decidiria. Uma vez mais, o seu amor verdadeiro a levava a mesclar a ternura mais pura com os mais deplorveis sobressaltos.
   Tal como previra, com bastante facilidade, alegando motivos de sade e o desejo de ficar sozinha com ele, Sverine conseguiu convencer Pierre. Uma semana aps 
as advertncias de Hiplito, os Srizy tomaram o trem para uma praia deserta do Sul da Frana, perto de Saint-Raphael.
   At mesmo na plataforma da estao ferroviria, Pierre e Sverine se mostravam nervosos. Ele, por aquela partida brusca, que lhe desorganizaria o trabalho. Ela, 
porque tremia de medo, receando ver surgir o sorriso perverso de Marcel - estreito como um fio de ouro - ou a sombra colossal de Hiplito. Os primeiros solavancos 
do trem dissiparam, levaram para longe todos os seus cuidados. A maravilhosa solido do estreito compartimento que rolava dentro da noite envolveu Sverine e Pierre. 
O mesmo prazer estuante de juventude de outros tempos brilhou nos olhos de ambos. Sentiram que se amavam com mais frescor e mais solidez do que por ocasio de sua 
primeira viagem. Sverine, principalmente, sentia-se emocionada com aquela fieira de dias tranqilos e delicados, que se abriam diante dela e lhe pareciam infinitos...
   
   
   Os dias que se seguiram foram contados entre os mais belos de sua vida. As semanas atrozes que acabara de viver, as ameaas que haviam pesado sobre ela, como 
que multiplicavam a sua faculdade de ser feliz. E Sverine a tinha poderosa e to intensa que, por longo tempo, lhe havia bastado. O mar, a praia, o sol, a fome, 
o sono, de todos esses elementos tirava o que lhe podiam oferecer de mais tonificante e reparador. O tempo era belo, muito belo. O ar, como um blsamo leve e precioso, 
banhava o corpo de Sverine, esse corpo que ela no se lembrava mais de que fora devassado por tantas mos, que lhe pertencia de novo e se expandia cm castos eflvios.
   Tambm Pierre sentia-se feliz. Com o repouso, as paisagens que amava e, alm de tudo, o prazer de revelem seu pleno vigor e em sua inocncia aquela jovem mulher, 
que era a sua felicidade. Nadavam juntos. Quando tomavam um barco, remavam ambos na mesma cadncia. Sobre a areia brincavam como dois adolescentes. Sverine s se 
sentia verdadeiramente feliz perto de Pierre vivendo dessa maneira.
   Em Paris, o marido tinha os doentes, os livros de estudos, os interminveis artigos para as revistas de Medicina. E tudo isso os separava. Ao passo que naqueles 
exerccios violentos e puros, em que ela era to hbil quanto ele, ambos se confundiam num calor fraternal.
   Como Pierre lhe foi caro e doce durante aqueles dias sem igual! Como Sverine se encheu de medo, de piedade, at de desprezo por si mesma, por se ter arriscado 
a perturbar aquela inefvel harmonia...
   Em seguida a um abuso ou a um choque moral muito vivo, certas intoxicaes inspiram s suas vtimas tal pavor que elas tremem  simples lembrana das delcias 
pretritas e delas se julgam libertadas para sempre. Era assim com Sverine. Suas novas alegrias e o seu amor renovado, todos aqueles momentos felizes que agora 
vivia, faziam com que considerasse uma demncia pensar ainda na casa da Rua Virne.
   No sentindo mais o aguilho que a precipitava em busca desse abrigo sombrio, espantava-se, com certo nojo, da servido a que se tinha submetido. Fugira a tempo. 
Nenhum vestgio subsistiria de sua passagem por entre as paredes de Madame Anais. Ningum - nem mesmo Hiplito - poderia reencontrar Belle-de-Jour. Ela retinha entre 
as suas prprias mos a sua segurana. E como no se consideraria invulnervel, sob os fachos ardentes do sol de julho, s bordas de um mar submisso, sob a proteo 
de Pierre?
   Essas mesmas armas cedo se voltariam contra ela. Tranqilizara-se muito depressa e com uma segurana muito profunda. A distncia contribura para reduzir a propores 
humanas ordinrias o que, em Paris, a teria certamente perseguido como implacvel pesadelo.
   Quando o esprito realista de Sverine comeou a considerar o apartamento de Madame Anais como um apartamento qualquer, Matilde como uma pobre moa, Marcel como 
um simples rufio, e quando o prprio Hiplito no foi mais para ela que uma espcie de lutador que tinha dificuldade de se exprimir por palavras, Sverine se acreditou 
definitivamente salva.
   Mas, ao mesmo tempo, viu tombar o seu escudo mais poderoso: o terror mstico. Para defend-la contra aquela espcie de quebranto, de sortilgio funesto, no lhe 
restava mais que a razo.
   O inimigo, escondido em suas trevas carnais, readquiria vida e calor.
   Certa manh, chovia copiosamente. Em seguida, Sverine comeou a pensar que, se nesse dia houvesse feito bom tempo, tudo poderia ter sido evitado, como se as 
foras que a arrastavam no tivessem uma pacincia sem limites, como se elas no tivessem esperado durante anos e anos para se abaterem sobre sua presa encantadora 
e deplorvel.
   O mau tempo obrigou Pierre e Sverine a permanecerem no quarto do hotel. Ele aproveitou o ensejo para redigir uma comunicao cirrgica. Ela, maquinalmente, apanhou 
os jornais ilustrados, que comprara antes da partida de Paris. No os lera durante a viagem. Continuavam abandonados, sobre uma mesa, desde que tinham chegado. Folheou 
dois e, em seguida, apanhou o terceiro. O texto e os desenhos eram medocres. Sverine preferiu ler os anncios. De repente, seus olhos pararam em algumas linhas 
dentro de um quadro, cujo sentido no compreendeu  primeira vista. Depois, as letras formaram palavras que se comunicaram  sua inteligncia:
   
   9 bis, Rua Virne 
   Madame Anais recebe todos 
    os dias, no seu home ntimo, 
    cercada de suas trs graas. 
    Elegncia, encanto, especialidades.
   
   Sverine leu vrias vezes o pequeno quadrado que continha essas palavras. Temia ter deixado escapar o seu nome nesse lugar. Mas, a seguir, lembrou-se de que na 
Rua Virne tinha apenas uma alcunha. Depois de lanar um olhar medroso a Pierre, que trabalhava inteiramente absorvido por sua tarefa, contemplou o mar e o cu que 
comeava a clarear.
   - Saiamos - disse, repentinamente. - O sol est reaparecendo.
   Mas nem o banho de mar nem a corrida pela praia molhada lhe fizeram esquecer o anncio em tipos grossos. Ao deitar-se, retomou o jornal, dobrando-o de forma que 
Pierre no pudesse ver a pgina. E tornou a ler o anncio, com o olhar embaciado.
   Era o apelo da dona do bordel, o sinal de convocao para o leito de Belle-de-Jour... Como o nome de Madame Anais, impresso, parecia to repulsivo e diferente 
do nome que ela conhecia apenas em sua forma auditiva! E sua casa, as mulheres e, por fim, a prpria Sverine, como se tinham transformado, como apareciam aviltadas 
por aqueles qualificativos, to obscenos, em sua sensaboria, quanto os termos mais ignbeis!
    "Home ntimo... as trs graas... especialidades."
   Um gosto estranho, funesto, o gosto de uma droga conhecida e, contudo, nova, filtrava-se na boca de Sverine. Um calor ao mesmo tempo vergonhoso e reconfortante 
a penetrava. Calculou que as frias de Pierre chegavam ao fim. E teve piedade dele - no dela.
   
   
   Como teria Marcel ficado sabendo, imediatamente, do regresso de Belle-de-Jour? Jamais ele lhe contou esse segredo, mas Sverine ainda no se tinha instalado na 
Rua Virne por uma hora e j lhe ouvia o som da voz. Sua cabea ficou  roda. Esperava ver Marcel, mas no to depressa. Aquela rapidez a alertara rapidamente sobre 
a tenacidade daquele homem e sobre os seus perigosos meios secretos de informao. No teve tempo sequer de pensar nisso. A porta escancarou-se violentamente. E, 
na soleira, Marcel, lvido, tremia de um tremor que se formara durante dias e dias de intensa clera.
   - Ests sozinha - disse ele, quase indistintamente. - Tanto pior! Gostaria de que houvesse um homem a teu lado. Porque, ento...
   Sverine, sem se apercebei disso, recuara at  parede.
   - Precisei deixar Paris - murmurou. - Eu te explicarei.
   Marcel gargalhou, deixando aparecer a mandbula de ouro.
   - Explicar! Pois espera, que eu tambm vou me explicar!
   Retirou o cinto que lhe apertava as ancas estreitas e trancou a porta por dentro, guardando a chave. Sverine acompanhava-lhe os movimentos com um olhar estpido, 
de quem nada compreendia. Mas, brandida por mos furiosas, a tira de couro sibilou no ar.
   Onde teria Sverine encontrado a agilidade c a fora necessrias para esquivar-se ao cinto e agarr-lo? Qual seria a origem daquela energia selvagem, que domaria 
Marcel, ao dizer:
   - No continues ou, faam vocs o que quiserem, nunca mais voltars a me ver!
   Permaneceram longo tempo separados pela largura do quarto. Suas respiraes ofegantes povoavam o silncio. Mas. a pouco e pouco, foram-se acalmando e, a pouco 
e pouco, dissipou-se a espantosa imagem que galvanizara Sverine: a de seu corpo vergastado, lanhado, dilacerada por ferimentos infames, sob o olhar atnito de Pierre. 
Com essa imagem desapareceu tambm todo o seu vigor. Mas Sverine j no precisava dele. Marcel dizia, de fronte baixa:
   - No s uma mulher feita da mesma massa que as outras. Hiplito bem que me disse...
   Levantou a cabea, ao ouvir um baque surdo. Sverine acabara de desmaiar. Marcel precipitou-se para ela e a colocou no leito. Num estado de semiconscincia, ela 
levantou o brao, para se proteger.
   - No tenhas mais medo, no tenhas mais medo, minha meninona - repetia Marcel, confusamente.
   Nesse dia, absteve-se de tocar nela. Tinha por essa fisionomia de anjo decado um sentimento mais profundo que o desejo.
   No dia seguinte, voltou e entrou no quarto de Sverine com as risotas habituais. Mas, quando a tomou nos braos, ela sentiu, por uma imperceptvel vigilncia 
de seus msculos, que ele tinha medo de fazer-lhe mal e procurava, com mais cuidado, o seu prazer. O dela  que foi menor que de ordinrio. E diminuiu sem cessar, 
 medida que Sverine adquiria conscincia de um poder que no era mais apenas sensual.
   
   
   Antes da fuga de Belle-de-Jour, Marcel lhe propusera sarem juntos uma noite. Ela, naturalmente, recusara de pronto. Como, nessa poca, ele ainda defendia o seu 
prestgio de homem, limitou-se a dar de ombros, e no mais tocara no assunto, a que agora, no entanto, voltava com obstinao. Essa amante, em quem distinguira confusamente 
uma essncia que lhe era desconhecida, queria-a ver unida ao seu destino por liames mais fortes que o dos simples encontros, ainda que dirios, numa casa pblica.
   Por seu lado, Sverine obedecia  lei fatal do prazer sem espiritualidade que, embotando-se, leva todos os dias um pouco mais adiante a sua busca, por meios factcios. 
Para reanimar a preferncia que tivera por Marcel, recorria freqentemente  evocao do perigoso mistrio que envolvia a vida daquele jovem. Mas sua imaginao 
esgotou depressa esse recurso. Ento, a insistncia de Marcel para que sasse com ele comeou a encontrar um campo mais favorvel. Ela pensara que, ao surpreend-lo 
em sua existncia tortuosa, reencontraria, ainda que por algum tempo, aquele terror que havia formado a camada mais profunda de sua volpia. Comprazia-se em imaginar 
o que poderia suceder durante tal noitada tanto mais que acreditava tratar-se de coisa inteiramente impossvel. Como admitir que pudesse sair, sem Pierre, durante 
a noite?
   Mas, inconscientemente, espreitava uma ocasio de faz-lo, e essa ocasio surgiu, como sempre surge para aqueles cujo ser secretamente a espera. Uma operao 
na provncia exigiu, durante vinte e quatro horas, a presena de Pierre.
   
   
   Marcel e Hiplito esperavam Sverine no taverneiro das proximidades da Igreja de Saint-Germainl'Auxerrois. Permaneciam calados, como era costume, quase sempre, 
quando se achavam juntos, mas a segurana profunda, que se nutria desse silncio, estava ento abalada. Que Marcel sasse com uma mulher no era coisa que perturbasse 
Hiplito. Suas companheiras conheciam o seu lugar e deixavam que os homens falassem entre eles ou se mantivessem em silncio, absortos, como se sonhassem. Mas Belle-de-Jour 
no era mulher de tal calibre.
   Depois da afronta que ela lhe infligira, partindo sem sua permisso, como poderia Marcel dispensar-lhe o favor de deixar que passasse toda uma noite com eles? 
O pior  que nem mesmo conseguira castig-la exemplarmente. Hiplito estava certo disso. E sofria, interpretando esse indcio como uma covardia, a que sempre fora 
estranho, mas que com tristeza vira irromper nos raros homens cuja coragem e lealdade admirava.
   - Que coisa lastimvel - dizia Hiplito. - E pensar que fui eu quem o arrastou  casa de Madame Anais.
   Depois, como um insondvel passado tinha forjado a sua sabedoria, enrolou um cigarro, pensando que seria bom irem comer, pois a fome estava apertando.
   Sverine chegou antes da hora marcada. Essa prova de respeito distendeu um pouco o colosso. Ele ficou igualmente satisfeito ao testemunhar o tom negligente com 
que Marcel disse a Belle-de-Jour:
   - At que ficas bem de chapu.
   Mas o moo sentiu, na sua alegria desordenada, que no teria conseguido falar nesse tom se no fosse a presena de Hiplito, impondo-se e refreando-lhe os entusiasmos.
   - Onde jantaremos? - perguntou o srio.
   Marcel props alguns desses restaurantes conhecidos dos grandes boulevards, mas Sverine os recusou, um a um.
   - Cala-te - disse rudemente Hiplito. -  comigo que Marcel est conversando, segundo penso...
   E, depois, a seu amigo:
   - Chega de fazer farolagem. Quando se quer tirar a barriga da misria, vai-se  pegar a bia da Maria. Isso  que  legal.
   Quando Hiplito decidia alguma coisa, no se dava nem ao trabalho de esperar que os outros concordassem. Pagou e saiu, Os outros fizeram o mesmo, no sem Marcel 
ter antes consultado Sverine com um olhar. A vigilncia animal do srio surpreendeu esse movimento.
   - Passa na frente, Belle-de-Jour - ordenou ele. Quando ficou para trs com Marcel, disse-lhe, numa voz em que a ameaa se ligava estranhamente  splica:
   - Se no queres que eu faa uma desgraa, comporta-te como homem... Ao menos, enquanto eu estiver presente.
   O restaurante designado por Hiplito se achava no incio da Rua Montmartre. Foram a p. Sverine caminhava, como se estivesse vivendo um mau sonho, entre os dois 
homens taciturnos, que a conduziam, atravs das Halles desertas, para onde, ela no sabia. Se Marcel estivesse s, ela no o teria seguido, mas bastava-lhe ouvir 
os passos macios de Hiplito para no ser mais senhora de sua prpria vontade. Contudo, o aspecto da sala em que penetraram tranqilizou-a. Como todos os que ignoram 
a vida secreta de Paris, Sverine, por seus companheiros viverem  margem da sociedade, acreditava que freqentassem apenas antros de degoladores. Ora, o restaurante 
minsculo era bastante limpo e acolhedor. Um balco faiscava, brilhante, junto  entrada. Uma dzia de mesas, cobertas com toalhas e pratos limpos, completava o 
arranjo do ambiente.
   - Quem vai ficar muito contente  Maria - disse o homem de suter de l e de olhos afveis que se achava por trs do balco.
   Quando saudava polidamente Sverine, da pequena porta que, ao fundo, dava para a cozinha, vinha cercada de um odor de alho e de temperos fortes uma espcie de 
bola de carne, vestindo uma blusa e uma saia.
   - Vocs no tm vergonha, seus bandidos?! - gritou ela, abraando e beijando impetuosamente os dois amigos. - Quatro dias sem virem ver a pobre Maria!
   Sua voz meridional estava impregnada de calor e juventude. E Sverine sorriu quando essa mulher a encarou, to bondosos pareciam os seus admirveis, imensos olhos 
negros, malgrado a gordura que precoce-mente lhe deformara o rosto.
   - Bom dia, pequena - saudou-a Maria. - Com qual dos dois ests?
   - Espera que eu apresente - replicou gravemente Hiplito. - O Sr. Maurice, um amigo (e indicou o homem do balco). E Madame Maurice (indicou Maria).
   E, mostrando Sverine: -- Madame Marcel.
   -  exatamente o que eu pensava - disse maternalmente Maria. - Ela tem mesmo o jeito dele.
   Tornou-se sria e confidencial para perguntar:
   - Que  que comem as crianas? Meus repolhos recheados, pois no? E depois?
   Marcel apertou contra si o corpo de Sverine, que se deixou aproximar dele quase com ternura, por ter reconhecido naquele ambiente um carter forte, viril e, 
no saberia dizer porqu, at mesmo proibido.
   Homens entravam, apertavam as mos de Maurice, de Hiplito e saudavam Sverine. Alguns, se bem que raros, eram seguidos por mulheres. Estas no se demoravam no 
balco e iam prudentemente sentar-se  mesa que seu companheiro designava com um simples olhar ou com uma breve palavra. Esses homens, por mais diferentes que fossem 
em sua constituio fsica, em sua indumentria e em seu sotaque, tinham uma indefinvel marca comum: a da ociosidade. Uma ociosidade que transparecia quer nos gestos, 
quer nas palavras, quer na maneira de erguer ou inclinar a cabea, como nos seus olhos geis e preguiosos. A conversao de todos eles tinha por objeto principal 
as corridas de cavalos e certos negcios que s abordavam atravs de vagas aluses.
   A sala, mal ventilada, se tornara quente. Os alimentos, copiosos e ricos, temperados sem medida por Maria, e os vinhos de alto teor alcolico juntaram  temperatura 
do ambiente um fogo interior muito vivo. E ainda que todos, nas mesas, estivessem decentemente vestidos, a maneira pesada com que se alimentavam, as espduas reforadas 
dos homens, a flexo de suas nucas, tudo isso dava a Sverine uma sensao de repasto clandestino e perigoso.
   No olhava para ningum, nem ouvia as lentas conversas das mesas vizinhas, ou mesmo a de Hiplito e Marcel. O que a mantinha em suspenso, numa espcie de bem-estar 
sensual, era a soma daquelas vidas desconhecidas, suspeitas e livres (compreendia, enfim, o sentido dessa palavras, de que Marcel costumava usar e abusar). Tudo 
isso agia sobre ela como um filtro concentrado, macio.
   Pessoa alguma, entre os que ali se achavam reunidos, manifestava a menor pressa de sair, salvo as mulheres, que uma a uma iam-se embora.
   Para que espcie de trabalho? indagava Sverine a si mesma, estremecendo suavemente ao afluxo de vagas imagens que ultrapassavam em miservel luxria as da Rua 
Virne.
   - Est na hora - comandou Hiplito. - Vamos beber os ltimos tragos noutro lugar.
   Marcel hesitou um instante. Depois, disse-lhe ao ouvido:
   - No posso ir...
   E indicou a companheira:
   - Por causa de Belle-de-Jour, voc compreende...
   - Que histria  essa, Marcel?
   Achou, logo, um argumento que lhe parecia definitivo:
   - Escuta aqui, Maurice. S para tirar uma dvida - disse Hiplito, levantando a voz. - Se te arriscasses a enfrentar uma encrenca, em determinado lugar, levarias 
contigo a tua mulher?
   - Se levaria? Levaria, sim, por exigncia dela. Hiplito se levantou. Marcel tambm. E Sverine.
   Na rua, Hiplito, condescendentemente, deu o brao a Belle-de-Jour.
   - Voc, afinal de contas,  uma pequena de fibra... - falou-lhe.
   Deu de ombros, dirigindo-se, em seguida, a Marcel:
   - E, depois, onde vai o homem, vai o perigo...
   Um medo mortal repercutia interiormente em todo o ser de Sverine. Medo menos de um perigo que no sabia ao certo qual fosse, mas da louca promiscuidade a que 
se ia deixando cada vez mais arrastar. Entretanto, por um estranho contgio, o contato de Hiplito e a natureza do meio que acabara de deixar no permitiam que esse 
medo se exteriorizasse.
   O lugar a que Hiplito se dirigira era um pequeno bar, aberto durante toda a noite, diante do mercado dos legumes, ao lado das Halles. A, comeava-se a sentir 
um nauseante cheiro azedo. As mesas enxovalhadas, detritos no cho escorregadio, o vazio da sala e uma luz estranha, ao mesmo tempo fatigante e confusa, causavam 
certo mal-estar. L fora passavam lentos veculos com suas cargas imprecisas, arrastados por grandes cavalos de plo reluzente e conduzindo, no alto, homens meio 
adormecidos, calados de enormes botas e munidos de longos chicotes. Uma espcie de confuso brbara reinava naquele lugar e em suas imediaes.
   Hiplito e Marcel bebiam vinho rascante e pareciam desinteressados do mundo exterior. Mas, vendo um grupo transpor a soleira do bar, Sverine tomou a mo do amante 
que, naquele momento, lhe parecia ser a nica proteo contra uma ameaa terrvel.
   - Calma - recomendou Marcel, entre dentes. - Fiz bem em ter vindo. Eles so trs...
   Os homens que acabavam de chegar sentaram-se tranqilamente  mesa de Hiplito, e um deles, o mais baixo, bexigoso, lanou um olhar rpido a Sverine.
   - Podes falar - disse Hiplito. -  a mulher de Marcel.
   A cabea de Sverine achava-se vazia e pesada, mas, mesmo que no estivesse, ela nada teria compreendido da conversao que ento se iniciou, to estranha, rpida 
e misteriosa era ela. Sverine estava sentada entre Hiplito e o bexigoso. Os companheiros dos dois interlocutores apoiavam cada um dos partidos com a sua presena 
e com o seu silncio. De repente, Sverine ouviu o homenzinho gritar:
   - Ladro!
   Em seguida, viu Marcel levar a mo ao bolso do palet, e os trs adversrios fazerem o mesmo gesto. Mas o punho de Hiplito j pousara na mo de Marcel.
   - Nada de histrias, meu pequeno - ponderou ele, suavemente. - Deixa que eu lidarei com esses tratantes.
   Afastou a mesa, agarrou o punho do bexigoso, forou-o a tirar a mo do bolso, em que estava enfiada. Os dedos do homenzinho crispavam-se no cabo de um revlver. 
Hiplito voltou a arma contra o seu prprio ventre e lhe disse:
   - Agora ests em posio bem mais vantajosa. Por um segundo, a impresso que todos tinham era a de que o homenzinho ia atirar. Mas o seu olhar vacilou sob o olhar 
autoritrio de Hiplito. Ento, este comandou:
   - Agora, passa para c a muamba. Sei que est contigo. Vamos!
   Como se estivesse sob o efeito de uma hipnose, o bexigoso tirou do outro bolso um pacote, que entregou a Hiplito.
   - Espero que o peso esteja certo. E, agora, no os retenho mais - disse o srio.
   Os trs homens se dirigiam  porta. Marcel ainda lhes gritou:
   - Pelo ladro que disseste, no te pegarei a traio. Mas um dia ainda nos veremos!
   - Teu pequeno  esquentado - comentou Hiplito com orgulho para Belle-de-Jour. - Sempre teve sangue nas guelras...
   Uma espcie de vertigem se apoderou de Sverine. Mas no mais de medo. Seus olhos, maiores e mais belos, pousaram nos olhos de Marcel. Ele compreendeu que a companheira 
era sensvel  sua coragem e ao fato de ter sido quem primeiro pensara em desencadear a morte.
   - Liquidarei esse bexigoso quando o pegar de jeito - gritou ele. - Nem que tenha de persegui-lo at Valparaso, como aquele outro...
   Hiplito o interrompeu rudemente:
   - J ests falando demais... Vais contar gabolices, para te valorizares. Bobagem! Vo dormir, vocs dois, que tenho mais o que fazer...
   Voltou-se para Sverine.
   - Tu te comportaste bem. s uma pequena firme - cumprimentou-a. - Queres uma boa frise, agora?
   Ela no compreendia bem o que Hiplito lhe oferecia, mas recusou.
   - Tens razo - disse Hiplito. - Isso s  bom para os viciados. Amem-se bem, meus filhos.
   Encontrando-se agora sozinha com Marcel, Sverine perguntou:
   - Que foi que ele me ofereceu?
   - Cocana - respondeu-lhe o amante, com marcada repugnncia. - Tem em seu poder 250 gramas, que tomou ao bexigoso, como acabaste de ver. Agora, vai coloc-la, 
e seremos ricos durante um ms...
   Sverine no quis acompanhar Marcel  casa dele e nem mesmo mudar de quarteiro. Parecia-lhe que aquele, que compreendia a Rua Virne, a biboca do vinhateiro, 
o restaurante de Maria e o bar de onde tinha acabado de sair era o nico propcio aos seus transbordamentos. Mas como, esbraseada por tudo quanto acabara de ver, 
sentia o mais mordente desejo de entregar-se a Marcel, deixou-se conduzir a um hotel srdido da vizinhana, e l, numa cama ignbil, conheceu o mais maravilhoso 
dos prazeres.
   O dia comeava a clarear quando Sverine saltou da cama.
   - Preciso ir-me embora - avisou.
   Por um instante, Marcel, a quem essa noite havia restaurado os instintos, reagiu.
   - Ests brincando? - perguntou, em tom ameaador.
   - Preciso - repetiu Sverine.
   Como no dia em que brandira o cinturo, ele sentiu que uma fora, cujo nome e natureza no conhecia, mas no podia superar, dominava a jovem mulher.
   - Est bem - concordou. - Eu te acompanho.
   - Isso, no.
   De novo, aquele olhar insustentvel, de algum que defendia a sua vida, fez Marcel ceder.
   Levou-a a um ponto de txi e a viu partir, sem saber para que destino. Enquanto as luzes do veculo eram visveis, acompanhou-lhes a trajetria, imvel. Depois 
que elas se perderam na distncia, soltou uma horrvel praga e resolveu consultar novamente Hiplito.
   
   
   Somente depois de deitada em seu leito, Sverine conseguiu refletir no que poderia ter acontecido se Hiplito dispusesse de um golpe de vista e de movimentos 
menos rpidos, ou se o homenzinho bexigoso houvesse apertado o gatilho da arma apontada para o ventre do gigante srio. E ento comeou a tremer, batendo o queixo, 
como se num acesso de malria.
   Pierre voltou da viagem algumas horas mais tarde, com os traos fisionmicos marcados pela fadiga.
   - No me deixes mais sozinha - suplicou Sverine. - No posso viver sem ti...
   
   
   Marcel no reapareceu na Rua Virne durante alguns dias. Sverine no se inquietou. Nada mais esperava dele. Quando ele a viu de novo, apressou-se a dizer:
   - Esta noite, sairemos juntos outra vez.
   Ela recusou, com muita calma. Tinha agora a impresso de estar diante de um estranho inteiramente inofensivo. Marcel, alis, no se mostrara violento. Pedira, 
numa voz quase doce:
   - Poderias dizer-me por que razo no queres?
   - Todo mundo aqui sabe perfeitamente bem que no sou livre.
   - Ento, liberta-te. Fica livre. Dou-te a minha palavra de que no te faltar coisa nenhuma. Eu te darei tudo de que precisares.
   - Impossvel - respondeu Sverine.
   - Ento, tu o amas? Sverine manteve-se em silncio.
   - Est bem - disse Marcel. E se foi.
   Ela acreditara t-lo domesticado, definitivamente. Contudo, ao deixar a casa de Madame Anais, voltou-se vrias vezes, para observar se Marcel ou Hiplito no 
a seguiam. Nada percebendo de suspeito, Sverine dirigiu-se tranqilamente para casa.
   Na mesma noite, num bar de Montmartre, na esquina da Place Blanche, Hiplito e Marcel bebiam em silncio. Um homem ainda jovem veio ao encontro deles.
   - J sei de tudo, senhor Hiplito - informou, com deferncia. - Banquei o eletricista, fazendo a inspeo das instalaes...
   E deu o endereo, o andar e o verdadeiro nome de Belle-de-Jour.
   Hiplito deixou que seu espio se afastasse e disse ento a Marcel:
   - Agora, quando quiseres, procede como bem entenderes...
   Se soubesse a sorte que esse ardil preparava ao nico ser que lhe era caro no mundo - o seu amigo Marcel -, Hiplito, ainda que no gostasse de ver correr sangue, 
teria sem dvida matado aquele jovem descorado, antes que esse informante abrisse a sua boca de mensageiro de tragdias.
   
  
  
  8
   
   
   
   Seria por honestidade ou por efeito de um sentimento mais complexo, contra o qual se debatia em vo? Como quer que fosse, Marcel no ousou, nos primeiros dias, 
usar as armas de que dispunha contra Sverine. Ento, enquanto hesitava, uma sombra interveio.
   Numa quinta-feira, cerca das quatro horas (todos os pormenores ficaram profundamente impressos na memria de Sverine), Madame Anais veio procurar suas trs pensionistas, 
recomendando-lhe:
   - Arrumem-se bem. Fiquem to bonitas quanto possvel. Vem a um senhor muito distinto. E quer que todas vocs estejam l.
   Ao seguir as companheiras, Sverine no tinha nenhum pressentimento. Caminhando em passos tranqilos, as belas espduas muito direitas, entrou no grande quarto. 
O homem estava voltado para a janela. No se percebiam seno as suas costas. Mas,  vista daquelas costas estreitas, ossudas, Sverine no pde deixar de recuar. 
Um segundo mais, e abria a porta para fugir, para esconder-se. Ento, Madame Anais nunca mais a veria. No pde, contudo, terminar esse movimento. O novo fregus 
da Rua Virne voltou-se sobre si mesmo, e Sverine, paralisada, de chofre, no teve foras para dar mais um passo, nem para soltar o terrvel gemido de que provinha 
de todo o seu ser.
   Os olhos gastos e estreitos de Henri Husson se detiveram sobre ela. Isso no durou mais que um instante, mas Sverine experimentou a impresso de ter sido capturada 
numa tarrafa de cujas malhas ningum poderia arrebat-la. A prpria massa esmagadora de Hiplito era ligeira perto da expresso fugitiva desse olhar.
   - Bom dia, senhoras - saudou Husson. - Sentem-se, eu lhes peo.
   - Ele  simptico e gentil, no achas, Matilde? - interrogou Charlotte.
   O som dessas duas vozes cruzadas, a confrontao dos dois aspectos de sua existncia acabaram de estilhaar Sverine. Deixou-se deslizar sobre uma cadeira, as 
mos juntas, como que para reter entre os dedos mortalmente crispados o pouco de razo e de vida que lhe restava.
   - O cavalheiro no quer tomar alguma coisa? - indagou Madame Anais.
   - Naturalmente... E pode servir tudo o que essas damas desejarem... Mas como se chamam elas? Ah, sim... Mlle. Charlotte, Mlle. Matilde e... Belle-de-Jour? Belle-de-Jour... 
 curioso e original.
   Empregava todos os recursos musicais de sua voz, todo o seu irritante encanto pessoal. As mos de Sverine se desataram. Seus braos, soltos e flutuantes, penderam 
ao longo do corpo, como se fossem de palha.
   Servidas as bebidas, Charlotte quis sentar-se no colo de Husson. Ele, cortesmente, o evitou.
   Falou de mil coisas insignificantes, mas com um cuidado de expresso cada vez mais estudado, cada vez mais acerado. E cada uma de suas frases dilacerava fragmento 
a fragmento a alma de Sverine. Ela no experimentava vergonha, nem medo, mas um mal-estar pior do que qualquer sentimento definvel. Com a mesma segurana, Husson 
continuava a falar, agora provocando da parte de Charlotte respostas equvocas e risos grosseiros. Fez durar esse jogo de contrastes durante uma hora inteira, no 
curso da qual s raramente olhava para Sverine. Mas, ento, ligeiras vibraes lhe faziam estremecer as plpebras. E adivinhava, com espanto, que esses frgeis 
movimentos deflagravam a volpia do novo cliente.
   - At onde no ir ele para satisfaz-la? - perguntava Sverine a si mesma, sabendo bem a que concesses obscuras levava a perseguio daquela divindade.
   Mas Husson pagou as bebidas e colocou algumas notas sobre o aparador, dizendo:
   - Peo-lhes que dividam entre si essa lembrana. At  vista, senhoras.
   Sverine, aniquilada, deixou-o sair do aposento. Mas, mal acabara ele de sair, um impulso alucinado a fez correr atrs dele. Precisava saber, certificar-se... 
precisava... Husson, na antecmara, despedia-se de Madame Anais. Estaria em suas intenes ir-se embora? Ou esperava que Sverine aparecesse e tentasse det-lo? 
Ele prprio sem dvida o ignorava, deixando a seus instintos mrbidos o cuidado de conduzi-lo aos prazeres difceis, pois que s esses o satisfaziam, provocados 
por certas expresses fisionmicas e por certas deformidades.
   - Fique - disse Sverine, estendendo um brao para Husson. - Eu preciso...
   - Logo voc, Belle-de-Jour! - reprovou Madame Anais. - Voc, que tem tanta linha! Que  que no vai pensar o cavalheiro?
   Husson deixou que se escoassem alguns segundos, para nada perder do preo que representava essa chamada  ordem. E falou, em seguida:
   - Gostaria de ficar a ss com Madame... Rigorosamente a ss...
   - Est bem... Mas que  que voc tem, Belle-de-Jour? - exclamou Madame Anais - Vamos, conduza o cavalheiro ao seu quarto.
   - L no, l no...
   - Mas, eu lhe peo, no modifique em coisa alguma os seus hbitos por minha causa... - disse Husson.
   Quando a porta se fechou sobre eles, uma revolta histrica agitou Sverine:
   - Como pde fazer isso? Como foi que ousou? - gritou ela. - E no me diga que foi por acaso! O senhor sabia que eu vinha aqui... Foi o senhor mesmo quem me deu 
o endereo. Por qu? Mas por qu?
   No lhe deu tempo para responder, pois uma suposio acabara de lhe atravessar o esprito.
   - O senhor no vai pretender obter-me por esse meio - prosseguiu, com a mesma rapidez. - Chamarei a ateno dos transeuntes, gritarei por socorro, me atirarei 
pela janela!... No se aproxime. O senhor me repugna como nenhum outro ser humano jamais me repugnou!
   -  a sua cama? - perguntou suavemente Husson.
   - Ah! Era isso o que procurava! Sim, este  o meu quarto e, naturalmente, esta  a minha cama. Que quer saber mais? O que fao e a maneira como o fao? Quer fotografias? 
O senhor  o pior de todos esses que j vi aqui.
   Deteve-se, por ter percebido que ele a ouvia com particular e ostensivo deleite.
   Husson esperou um pouco e, ento, vendo que Sverine decidira calar-se, tomou-lhe a mo e acariciou-a com a ponta de seus dedos ligeiros e friorentos. Uma grande 
fadiga, mesclada de reconhecimento, de tristeza e de piedade, transpareceu-lhe no rosto.
   - Tudo o que me disse  justo - observou, a meia voz. - Mas quem me poderia justificar melhor do que a senhora?
   Sverine sentiu-se derrotada por essa resposta. Deixou-se abater sobre a cama. Seu aspecto de criatura desvairada... a colcha vermelha... tudo isso reacendeu 
em Husson um prazer que supunha inteiramente esgotado. Ele o fruiu silenciosamente. E, depois, uma fadiga, uma tristeza e uma piedade ainda mais profundas o mantiveram 
curvado.
   Por um instante, Sverine e ele se contemplaram como dois pobres animais atingidos por um mal incurvel, que no compreendiam.
   Husson levantou-se. Evitava fazer o menor rudo, como se tivesse receio de despertar as potncias impuras que os haviam reunido naquele lugar. Mas Sverine no 
tinha obtido a nica segurana, a garantia que poderia devolver-lhe a vida.
   - Um instante! Um instante ainda... - suplicou.
   Seu apelo apaixonado enrugou outra vez as plpebras flexveis de Husson. Absorvida inteiramente por sua angstia, ela no o notou. Sempre sobre o leito, a saia 
um pouco levantada pelo movimento do corpo, as mos crispadas sobre a colcha vermelha, murmurou:
   - Diga-me... pelo amor de Deus... Pierre... ele no saber de nada?
   Mesmo nos seus piores momentos de depravao, Husson no poderia admitir a idia de semelhante denncia. Tampouco a admitiu nesse instante fatdico. Mas como 
poderia desprezar a ocasio de fruir essa longa volpia, que a prpria Sverine lhe oferecia? Para que ela continuasse com a fisionomia dilacerada, fez um gesto 
evasivo.
   To logo se apanhou l fora, no entanto, sentiu-se incapaz de manter por mais um instante a atitude que assumira, por no querer perder o mais imprevisto e o 
mais envenenado dos frutos que nesse dia colhera.
   Sverine ouviu bater a pesada porta que dava para a escada. Vestiu-se, correu para Madame Anais, segurou-lhe os punhos e murmurou, como uma louca:
   - Eu me vou, eu me vou. A senhora me esquecer... Se algum vier pedir-lhe informaes, a senhora lhes dir que no sabe quem sou. Se me forarem a vir aqui, 
a senhora no me reconhecer. Cada ms, a senhora receber mil francos. Quer mais? No? Obrigada, Madame Anais... Se a senhora soubesse...
   
  
  
  9
   
   
   
   As horas que, durante essa noite, Sverine passou  espera de Pierre mal podem ser descritas. Era com uma impacincia e um terror iguais que ela o aguardava. 
J o saberia? Husson conhecia, talvez, o endereo de sua clnica e, saindo da casa de Madame Anais... Sverine lembrou-se, de repente, de que Husson e Pierre faziam 
parte do mesmo crculo esportivo. Pierre,  claro, ia l muito mais raramente. Mas bem podia ser que se tivessem encontrado nesse dia.
   O medo, levado ao paroxismo, tem algo de comum com o cime, em que as coisas menos provveis se transformam em certeza, agravando os sofrimentos. As hipteses 
sucessivamente suscitadas por Sverine se transformavam quase imediatamente em fatos. No mais duvidava do desastre. Esse medo intenso, perfeito, inteligente, teve 
como conseqncia instantes de verdadeiro martrio, impondo a Sverine, como verdade imamente, a convico de que Husson falaria. Que princpio ou que escrpulo 
de ordem moral poderia det-lo? No tinha ela prpria verificado quanto eram vos esses freios? No empregara ele para com ela todos os baixos recursos, tratando-a 
como se Sverine fosse sua igual em perversidade? Certamente, falaria. Quando? Isso dependia apenas dele prprio, do demnio que morava em seu interior...
   Msera criatura de olhos secos, inflamados, ningum, a no ser ela mesma, poderia medir com que encarniamento e com que impotncia pensava em sua luxria implacvel. 
No sentia remorsos, nem mesmo arrependimento. A cada um de seus passos vacilantes, sentira-se empurrada por mos nada humanas, e sua carne dolorida a levara, de 
concesso em concesso, a profundezas cada vez maiores. Esse caminho abrasado e lamacento, ela o teria refeito em todas as etapas, se a sorte lhe permitisse recomear 
a vida dilacerada. Sentia-o, sabia-o. E assim lhe era roubada, na sua ltima angstia, at mesmo a lancinante doura do arrependimento, inclusive a derivao de 
odiar Husson. Este seguiria a seu lado o caminho aberto para ele por divindades perturbadoras e mortais.
   Um castigo esmagador iria atingi-la por um erro que, sem dvida, cometera, mas  maneira de quem desliza e cai quando uma vertigem abala a cabea enfraquecida. 
A percepo dessa injustia fazia com que o terror de Sverine no tivesse como causa apenas o que se iria passar entre ela e Pierre; mas ainda a percepo de um 
tenebroso universo que empregara contra ela larvas e gnomos, gigantes e filtros. E, de quando em quando, gemia fracamente, igual a uma criana perdida.
   O instinto de defender seu amor at em pleno absurdo (tal era a sua convico) manifestava-se com tanta fora em Sverine que, adivinhando a aproximao de Pierre, 
ela teve foras para reanimar, pelos mais apurados artifcios, a fisionomia desfeita. Mas no poderia ir-lhe ao encontro. Todos os movimentos que ouvia Pierre fazer 
repercutiam em choques surdos no seu peito. Os passos dele eram calmos... Tirara o chapu, parar diante do espelho do vestbulo... como sempre. Mas talvez fosse 
para conter sentimentos muito selvagens ou muito dilacerantes. Respirao suspensa, Sverine fixava a porta, por onde ele entraria. Ela no tardaria a saber... Cada 
segundo lhe trazia uma convico mais funesta. Por que Husson haveria de esperar? Ela conhecia perfeitamente bem a fora dos impulsos que ningum controla... E teve 
a impresso de que enormes insetos se agitavam em suas tmporas. Mas agora paravam, subitamente, de se mexer. A maaneta da porta comeava a girar...
   Se Sverine no tivesse compreendido o carter provisrio da maravilhosa libertao que experimentou naquele instante, teria abenoado os prprios tormentos que 
tanto a haviam afligido. Assim como um jato de gua comprimida subitamente ganha impulso, a vida refluiu em todo o corpo de Sverine. Pierre lhe sorria... Pierre 
a beijava. At o dia seguinte, Sverine nada tinha a temer. A onda de felicidade que umedeceu os seus olhos restituiu-lhe a pureza e a delicadeza das lgrimas.
   Passaram a noite juntos. Quando Pierre adormeceu, ela se levantou cautelosamente. No queria dormir. Um condenado  morte no povoa os seus ltimos instantes 
com a lembrana daqueles a quem ama? Sverine ouvia Pierre ressonar.
   - Ele  meu, ainda  meu - dizia. - Mas vai-se embora...
   Esse belo corpo, esse rosto atraente, esse corao to cheio dela, tudo isso estaria, em breve, devastado. Sverine, curvada sobre os cabelos de Pierre, murmurou, 
quase inconscientemente:
   - Meu querido, meu garotinho, no vs sofrer demais quando souberes... Por qu? Por qu?  que eu te amo agora com um amor ainda maior. E, sem tudo isso, eu no 
teria sabido. Agora, no vs sofrer demais.  que eu no podia evitar, eu no podia...
   Abateu-se sobre o travesseiro. E chorou. E chorou por ele, chorou por ela, chorou pela condio humana que divide a carne e a alma em duas pores inconciliveis, 
misria que cada uma guarda em si e no perdoa  outra.
   Recordou, em seguida, toda a vida em comum dos dois, lembrando-se at de nfimas particularidades que supunha esquecidas para sempre, mas agora lhe voltavam, 
ntidas e frescas,  memria. A cada uma delas, roava de leve as espduas, a cabea de Pierre, e repetia, como um exorcismo:
   - No vs sofrer... demais. Podes fazer de mim o que quiseres, mas no vs sofrer tanto assim...
   No meio de suas lembranas, de suas angstias e de suas preces, viu raiar o dia. Por uma vez, no dia de sua primeira visita  casa de Madame Anais, Sverine acreditara 
que a indecisa luz do amanhecer trazia o fim de suas esperanas. Teve piedade de si mesma, de seus terrores infantis. Que ingenuidade ter ento acreditado que, sem 
indcios, pudesse ser descoberta. Tudo dependia dela! Ao passo que agora... Uma outra pessoa, com uma s palavra, poderia corromper e enlamear a mais terna vida. 
E essa palavra seria proferida. Husson no resistiria ao prazer que fazia estremecer suas plpebras.
   Ela parou de pensar. Pierre se levantava. Como aquela noite tinha sido curta!
   Sverine fez o possvel para retardar a partida do marido para o hospital Htel-Dieu. A rua lhe parecia juncada de mil perigos. Via Husson ou qualquer outro mensageiro 
do destino de atalaia em cada cruzamento. Contudo, era preciso deixar que Pierre se fosse.
   - Almoars em casa, no  mesmo? - perguntou, no momento em que ele a deixava. - Nada te pode impedir de vir?... Tu me prometes?
   E a manh comeou a escoar-se, gota a gota, segundo por segundo, martelando o corao de Sverine. Cada uma dessas minsculas fraes de tempo poderia levar tudo 
ao conhecimento de Pierre. E ainda iriam ficar separados durante tantas horas... Husson... Pierre... Pierre... Husson... Ela como que contemplava incessantemente 
as imagens dos dois homens, e a daquele a quem amava empalidecia em face da outra, ampliada e vitrificada. O trabalho de seu esprito assemelhava-se ao da ponta 
de uma verruma ou de uma pua que, perfurando a matria cerebral, conduzia  demncia. Sverine compreendeu que no poderia suportar por muito tempo to brutal assalto. 
Era preciso que Pierre no a deixasse mais. Ir com ele, aonde quer que ele fosse? Ele recusaria. J havia Sverine esgotado a melhor de suas armas. Mas seria mesmo 
a melhor? E se, ao voltar, ele encontrasse Husson no seu caminho?...
   Quando o relgio bateu o meio-dia, uma angstia ainda pior que a da vspera desencadeou os pensamentos de Sverine. O tempo se escoava, implacvel, roendo incessantemente 
o prazo da trgua que lhe fora dada. O perigo se condensava e crescia como uma tempestade. E cada hora conduzia quela que Husson escolheria. A conscincia disso 
embaralhava os objetos diante dos olhos de Sverine. Ela sentia que a prpria presena de Pierre no conseguiria mais desatar o n que a estrangulava.
   Contudo, ainda lutava contra o adversrio iminente e invisvel.
   - Sinto-me triste - disse ao marido, quando se sentiu segura (e depois de que transes!) de que ele ainda ignorava tudo. - Queres prevenir  tua clnica que no 
me podes deixar sozinha?
   Tinha o magoado encanto de uma criana muito enferma. E ele no soube como recusar.
   Muitas vezes, no curso da tarde, Pierre se impressionava com os olhares intensos e vidos em que Sverine o envolvia. Era o sentimento da msera precariedade 
de seu repouso que lhe transmitia tanto fogo. E que repouso! Cada vez que soava a campainha do telefone, o corao da infeliz mulher como que parava. Por fim, no 
podia mais conter-se e ia, ela mesma, atender.
   - Isso me distrai - dizia, timidamente.
   Depois, chegou a hora do correio. Enquanto Pierre, antes de abrir as cartas, examinava os envelopes, Sverine sentia-se desfalecer.
   - Nada de novo? - teve ainda a coragem de perguntar, ao fim de alguns minutos, em que fez um grande esforo para tranqilizar a fisionomia e firmar a voz.
   - No - respondeu ele, sem saber de que fardo insuportvel a libertava.
   Nessa noite ainda, dormiram em leito comum, porque, mesmo em seu prprio apartamento, Sverine sentia o perigo embosc-la e no se apaziguava seno pelo contato 
do homem que iria perder. No podia dormir, vigiando a respirao de Pierre, que nem mais ouvia, to feliz e tranqilo era o seu sono.
   Ao raiar o novo dia, mais prximo do dia da descoberta, sentiu que no poderia mais reter Pierre. A menos que ela mesma... Por um instante, esteve quase decidida 
a dizer-lhe tudo... No seria melhor que ele viesse a saber assim? Mas, depressa, convenceu-se de que no teria foras para tanto. Agora, l se iria Pierre atravs 
da cidade, a lugares onde o outro certamente estava  sua procura. E, ento... Sverine virou-se de borco, na cama.
   Seu aturdimento foi de curta durao. A fora do prprio terror que a abalou f-la voltar a si. Como tivesse ainda algumas horas que poderia utilizar como entendesse, 
aproveitou-as para refletir, para debater consigo mesma a sua situao. Procuraria Husson e ento lhe suplicaria... No... Ao contrrio... Esse seria o pior dos 
erros... Ele gozaria o seu terror, do mesmo modo que havia feito quando, no seu leito de prostituda, ela mendigara-lhe o silncio... No... Ao contrrio... Era 
preciso induzi-lo a crer que ela nada temia. Talvez ento... E Sverine - tanto um desespero total  impossvel de suportar - agarrava-se a essa ltima esperana.
   
   
   Nessa mesma manh, Husson telefonou para a casa dos Srizy. Sabia que Pierre estava no hospital. Sverine atendeu. Era somente a curiosidade que o impelia. Continuaria 
ela a crer que ele fosse capaz de uma infmia, tal como dera a entender na casa de Madame Anais?
   - Se ela se confiar  minha discrio - pensava Husson -, confirmarei a sua confiana. Se no, eu a tranqilizarei.
   Mas a atitude de Sverine absolutamente no correspondeu ao que ele esperara. Certa de que Husson desejava falar com Pierre e fiel ao mtodo de luta que concebera, 
respondeu com secura:
   - Meu marido no est.
   E bateu com o telefone no gancho.
   Essa manobra desesperada, Husson a tomou como uma demonstrao a mais de seu orgulho. Um orgulho que uma nica humilhao no bastara para abater.
   - Ela vir implorar-me - pensava ele.
   Uma hora depois desse telefonema, a criada de quarto veio avisar a Sverine que um jovem desejava v-la.
   - No me disse o nome - declarou. - Mas tem um jeito engraado, com os seus dentes de ouro.
   Noutras circunstncias, a apario de Marcel em sua casa teria aniquilado Sverine. Mas, no estado em que se encontrava, mal se sentiu surpreendida. Husson, apenas 
Husson, ocupava-lhe o pensamento. E essa idia fixa a tornava de todo indiferente aos demais acontecimentos. Marcel... Hiplito... Eles tinham reaes naturais, 
fceis de prever, de prevenir ou de satisfazer, se fosse esse o caso. Mas o outro, emaciado, friorento, exigindo para a sua volpia no apenas a servido do corpo, 
mas ainda a submisso das almas...
   - Bom dia, Marcel - disse Sverine, com uma doura estranha.
   Esse acolhimento deteve as palavras violentas que ele preparara. O abandono, a tristeza de Sverine levavam ao paroxismo o constrangimento que o ambiente daquele 
salo lhe inspirava. Ele a olhava, dividindo-se entre uma clera que se dissipava e uma admirao que crescia. At que, enfim, conseguia situar essa jovem mulher 
em seu meio, um meio condizente com as suas atitudes, as suas maneiras, a sua linguagem, que sempre lhe haviam inspirado um sentimento confuso e um profundo complexo 
de inferioridade.
   - E ento, Marcel? - perguntou Sverine, com a mesma doura distante.
   - No te espantas por me veres aqui? Nem queres saber como te encontrei?
   Ela fez, para atalh-lo, um gesto to desdenhoso que ele sentiu-se mal. Amava-a ainda, muito mais do que supunha, pois j no pensava em si mesmo.
   - Que  que se passa contigo, Belle-de-Jour? - perguntou, enquanto um movimento de seu corpo esbelto e perigoso o impelia para ela.
   Sverine voltou-se atemorizada para a porta e pediu-lhe:
   - No me chame por esse nome. Por favor.
   - Farei como quiseres. No vim aqui para causar-te aborrecimentos...
   J se esquecera inteiramente da chantagem a que se tinha decidido.
   - Mas, enfim, gostaria de saber por que desapareceste e como poderia voltar a te ver... Sim, porque preciso - e sua fisionomia assumiu uma expresso de vontade 
inevitvel -, porque preciso te ver.
   Sverine balanou a cabea, com certo espanto, mas de forma afetuosa. No conseguia conceber que algum pudesse pensar em dias futuros.
   - Mas tudo isso acabou - disse. - Sim, acabou.
   - O qu?... Tudo?
   - Sim. Tudo... Explicarei.
   E curvou as espduas com um ar to desvairado que Marcel sentiu medo. Desde o incio da conversa, ela parecia estar fora de si.
   Marcel apertou fortemente os dedos de Sverine, para fazer com que ela voltasse da funesta regio dos sonhos para a da realidade.
   - Fale claro - exigiu.
   - Aconteceu uma coisa terrvel, Marcel. Meu marido agora vai saber de tudo.
   - Ah,  verdade, s casada - disse lentamente o jovem, sem que fosse possvel discernir se havia cime ou respeito em sua voz. -  aquele?
   E mostrou uma fotografia, sobre a mesa. Era o retrato de Pierre que Sverine preferia. Aquele em que seus olhos apareciam com toda a sua franqueza e em toda a 
sua juventude. Sverine h longo tempo no o olhava com aquela ateno, que superava o tom neutro do hbito. A pergunta de Marcel tornara essa imagem viva e sensvel. 
Um estremecimento a sacudiu, e ela gemeu:
   -  impossvel, eu lhe digo,  impossvel que nos separem.
   E, depois, febrilmente:
   - V-se embora, v-se embora, depois ele vai voltar. E no quero que saiba de tudo to cedo assim.
   - Mas escuta: posso ajudar-te...
   - No, no. Ningum pode.
   E o empurrou para a porta com tal frenesi que ele no conseguiu resistir. Limitou-se apenas a dizer:
   - Espero notcias tuas. Hotel Fromentin, na Rua Fromentin. Basta mencionares o meu nome: Marcel.  o bastante. Se no, podes ficar certa de que, dentro de dois 
dias, voltarei...
   Antes de partir, fez com que ela repetisse o endereo.
   
   
   Ainda um dia. E uma noite.
   Sverine alimentava-se, ouvia, respondia o que lhe era perguntado, por efeito de um automatismo de cuja mecnica no se apercebia. O turbilho em que tombara 
a princpio tinha um dimetro superficialmente estreito. Mas esse dimetro fora-se alargando cada vez mais. Agora, sentia-o imenso, espiralante, mas aterrador e 
fechado. E sempre, a seu lado, flutuavam mscaras de papelo, com as fisionomias de Husson e de Pierre.
   Ao cabo da terceira noite de insnia, Sverine tinha chegado a tal estado de exausto nervosa que at mesmo desejou, por instantes fugitivos, que tudo fosse, 
de uma vez por todas, esclarecido. Contudo, quando Pierre, de manh, ainda no leito, abrindo a correspondncia do dia, exclamou:
   -  curioso: ele me escreve depois de seis meses de silncio!
   Sverine formulou uma splica, com todo o seu ser, para que a carta no fosse de Husson.
   Mas a carta era precisamente dele. E Pierre comeou a l-la, a meia-voz:
   
    Caro Amigo.
    Desejo muito falar-lhe. Sei que continua, como sempre, muito ocupado. No quero desvi-lo de sua rota habitual e, como estarei nas imediaes, espero-o amanh, 
na Praa da Notre-Dame, ao meio-dia e trinta. , se no me engano, a hora em que costuma sair do hospital. Minhas homenagens a Madame Srizy...
   
   - A carta  de ontem - disse ele. - Portanto, o encontro que marca  para hoje.
   - Tu no irs, no irs! - quase gritou Sverine, colando o corpo ao de Pierre, como se quisesse lig-lo ao dele.
   - No posso fazer isso, querida. Sei que no gostas dele, mas no  uma forte razo para que eu no v.
   Ela reconheceu, aniquilada, que a vontade de Pierre no cedia inteiramente aos seus desejos e que ele pretendia manter livres e leais as suas relaes com os 
homens a que estimava. E Sverine deixou-se ir funebremente  deriva.
   Essa resignao s durou enquanto Pierre permaneceu no apartamento. Quando Sverine sentiu em torno dela um silncio semelhante ao da morte, quando viu e ouviu 
- sim, porque realmente viu e ouviu - Husson fazendo o seu relato, comeou a correr pelo quarto, com interjeies e gestos de louca.
   - No quero mais... Eu irei... De joelhos... Ele dir... Pierre... Socorro!... Ele dir: Anais... Charlotte... Marcel...
   Repetiu, enquanto que uma volta  razo transparecia em seus olhos:
   - Marcel... Marcel... Rua... Rua Fromentin.
   
   
   Ele ainda dormia, quando Sverine entrou no pequeno quarto suspeito de Montmartre. O primeiro gesto de Marcel foi o de atrair Sverine para o leito. Ela no se 
apercebeu disso e ordenou-lhe, imperiosa como o destino:
   - Veste-te.
   Marcel quis exigir uma explicao. Ela o interrompeu:
   - Eu te direi tudo. Mas veste-te, depressa. Quando ele ficou pronto, perguntou-lhe:
   - Que horas so?
   - Onze.
   - At meio-dia e trinta teremos tempo?
   - Tempo de fazer o qu?
   - De ir  Praa da Notre-Dame.
   Marcel molhou uma toalha, passou-a no rosto e ias tmporas de Sverine e encheu um copo de gua.
   - Bebe - disse. - No sei o que tens, mas no mais durar muito tempo, se continuares assim. Ests-te sentindo melhor?
   - Achas que teremos tempo? - tornou ela a per-;untar, com impacincia, pois no podia ligar duas dias, to embotada e surda se achava para qualquer outra coisa 
que no fosse o fim que perseguia.
   Essa espcie de hipnose era contagiosa. Marcel no se sentiu tentado a discuti-la. E at onde no teria seguido cegamente Sverine, quando ela, desesperada de 
encontrar meios que no fossem indignos, vinha a ;ua casa e se colocava sob sua proteo? Sim, porque no se podia tratar seno disso. Adivinhava-o, com a ;ua intuio 
de rufio. Alm disso, tudo conspirava para que obedecesse a Sverine: seu amor, sua natural violncia, a lei selvagem de seu meio, que prescreve aos homens que 
vivem  custa de mulheres a obrigao de retribuir-lhes com a assistncia de sua audcia e de seu sangue.
   - Temos ainda, uma hora para ir at l - falou Marcel. -  mais do que suficiente. Que terei de fazer?
   - Quando chegarmos l, veremos...
   Ele compreendeu que ela no se acalmaria um pouco seno depois que chegasse ao lugar para o qual todo o seu ser se voltava.
   - Passa  frente - mandou.
   Enfiou a mo embaixo do travesseiro, tirou alguma coisa que guardou no bolso c foi juntar-se a Sverine no corredor. Ela no notou que Marcel, desdenhando os 
txis estacionados na Praa Pigalle, dirigiu-se  pequena garagem de uma rua adjacente. Somente a, ouvindo-o discutir em voz baixa com o homem de macaco lambuzado 
de graxa, protestou. Mas Marcel respondeu-lhe brutalmente:
   - Deixa que eu trate do assunto. No vais querer me ensinar!
   E, depois, dirigindo-se ao homem de macaco:
   - Eu te espero, Albert.  um servio de amigo.
   Alguns minutos depois, entravam no velho carro Ford. Albert, j de palet, mas sem colarinho, estava ao volante. Ele os desembarcou no jardim ao lado da Ilha 
de Saint-Louis, tal como pedira Sverine, que sabia que Pierre viria pelo adro da Notre-Dame.
   - Vais esperar o tempo que for necessrio - disse Marcel, descendo do velho carro.
   Albert resmungou:
   - S mesmo por voc c Hiplito eu me arriscaria a meter-me num golpe desses.
   Sverine e Marcel penetraram na praa.
   - Vai contando logo - ordenou ele.
   Sverine olhou para o relgio. No era ainda meio-dia. Tinha tempo para falar.
   - H um homem que me veio procurar, no ltimo dia em que fui  casa de Madame Anais.  um amigo do meu marido. Ao meio-dia e trinta, vai contar-lhe tudo.
   - Por que quis ficar contigo e no quiseste?
   - Foi exatamente isso.
   - O porcalho! - grunhiu Marcel. E, com uma voz forada, fria:
   - No queres que ele fale. Compreendo. Se me tivesses dito isso mais cedo, teria sido bem mais cmodo.
   - No soube seno esta manh.
   Marcel sentiu-se emocionado ao pensar que, sem hesitao, ela havia recorrido a ele.
   - Fica tranqila. Eu arranjarei isso - afirmou. Levou-a para um banco colocado por trs de um grupo de rvores que dissimulavam inteiramente o adro da Notre-Dame. 
Acendeu um cigarro, e os dois permaneceram em silncio.
   - E depois? - perguntou Marcel. - Sim, e depois? Se tudo se passar como queres, ficars sendo s minha? No estou falando de teu marido, naturalmente.
   Ela inclinou resolutamente a cabea. Quem, naquele transe, a teria socorrido com maior deciso?
   Marcel fumava, sem dizer mais uma palavra. De tempos em tempos, media o espao que dava para o adro e o que o separava do carro, de que ouvia o motor trabalhando 
lentamente. Jamais ela sentira, com tanta resignao, que no pertencia a si mesma.
   - Meio-dia e vinte e cinco - disse Marcel, levantando-se. - Agora trata de v-lo bem e de mostr-lo depressa.
   Sverine voltou-se e comeou a tremer. A uma centena de passos da alameda por onde devia vir Pierre, estava parado Husson. A Marcel no passou despercebido esse 
tremor.
   - Ele est ali? - perguntou. - Mostra! Sverine no ousava mais. Na fronte de Marcel, reconhecera outra vez o signo que ele revelara nas Halles.
   - Fala, que diabo! - ordenou ele, num murmrio furioso.
   - No, no, vamo-nos embora! - balbuciou Sverine.
   Mas no se mexeu do lugar onde estava. Pierre, surgindo da sombra da catedral, penetrava no jardim. Husson dirigia-se a ele.
   -  aquele ali, o magro, que est indo ao encontro de meu marido - sussurrou Sverine.
   E, com um acento selvagem, de caador que estuma um co:
   - Vai, Marcel!
   Ele se curvou ligeiramente. Sua nuca tensa tinha tal expresso que Sverine, esgazeada, fugiu. Instintivamente, tomou a direo oposta  de seu protetor. E assim, 
sem ter querido, transps o porto por onde viera com Marcel. Albert e o seu carro estavam l.
   - Sobe - disse ele, com uma espcie de raiva. Ficaram  escuta. Gritos vagos chegaram at. eles.
   Os dois viram pessoas que se precipitavam para o mesmo ponto. Albert esperou ainda.
   O rumor se tornou mais denso. Um sargento da polcia passou correndo. Albert pisou a toda no acelerador.
   
   
   Husson, quando escrevera sua carta a Pierre, ficara certo de que ela causaria espanto a Sverine e esta procuraria falar-lhe. No duvidava de que a jovem mulher 
lhe telefonaria to depressa quanto possvel ou iria, mesmo, procur-lo, em pessoa. Preparava-se para gozar a derrota daquele orgulho obstinado, para depois abandonar 
um jogo pelo qual comeava a sentir ao mesmo tempo fadiga e vergonha.
   Mas a manh, contra a sua expectativa, se escoara sem que recebesse qualquer notcia de Sverine. Ento, telefonou-lhe. E verificou que ela havia sado. Uma hesitao 
o assaltou: devia ir realmente  Praa da Notre-Dame?  claro que tivera o cuidado de preparar um motivo plausvel para o encontro com Pierre. O silncio de Sverine 
lhe inspirava a apreenso de um perigo indefinvel. Mas essa prpria razo o decidiu.
   Como muitas outras naturezas bastante nobres, que so, no entanto, rodas por uma tara secreta, Husson procurava redimir-se dessa falha pelo intenso exerccio 
das qualidades positivas que podia ter. E, uma vez que esse encontro o inquietava, era necessrio que comparecesse, pondo  prova o seu destemor.
   Tais tergiversaes fizeram, no entanto, com que chegasse ao jardim apenas alguns minutos antes da hora fixada. Apenas chegara  pequena alameda de onde se avista 
o brao esquerdo do Sena, percebera Pierre e marchara para ele.
   Foi ento que Marcel se atirou para a frente.
   Mesmo que sua resoluo no estivesse bem assentada, bastaria o grito de Sverine, carnal, mortfero, veemente, para dar-lhe o impulso que faz matar. Esse grito 
fortificou o instinto de combate, o calor do sangue de Marcel, que Hiplito tanto temia. E, como a sorte o ajudara em vrios negcios difceis, nada poderia faz-lo 
recuar.
   Correu com a mo crispada no cabo do punhal de lamina desdobrvel - espcie de enorme canivete de molas - que abrira dentro do bolso. Lcido, calculava: "Ele 
cai, eu salto sobre um canteiro e, antes que pensem em mim, Albert j estar chispando." Tinha confiana na sua fora, na sua agilidade e na cincia de seu chofer. 
Mas havia feito esses clculos sem levar em conta a interveno de Pierre e a inquietao daquele que devia ser a vtima.
   Vendo aquele homem precipitar-se contra Husson, Pierre, que ia ao seu encontro, fez-lhe um imperioso sinal de advertncia. Com um movimento que no poderia ser 
to rpido, se o seu instinto no se mantivesse alerta e preparado, Husson se voltou e desviou-se. Um claro cintilante passou diante de seus olhos. Marcel, com 
uma agilidade felina, recuperou o equilbrio e levantou de novo a lmina. Mas Pierre se atirara para a frente. E viu contra a sua uma fisionomia contrada, um ricto 
de metal. Foi ele quem recebeu o golpe, que o atingiu  altura da tmpora.
   Marcel pde ainda escapar-se. Mas compreendera que acabara de ferir o marido de Sverine. Sua perplexidade no durou mais que um segundo, mas bastou para perd-lo. 
Enquanto Pierre vacilava, Husson agarrava o punho que detinha a arma nua. Marcel tentou obrig-lo a soltar-lhe o punho, mas aquele corpo descarnado tinha uma fora 
fora do comum. Alm disso, os transeuntes acorriam, e logo se ouviam os apitos dos agentes da polcia. Marcel se abandonou. A seus ps, jazia um corpo imvel.
   
  
  
  10
   
   
   Depois de dar uma poro de voltas c passar por um sem-nmero de estaes de metr, Albert parou perto da Praa da Bastilha.
   - Agora, voc que se arranje - disse a Sverine. Ela no compreendeu.
   - Desa logo! - mandou Albert, com uma voz ameaadora. - E trate de no se fazer notar.
   Sverine obedeceu passivamente. Quando ele ia pr o carro de novo em movimento, perguntou:
   - E Marcel?
   Ele a encarou com clera. Mas a boa-f da jovem mulher era to evidente que Albert se limitou a resmungar:
   - Leia os jornais da tarde. E dizer-se que fez isso por uma boba dessas!
   O carro Ford desapareceu rapidamente.
   Dois transeuntes, que se voltaram para sorrir quela mulher que falava sozinha, tiraram Sverine do torpor em que se encontrava. Sua vida sensvel tinha sido 
paralisada no momento em que vira Marcel dar o salto sara a frente. Os solavancos do velho carro e aquela corrida sem objetivo tinham acabado de entorpec-la.
   Tivera a impresso de que rodava indefinidamente daquele automvel duvidoso, ao lado daquele homem taciturno, crispado ao volante. E eis que, agora, devia retomar 
a marcha, que a levava no sabia aonde. Atirando Marcel para a frente, acreditara que havia erguido um muro, cavado um abismo intransponvel entre ela ; o seu futuro.
   Sverine sentia que nenhuma criatura viva podia desligar-se da cadeia fatal dos acontecimentos. Penosamente, s apalpadelas, num tormento espesso como o caos 
do seu esprito, procurava religar o que tinha vivido com o que ainda teria de viver.
   Marcel matara Husson, disso estava certa. Mas essa certeza no despertava nela a menor emoo. Os homens, os gestos deles e os seus prprios gestos eram signos 
abstratos que deveria decifrar num sentido provisrio. Sim, Marcel matara Husson. Husson ia contar a Pierre o que este no poderia nem deveria saber. Da, todos 
os seus terrores. Agora, Husson no falaria mais. Ela, portanto, no tinha mais nada a temer. Poderia agora rever Pierre. E devia mesmo. Era hora de almoo.
   Uma vez em casa, Sverine no teve foras sequer para se espantar de que Pierre no tivesse ainda chegado. Estendendo-se no leito, no tardou a dormir. O toque 
de campainha que, cerca das duas horas, retiniu fortemente no apartamento silencioso, no conseguiu despert-la. Ela tampouco ouviu a criada de quarto bater e entrar.
   - Madame, madame - chamou a criada, elevando cada vez mais a voz, at que Sverine abriu os olhos.
   - Est aqui um doutor, que traz notcias muito graves do patro...
   Esse breve repouso no tardou a restituir a Sverine a sua angstia. O primeiro pensamento que ento lhe ocorreu foi o de que Husson, embora ferido de morte, 
ainda tivera tempo de falar e, por isso, Pierre no desejava mais retornar a casa.
   - No quero ver ningum - disse.
   - Mas  preciso, madame - insistiu a criada, com a voz to tensa que Sverine se dirigiu, s pressas, ao salo.
   O interno do Htel-Dieu estava muito plido.
   - Madame, aconteceu um acidente - anunciou.
   - Um acidente que ningum compreende.
   Interrompeu-se, procurando as palavras adequadas, que, no entanto, no lhe ocorriam. A rigidez de Sverine lhe causava medo.
   - Mas a senhora se tranqilize, pois o seu estado no  desesperador - prosseguiu, rapidamente. - Bem, o Dr. Srizy... recebeu um golpe de faca na tmpora...
   - Quem?
   Sverine avanou para o interno com tal impulso que ele mal ousou repetir:
   - O Dr. Srizy.
   - Meu marido? Pierre? O senhor deve estar enganado!
   - Trabalho h mais de um ano com ele, madame
   - disse tristemente o interno. - E muito o estimo, como, alis, todos os demais, l no hospital... Sim,  verdade. Ele recebeu esse golpe de um indivduo que 
logo foi preso. Imediatamente, transportaram seu marido para a seo de socorros urgentes do nosso hospital. Est ainda inconsciente, mas o seu corao vai muito 
bem... Enfim, ele tem todas as chances de se recuperar. O nosso diretor, Professor Henri, j foi avisado e j deve estar l. Eu a acompanharei, madame...
   Mesmo diante do Htel-Dieu, Sverine ainda no podia admitir que Pierre, nesse mesmo hospital onde cuidara de tantos enfermos, no passasse de mais um corpo inerme 
entregue aos cuidados daqueles homens de blusas brancas. Reconheceu a varanda na qual esperara Pierre no dia em que fora pela primeira vez  Rua Virne, e essa lembrana 
a confirmou na sua incredulidade. Para fechar de novo esse crculo encantado de maneira mais estrita, s lhe faltavam os sonhos maus de outrora.
   Mas, quando viu o Professor Henri, a nvoa que a envolvia protetoramente se dissipou. Jantara vrias vezes em casa dele com Pierre e se lembrava da alegria com 
que o marido, falando com o velho professor, timbrava em cham-lo meu chefe, misturando nessa expresso o seu afeto e a sua deferncia. A expresso lhe voltou com 
a mesma entonao com que Pierre a proferia. E ela quase desmaiou, porque, se o professor estava l, se vinha realmente ao encontro dela...
   Sverine nem teve tempo de continuar a refletir, pois j o cirurgio lhe tomara as mos.
   Era um pequeno homem nervoso, que tinha conservado uma extraordinria juventude. Isso lhe dava grande segurana e extremo desdm pelos formalismos.
   - Minha pequena, no se preocupe - disse ele. - Respondo pela vida do nosso Pierre. Quanto ao resto, eu me pronunciarei amanh.
   - Posso v-lo?
   - Naturalmente. Ele ainda est em coma.  provvel que amanh saia desse estado.
   O interno conduziu Sverine para junto de Pierre. Ela entrou com passo firme. Mas, ainda que sua imaginao parecesse ter aceitado tudo nos minutos precedentes, 
no pde avanar alm do meio do quarto. No era a fronte coberta de ataduras nem a cor de cera do rosto do marido que a impediam de prosseguir, mas a imobilidade 
dos membros e da fisionomia, uma imobilidade que nem era a do sono, nem a da morte, porm que, mole e impotente, fazia deslizar por todo o corpo de Sverine um inominvel 
frmito em que se mesclavam no somente a piedade e o terror, mas um dilacerante sentimento de remorso e, ainda, embora ela jamais o confessasse, de profunda repulsa.
   Era realmente a fisionomia to mvel, to gil, to expressiva e firme, de seu marido, essa massa inerte e flcida, com a boca desfeita e as plpebras, no baixadas, 
mas cadas? Um relaxamento quase irritante se estendera sobre aquela carne que, ainda nessa manh, tinha toda a irradiao da mocidade.
   Sverine no podia adivinhar o que ameaava Pierre, mas, sob aqueles traos, que lhe inquietavam o instinto de animal sadio, descobria que o castigo para o qual 
ela armara um brao amoroso e selvagem tomava a forma mais cruel de quantas poderia ter temido.
   - No posso mais - murmurou. - Tenho necessidade de sair.
   Diante da porta, um homem que a esperava lhe disse:
   - Desculpe-me por interrog-la num momento to difcil, mas fui encarregado de fazer o inqurito. Seu marido no est em condies de falar, mas talvez a senhora 
possa esclarecer alguma coisa.
   Sverine apoiou-se de encontro  parede. Um pensamento que ainda no lhe ocorrera veio perturb-la. Era cmplice de Marcel, e tinham acabado de prend-lo.
   - Ora, senhor! - gritou-lhe o interno. - Que  que quer que Madame Srizy possa saber?! O Sr. Husson disse claramente que era ele o visado. E que o doutor foi 
ferido de forma puramente acidental.
   Tomou o comissrio pelo brao e lhe falou em voz baixa:
   -  o seu dever, bem sei, mas, por favor, tenha um pouco de piedade desta jovem e infeliz senhora. Eles se amam tanto que ela mal se pode manter de p...
   Sverine viu o policiai encarregado do inqurito afastar-se, s ento compreendendo, com dificuldade, que permanecia livre.
   - O senhor falou com Husson? O senhor o viu?
   - Mas creio que acabei de lhe dizer, madame...
   Sverine ento se lembrou confusamente de que, durante o trajeto para o hospital, o interno lhe havia feito um relato que no penetrara em sua conscincia. Ela 
o fez repeti-lo. Somente a se estabeleceu para ela, com uma vivacidade terrvel, a conseqncia do salto que vira formar-se a partir dos msculos da nuca de Marcel. 
Mordeu os lbios, para no gemer:
   - Era a mim, era a mim que ele devia ter apunhalado.
   Como se o sentimento de sua responsabilidade agravasse de sbito o perigo que Pierre corria, murmurou:
   - Ele vai morrer.
   - Mas, no... Por favor, acalme-se - acorreu o interno. - A senhora j no ouviu a opinio do chefe? Srizy escapar, pode ficar certa.
   - Mas por que no se mexe?
   - Depois de um choque como esse,  muito natural. Mas ele viver, eu lhe juro.
   Sverine sentiu bem que, se essa certeza no era fingida, nem por isso dissipava inteiramente a inquietao do jovem amigo de Pierre. Mas no desejava continuar 
a interrog-lo. Que importavam os penosos e longos cuidados que seriam necessrios, diante do fato de que Pierre no morreria?
   Passou o resto da tarde ao p do ferido, que permanecia sempre imvel. Por vezes, tomada de pavor, Sverine se debruava sobre ele e ouvia o palpitar de seu corao, 
que batia docemente. Ento, tranqilizou-se e proibiu a si mesma de pensar no estranho abandono de todos aqueles msculos.
   Como a noite casse, o Professor Henri veio trocar o curativo e examinar a ferida. Malgrado seu, Sverine encarou aquela inciso sombria. Por ali se escoara o 
sangue mais precioso para ela, e talvez se escoasse algo ainda mais precioso. Conhecia a arma que abrira aquela ferida. Ao despir-se, Marcel sempre colocava sob 
o travesseiro um revlver e a faca-canivete de cabo de chifre amarelo. Sverine a tivera nas mos e brincara com a mola que fazia a lmina descobrir-se, de sbito.
   Rangeu os dentes.
   - Seria melhor que a senhora procurasse ir dormir em sua casa - aconselhou o professor. - Srizy ser bem tratado. Respondo por isso. E a senhora... a senhora 
vai ter necessidade de suas foras amanh. O dia de amanh  que  importante. No por causa da vida dele, mas... Enfim, veremos. Mas, por favor, v repousar.
   Ela obedeceu, com uma espcie de secreta satisfao. Mas no podia voltar para o seu apartamento. Um desejo surdo, irresistvel, tinha irrompido dentro dela, 
de uma forma de que s se apercebeu no momento em que disse ao chofer o endereo de Husson. Era projetada por uma espcie de lei de gravidade interna na direo 
daquele homem que fora o incio de tudo, por quem tudo parecia dever terminar e era o nico a conhecer tudo a seu respeito.
   To depressa Sverine se encontrou em presena de Husson, adquiriu a certeza de que ele a esperava.
   - Eu sabia - disse Husson, com voz ausente.
   Conduziu-a a um pequeno salo cheio de luxo e de tranqilidade. Se bem que o vero continuasse em plena fora, algumas achas de lenha flamejavam na lareira. Husson, 
sentando contra o fogo, deixou pender suas longas mos.
   - Nada de novo, no  mesmo? - perguntou, com a mesma distrao extravagante. ;- Acabei de telefonar ao hospital.  ao preo de minha vida que ele est dormindo 
l...
   Sverine se mantinha calada, mas um singular bem-estar se insinuava nela. A sociedade de Husson, sua companhia, era a nica que podia suportar. E era ele o nico 
capaz de lhe dizer as palavras, as nicas palavras que ela poderia compreender.
   Husson, de quando em quando, olhava para o fogo e para as suas mos, que incessantemente procurava aquecer junto s chamas. Parecia dar a impresso de querer 
derreter aquelas mos de cera. Prosseguiu:
   - Quando ele caiu, tive a certeza de que no morreria. Mas na expresso dele havia alguma coisa de pior que a morte.
   Ergueu penosamente os olhos para Sverine e perguntou:
   - Estava assim to certa de que eu falaria?
   Um ligeiro bater de clios foi a nica resposta da jovem mulher.
   - Como voc o ama - recomeou Husson, depois de um silncio. -'Um homem como eu no pode conceber isso... Eis a razo pela qual cometi esse erro. No tinha previsto 
at onde pode levar sentimento to intenso...
   Sverine aprovou essas palavras com um olhar atento. "Ele no podia compreender a melhor parte do meu ser", pensava, "ao passo que Pierre no podia compreender 
a pior. Se ele tivesse adivinhado, teria talvez me obrigado a ficar sempre perto dele, ou procuraria tratar-me. Mas, se tivesse adivinhado, ento no seria mais 
Pierre."
   - E o outro, com o seu punhal - disse subitamente Husson. - Que paixo, tambm!
   Sentiu um estremecimento e se aproximou um pouco mais da lareira. Sua cabea estava trmula, abalada por uma tristeza que sobrepassava os seres envolvidos em 
tais acontecimentos.
   - Sou o nico que no se apoiou em nenhum sentimento nobre - disse. - Vocs esto todos trs mortalmente feridos, ao passo que eu escapo ileso. Por qu? Em nome 
de qu? Para que eu possa recomear minhas pequenas experincias?
   Teve um dbil riso e continuou, pensativamente:
   - Como nos sentimos bem, reunidos aqui, esta noite. Em toda a Terra, ningum, nem mesmo os amantes mais vidos, tem tanta necessidade de algum esta noite como 
voc de mim e eu de voc.
   - Diga-me - inquiriu Sverine. - Quando viu Marcel, teve imediatamente o pensamento de que fora enviado por mim?
   Husson a corrigiu suavemente:
   - Por ns ambos.
   Depois, abandonou-se a um devaneio sem objeto. O rudo de uma respirao uniforme o tirou desse devaneio. Sobre o diva, em que se sentara ao entrar, Sverine 
dormia.
   - Quantas insnias e quantos tormentos foram necessrios para produzir esse sono - disse Husson a si mesmo. - E amanh...
   Pensava nos temores do Professor Henri, no inqurito que ia ser aberto. Como essa infeliz mulher de rosto infantil e dilacerado poderia defender o que ainda restava 
de claridade dentro dela? Ele, por certo, a ajudaria. Mas poderia evitar todas as conseqncias?
   Husson aproximou-se de Sverine. Ela dormia com tanta candura, com tamanha inocncia! Seria a mesma que vira prostrada sobre a colcha vermelha naquela casa aonde 
um dia de sol o enviara acidentalmente? E seria ele, naquele instante, o mesmo homem que, diante das splicas desesperadas de Belle-de-Jour, respondera com um gesto 
perversamente evasivo, um gesto que, na verdade, acabara por ferir a tmpora de Pierre? Seu prprio mistrio, por ele mesmo tantas vezes perscrutado, com uma avidez 
to pungente quanto v, parecia refletir-se sobre o casto rosto de Sverine.
   Afagou-lhe os cabelos com ternura, foi buscar a mais macia de suas cobertas e a estendeu docemente sobre ela, como se o fizesse sobre uma irmzinha exausta.
   Sverine dormiu, de um sono s, at s nove horas. Despertou com um sentimento puramente fsico de fora restaurada. Mas bem depressa arrependeu-se desse repouso, 
que a entregava por inteiro  sua angstia,  nica angstia que agora a dominava: o risco que corria a vida de Pierre. Todas as preocupaes que a tinham impelido 
 casa de Husson pareciam-lhe agora insignificantes e fteis, um simples resultado de sua fraqueza, de sua neurose. A lembrana de suas conversas, to carregadas 
de sentido na vspera, causava-lhe agora vergonha.
   Husson entrou. Experimentava o mesmo mal-estar. Ele tambm pudera dormir. As sombras se tinham dissipado. A vida dera mais um passo  frente. Toda a perspectiva 
se modificara. Os gestos, as palavras ditadas pela viso das grandes leis funestas, esses gestos e essas palavras essenciais no servem seno como testemunhas constrangedoras 
para uma sensibilidade que j no se mede por eles.
   - Recebi notcias - anunciou. - Sua vida est fora de perigo. Ele at mesmo voltou a si. Mas...
   Sverine no ouviu mais nada. Pierre recobrara o conhecimento, e ela no estava ao seu lado para recolher esse primeiro claro de sua conscincia. Como ele a 
devia ter esperado!
   Durante o trajeto, no pensou mais seno no sorriso de Pierre quando a visse a seu lado, em seu movimento para ela, em seus gestos certamente ainda fracos, quase 
imperceptveis mesmo, mas que ela saberia amplificar e reconstruir. A corrida em que se dilacerava ia-se aproximando do fim. Ele se recuperaria, ela o levaria consigo. 
Fariam, de novo, longos passeios  sombra das rvores, voltariam aos jogos esportivos nas praias, aos cnticos das montanhas sobre as neves lisas. Ele lhe sorriria. 
Ela lhe estenderia as mos.
   Pierre tinha os olhos abertos. Mas no reconheceu Sverine. Pelo menos, esta assim o sups. Como, de outro modo, poderia explicar-se a ausncia, no somente do 
menor gesto, mas de toda e qualquer expresso, daquela vibrao suprema que,  aproximao do ser querido, subleva at mesmo a carne prestes a dissolver-se? Pierre, 
contudo, no a reconhecia. E o choque, para Sverine, foi terrvel.
   Menos terrvel, no entanto, do que o choque que a abalaria alguns segundos depois. Debruara-se sobre Pierre e surpreendera ento nos seus olhos uma vacilao, 
um fogo tremulante, um apelo e uma queixa sem fim. Isso s poderia dirigir-se a ela. Mas, se ele a reencontrava, por que esse aterrador silncio, essa rigidez? Sverine 
fez um movimento de recuo, fixando a enfermeira e, depois, o interno. Eles baixaram os olhos.
   - Pierre, Pierre, meu pobre Pierre - gritou, numa espcie de rugido -, d-me uma palavra, um suspiro, eu te peo...
   - Acalme-se, eu lhe suplico por ele - articulou o interno, com dificuldade. - Creio que ouve e compreende tudo.
   - Mas que tem, ento? - gemeu Sverine. - No... No me diga nada!
   Que poderiam saber essas pessoas, mesmo as mais competentes? Ela, somente ela, que conhecia cada contrao desse rosto, poderia penetrar seu terrvel segredo. 
Dominando o terror, Sverine voltou-se para o leito, tomou apaixonadamente a cabea do marido e tentou atra-la para si. Mas suas mos, sem foras, no conseguiram 
ergu-la do travesseiro. Nada se modificara naqueles traos, em que reencontrou a mole apatia da vspera.
   O olhar de Pierre, no entanto, a reanimou. Aqueles olhos claros, aqueles olhos que tantas vezes vira risonhos ou graves, pensativos ou amorosos, estavam vivos. 
De que tinha tanto medo, ento? Ele estava apenas fraco demais para fazer um movimento, para emitir um som. Devia estar louca, para se espantar de tal coisa, para 
vir ainda tortur-lo com seus gritos e suas queixas.
   - Querido, meu querido, vais ficar bom - dizia. - Teus colegas me asseguraram, ests ouvindo? E o teu chefe tambm. Vers como depressa hs de ficar bom.
   Interrompeu-se e, no podendo mais conter-se, interrogou com angstia:
   - Ests-me ouvindo, Pierre? Um sinal, faze ao menos ligeiro sinal, para que eu saiba.
   Um esforo que ultrapassava humanamente as suas foras obscureceu os olhos do ferido, mas nada se mexeu na superfcie de seu rosto. E Sverine comeou a entrever 
o que significavam as reticncias do grande cirurgio e de seus alunos. Sem o claro cuja intensidade mudava incessantemente no olhar de Pierre, poderia ainda enganar-se. 
Mas agora a verdade se tornava por demais transparente. Pierre queria falar, queria mexer-se, mas parecia impedido, como se todo o seu corpo estivesse solidamente 
amarrado.
   Sverine ficou por longo tempo curvada sobre seus olhos, nica linguagem de uma inteligncia terna e profunda, que se esforava por interpretar. Falava, interrogava-o 
e procurava ler a resposta na varivel intensidade daqueles clares. Finalmente, para no rebentar em soluos, saiu.
   No corredor, o interno, que a seguira, lhe disse:
   - No deve desesperar, madame. S o tempo revelar o que pode ter sido irreparavelmente atingido.
   - Mas diga-me, por favor, que ele no vai ficar assim.  impossvel!  o que de pior poderia acontecer...
   Sverine se lembrou subitamente da frase de Husson: "H alguma coisa de pior, ainda, no ar..." E calou-se.
   - Durante a guerra - falou, sem convico, o jovem mdico -, algumas dessas paralisias desapareceram inteiramente. A recuperao dos feridos foi completa.
   - Paralisia, paralisia - repetiu surdamente Sverine.
   Enquanto no tinha sabido o seu nome, aquela imobilidade lhe parecera menos esmagadora. Achava que tal imobilidade dependia dela, que estava em seu poder remov-la. 
Ao passo que, agora, com essa etiqueta, entrava numa categoria annima e geral, submetida s leis sombrias a que todos esto sujeitos.
   - Agora, que a senhora sabe de tudo, permita que lhe d um conselho - retornou o interno. - No lhe fale demais. Procure fazer com que ele se d conta o menos 
possvel do estado em que se encontra...
   - Quer que o iluda?!
   - Sem dvida, tratando-se de Srizy, isso  mais difcil, mas, de qualquer modo, devemos procurar despist-lo um pouco. Temos o hbito, asseguro-lhe. Mesmo os 
crebros mais geis, durante uma doena, deixam-se levar...
   - No quero - interrompeu, quase selvagemente Sverine. - No, ele no est diminudo... Est intacto. Se o senhor no tem confiana, deixe-o comigo. Saberei 
perfeitamente bem cuidar dele...
   O interno reconheceu tratar-se de uma resoluo to poderosa e to firme, de um amor to intenso e forte, que teve vontade de apertar-lhe a mo, como a um colega 
mais corajoso.
   Sverine no deixou mais o quarto de Pierre. Dia e noite, pertencia a esses olhos que brilhavam como fanais perdidos. Sua prpria vida parecia ter sido no apenas 
suspensa, mas abolida. Que outro drama poderia comparar-se a esse, que se desenrolava interiormente, encarniado, nos limites exatos e imveis de um corpo impotente 
para traduzir os movimentos do esprito que o habitava? Mas, igualmente, que vitria sem paralelo tinha Sverine a sensao de conquistar, quando, pela manh, percebia 
movimentos vagos e indecisos nos lbios de Pierre! Eram um quase nada, uma vibrao apenas discernvel, mas Sverine tinha a certeza de no estar enganada. No curso 
desse dia, tal vibrao se repetiu e se afirmou. O Professor Henri acariciou a cabea do ferido com um gesto mais vivo que o da vspera.
   No dia seguinte, Pierre formou slabas. Seus dedos puderam traar fracas linhas sobre a coberta. Uma espcie de cntico triunfal encheu a alma de Sverine. No 
duvidava mais de uma cura completa, e a reserva dos mdicos a irritava.
   Ao cabo de uma semana, arrancou aos mdicos do hospital a autorizao de levar Pierre para casa. A ferida se fechava. Quanto ao resto, no depunha confiana seno 
em si mesma. Alis, se todo o corpo permanecia to bambo como depois da agresso, o torso e os braos executavam movimentos, ainda desordenados,  certo, mas at 
certo ponto satisfatrios. Alm disso, Pierre comeava a exprimir-se com relativa liberdade, e duas experincias demonstraram que j podia ler.
   
   
   Jamais Sverine pensara que o simples fato de instalar em seu apartamento um homem meio inutilizado poderia inspirar-lhe uma alegria to grande e to clara. Nada 
mais queria ver a no ser a boca de Pierre, antes de formar uma palavra, fazendo mil esforos, ou as suas tentativas para mover as mos, comeando sempre por fazer 
um movimento contrrio ao que desejava. Tudo iria recompor-se, tudo se restabeleceria, uma vez que ele estava de novo em seu quarto, uma vez que ao ver os seus livros 
ele j sorria de novo - sorriso tanto mais comovente por ser incompleto. No era preciso seno ter pacincia. E Sverine sentia que a sua, infinita e calorosa, estava 
pronta a triunfar de tudo.
   Esquecera-se completamente do fato de que aquela que to zelosamente cuidava de Pierre tivera uma outra mulher em seus flancos, uma mulher prostituda e assassina. 
Mas seria obrigada a lembrar-se disso no dia seguinte.
   A criada de quarto, jovem e submissa, que Sverine tinha a seu servio desde que se casara, abordou-a, nesse dia, com evidente embarao.
   - Eu no queria incomodar madame - disse ela -, enquanto madame estava no hospital, nem logo no primeiro dia em que voltou para casa... Mas, agora, gostaria de 
perguntar uma coisa... Madame viu os jornais?
   - No - respondeu Sverine, afirmando, alis, uma verdade.
   - Ah, bem, madame - continuou a criada, com certo alvio. - Mas, se madame tivesse visto o retrato do assassino...
   Sverine deixou que terminasse, mas j no ouvia nada. No havia necessidade de ouvir. A empregada reconhecera Marcel nas fotografias publicadas nos jornais.
   E Sverine teve a impresso de que o quarto, os mveis e a prpria mulher que, diante dela, continuava a falar (ouviu vagamente uma referncia a Boca de Ouro) 
estavam submetidos a uma grande e regular oscilao. Essa oscilao se apoderou, por fim, da prpria Sverine, que se viu obrigada a sentar-se.
   - Vejo que madame se acha to surpreendida quanto eu - prosseguiu a criada. - No quis dizer nada a ningum, antes de falar a madame. Mas, agora, vou prevenir 
o juiz...
   Como Sverine lamentou esse funesto retorno! No Htel-Dieu, longe do mundo e de seu passado, estivera garantida por uma espcie de direito de asilo. Como tivera 
a loucura de supor que estavam seccionados, para sempre, aqueles tentculos invencveis? Eles a envolviam de novo. Mas no seria bastante o que j sofrer? Que tributo 
teria ainda de pagar?
   - No  verdade, madame, que  esse o meu dever? - perguntou a criada.
   - Naturalmente - murmurou Sverine, sem saber o que dizia.
   Logo, percebeu as conseqncias de tal resposta. O inqurito passaria a ser dirigido contra ela, que se veria acusada de cumplicidade. Seria, decerto, presa, 
enquanto que Pierre, envolvido em seu sudrio de carne, ficaria sabendo tudo aquilo por cuja ignorncia pagara um preo to caro. Era uma suprema irriso.
   - Espere... No, no deve fazer isso! gritou Sverine.
   O espanto da empregada e seu ar de desconfiana restituram um pouco de sangue-frio a Sverine.
   - Quero dizer, seu testemunho... isto , o nosso testemunho - apressou-se a corrigir - no perder nada, se for feito daqui a dois... ou daqui a trs dias... 
No momento, no me posso ausentar, como bem sabe.
   - Farei como madame quiser, mas j estou sentindo remorsos por ter esperado tanto...
   De novo Sverine experimentou o sentimento que no mais esperava conhecer: a alucinao de animal acuado,  merc no de um perseguidor apenas, mas de toda uma 
matilha. Uma matilha que a sociedade estumava contra ela, implacavelmente. Quem, no entanto, assumiria o seu lugar junto de Pierre? Quem o socorreria? Quem lhe sorriria, 
quem o divertiria, quem o alimentaria, quem o faria dormir? Ela agora no pedia mais que esse humilde destino, e eis que at isso lhe era recusado.
   O pensamento da morte lhe veio e, nesse instante, acolheria com toda a sua alma extenuada o frio libertador. Mas acreditou ouvir um rudo no aposento em que Pierre 
se encontrava e, bruscamente, tudo nela se apresentara para o combate: seu amor ameaado, uma clera obscura, um desafio furibundo.
   - Irei at o fim - murmurou Sverine -, mas eles no lhe faro mal.
   Telefonou a Husson e pediu-lhe que fosse v-la.
   -  meu cmplice - pensava. - Ele o sabe. E me ajudar.
   Desde as primeiras palavras de Sverine, Husson se tornou muito atento.
   - O assunto  ainda mais grave do que pode pensar - disse ele. - V-se logo que no tem lido os jornais... A polcia j est de posse da pista...
   - A minha?
   - Quase... A boca desse rapaz se faz notar. Em casa de Anais, andaram falando nele. E foi fcil estabelecer que Marcel costumava ir todos os dias  Rua Virne 
para ver a mesma pessoa. Anais e as outras, atravs de fotografias que no pude evitar, tambm me reconheceram. A aproximao se impunha, entre a minha visita e 
o seu desaparecimento. Em suma: deduziram que Marcel se atirou contra mim por causa de uma mulher da casa de rendez-vous. Por outro lado, um agente de polcia e 
alguns transeuntes asseguraram ter visto uma mulher fugir num carro que, alis, outros passantes notaram estar estacionado, mas com o motor trabalhando, desde meio-dia 
a meio-dia e trinta, diante da praa... A imprensa est cheia de tais pormenores. Tudo, alis, se destinava a excitar a curiosidade popular: o ataque em pleno dia... 
Marcel e suas vrias alcunhas... o automvel misterioso e, sobretudo, a mulher fugitiva... No h um s jornal que no traga em manchete o nome de Belle-de-Jour.
   - Mais depressa, conte tudo depressa - pediu Sverine.
   - Isso  o que existe contra a sua pessoa. Mas, em compensao, h o fato de que, apesar de todas as buscas, o carro e o chofer no foram encontrados. E, mais 
ainda, h principalmente o silncio de Marcel.
   Silncio quase herico, uma vez que, falando, ele teria a culpa muito atenuada. Mas ele se calar.  coisa fcil de perceber. Enfim, se a pista material  justa, 
a pista moral  completamente falsa. At o presente momento, a polcia, a Justia, a imprensa acham-se persuadidas de que Belle-de-Jour ... Espero que me desculpe.
   - Mas fale de uma vez... Que espera ainda? Que eu fique chocada?
   Ele se admirou por ter ela se despojado a tal ponto de quaisquer cuidados com a sua prpria pessoa, por amor a Pierre. Mas o outro, o rufio, no se arriscava 
ao degredo e  priso com trabalhos forados? Foi com esse pensamento que Husson recomeou:
   - Para todos, Belle-de-Jour  uma mulher pblica... E, uma vez que no deixou na Rua Virne trao algum de sua identidade, no h nenhuma possibilidade, mas nenhuma 
mesmo, entre as que so previsveis, de vir a ser estabelecida uma ligao entre Belle-de-Jour e... Madame Srizy. Mas deve compreender: se sua empregada dizer uma 
s palavra, se o menor fio conduzir at aqui, tudo estar perdido.
   - Mas negarei... direi que ela mente... que se trata de uma vingana... que ela...
   - Suplico-lhe - disse-lhe Husson, tomando-lhe as mos. - Este  um momento em que precisa raciocinar claramente.  evidente que no acreditaro s na palavra 
de sua empregada. Mas, desde que Madame Anais e as outras tambm a reconheam...
   - Oh, sim... Charlotte... Matilde - sussurrou Sverine. - E todos... todos aqueles homens....
   Comeou a desfiar uma cadeia de nomes, como se estes no passassem de um terrvel murmrio de que ela se fazia eco: Adolphe... Lon... Andr... Louis... E vrios 
outros. E outros ainda.
   - E tudo isso ir para os jornais - falou Sverine, lentamente. - E Pierre lera, porque j pode ler. E eu, que fiquei to feliz, quando descobri que ele j podia 
ler!
   Gargalhou subitamente. E sua gargalhada parecia estranhamente com uma outra, sada de algum que tinha a boca guarnecida de ouro. E ela depois sussurrou:
   - Mas, afinal, ela no dir nada.
   Sverine tentou retirar as mos das mos de Husson, que as prendia. E ele as apertou ainda, ao dizer:
   - Lembre-se de que Marcel est agora na priso, e no acredito que uma mulher de sua espcie seja capaz de, com suas prprias mos...
   Ela estremeceu. Era verdade. Bem que teria gostado de. ,.
   - Vejamos - sugeriu Husson. - Bastante dinheiro no lhe compraria o silncio?
   - No. Ela est comigo h longo tempo. Eu a conheo. No gosto de ter seno pessoas honestas ao meu redor...
   - Ento...
   Husson largou as mos de Sverine, porque as dele prprio comeavam a tremer. E se despediu, sem pedir para ver Pierre.
   Depois da visita diria do Professor Henri, ela chamou a criada de quarto. Disse-lhe que o mdico recomendara que no sasse por longo tempo e suplicou-lhe que 
no fizesse o seu depoimento ou, pelo menos, o adiasse para uma data indeterminada.
   Mas tudo quanto obteve da empregada, j carregada de suspeitas, foi o adiamento por uma semana.
   No curso dos dias que precederam o crime, Sverine pensara que nada poderia ultrapassar a sua tortura. No se apercebera de que, nesse domnio, no h limites. 
Mais de uma vez veio-lhe ento  memria um provrbio estrangeiro, que Pierre lhe havia traduzido assim: "A bondade de Deus consiste em no dar ao homem tudo quanto 
ele  capaz de sofrer." Agora, Sverine sentia estender-se ao infinito o campo de seu martrio. Cada hora lhe impunha mais um dilaceramento imprevisto, porque cada 
hora lhe demonstrava, mais e mais, a absoluta necessidade que Pierre tinha dela.
   O sorriso doentio e a alegria de pobre que brilhava em seus olhos quando ele a via e que, no Htel-Dieu, eram para ela como ddivas maravilhosas, tornavam-se 
agora outros tantos golpes terrveis. Que seria dele, quando ela fosse presa? E quando ele, afinal, soubesse que ela, no contente em infamar o seu amor, ainda arrebatara, 
pela lmina de um amante recolhido na sarjeta da prostituio, sua bela fora e a sua juventude? Ah, antes Husson lhe tivesse contado sem obstculos a sua descoberta!
   Sim, porque Pierre teria ento, para defender-se, um corpo jovem e sem falhas, um trabalho animado e absorvente. Ela ou estaria morta ou, se a coragem lhe tivesse 
faltado, estaria unida a Marcel. A lama de suas existncias desclassificadas a sepultaria nos profundos abismos do esquecimento. Bem que ouvira falar, na Rua Virne, 
de mulheres que se tinham degradado a tal ponto e cujo belo passado s vezes ainda subia  superfcie do charco de suas vidas, quando sob o efeito do lcool ou das 
drogas entorpecentes.
   O lcool... os entorpecentes... Sverine j se teria tornado, tambm, escrava deles, pois chegara a experimentar tal desejo durante aqueles dias que lhe lesavam 
tanto, aqueles dias de chumbo. Mas no tinha > direito de lanar mo disso. No podia nem pensar... Sua obrigao era parecer alegre e serena, quando estivesse perto 
de Pierre. E precisava estar sempre perto dele.  claro que ele no exigia a presena assdua de sverine. Nem mesmo a solicitava. Mas, quando ela deixava o quarto 
dele, a fisionomia abandonada de Pierre, na sua fixidez ansiosa, parecia exalar uma splica, uma prece invencvel.
   Sverine se dirigira ao aposento vizinho, para ler DS jornais. Agora, todas essas folhas, principalmente as mais sensacionalistas, a fascinavam. Estavam cheias 
de pormenores a respeito do crime misturando em igual dose fantasia e verdade. O resto era conhecido: o enigma de Belle-de-Jour condensava todo o interesse. Os reprteres 
interrogavam Madame Anais e suas pensionistas. Os vestidos que Belle-de-Jour escolhera para as suas idas  Rua Virne eram minuciosamente descritos. Discutiam-se 
as horas em que estivera presente. Por fim, um jornalista apresentou-se em casa dos Srizy.
   Sverine acreditou ter sido j descoberta, mas o jovem homem de imprensa queria apenas saber notcias do ferido. Essa visita fez Sverine notar que Pierre no 
estava mais apresentando melhoras. E,  noite, o Professor Henri lhe disse, com uma doura que no era habitual nele:
   - Srizy ficar mais ou menos assim; conservar toda a sua inteligncia, far alguns progressos no modo de falar, no movimento do pescoo e dos braos. Mas, a 
partir da bacia, sua carne est morta.
   - Obrigada, doutor - respondeu Sverine. Tinha vontade de rir, de rir interminvel e convulsivamente. Eis ao que conduzira Pierre: ele no podia mais viver como 
o resto dos homens, mas conservava toda a capacidade de sofrer que estes tm.
   No dia seguinte, Pierre pediu os jornais. O professor lhe havia permitido a leitura.
   - Pensa por demais nisso para que possamos priv-lo - dissera ele a Sverine.
   E o prprio Pierre, vendo a hesitao mortal de Sverine, articulara:
   - No tenho medo...
   Parecia ter querido acrescentar querida, mas essa era uma das palavras que ainda no conseguia formar.
   Suas mos vagabundearam por algum tempo, antes que ele conseguisse tocar no que desejava. Sverine o ajudou, virando as pginas dos jornais. Como no se falava 
seno de Belle-de-Jour, Pierre se interessou, com a curiosidade dos doentes, por essa mulher pela qual, sem nenhuma razo, fora ferido.
   Ainda no podia falar direito, mas aqueles olhares expressivos, dirigidos a Sverine, cada vez que lia o nome de Belle-de-Jour, eram um suplcio a mais para ela. 
Em breve, esses mesmos olhos, mais cheios dela do que nunca, veriam numa dessas pginas o retrato de Sverine, sob a alcunha que os jornais haviam celebrizado. O 
prazo concedido pela empregada estava chegando ao fim... Na tera-feira pela manh, o juiz de instruo do processo saberia. E era j sexta-feira.
   No domingo, a empregada veio prevenir Sverine de que a chamavam ao telefone.
   -  um Sr. Hiplito - informou, com repugnncia. - Ele tem tambm uma voz esquisita.
   Sverine hesitou em tomar nas mos o aparelho de escuta. Que iria ouvir ainda? E em quantos dias, em quantas horas, seria abreviado o exguo armistcio que lhe 
fora dado? Teve medo de desencadear novo desastre. Mas Hiplito, sem dar maiores explicaes, exigia v-la, imediatamente, no embarcadouro do lago do Bosque de Boulogne.
   
   
   Hiplito olhava pesadamente o pequeno movimento ondulatrio que o vento provocava na superfcie do lago. Tinha as espduas um pouco mais curvadas, o que nas semanas 
anteriores pareceria impossvel. E as suas bochechas gordas exibiam a cor do arsnico. Quando Sverine o abordou, seu enorme corpo estremeceu ligeiramente e um ricto 
mortal marcou-lhe os lbios.
   - Entra a - disse, numa voz morta, mostrando-lhe o barco que alugara.
   Sverine ficou certa de que ele ia mat-la. E uma grande paz desceu sobre ela. Hiplito tomou os remos nas mos enormes e remou. Remava sem ardor, mas a sua fora, 
ainda que no a empregasse toda, era tal, que, em pouco, estavam no meio do lago. Deixou ento os remos em repouso e falou, com lassido - tom que manteve at o 
fim da conversa:
   - Aqui se pode conversar. Num bar, poderamos ser denunciados. Enquanto que aqui...
   O barco estava perdido no meio de mil outros, cheios de algazarra, naquele domingo de vero.
   - Marcel me fez saber que desejava que eu te visse - continuou Hiplito - e te dissesse que est tranqilo. No te indicar  Justia.  a idia l dele. Quanto 
a mim, digo-te, se fosse eu quem estivesse envolvido no caso, j tinha batido com a lngua nos dentes. Enfim, isso  problema l dele. Tem um bom advogado, que eu 
escolhi. Com Belle-de-Jour ao lado, no banco dos rus, ele poderia sair fagueiramente. No haveria premeditao. Seria um drama passional. Era at bonito. Confesso-te, 
francamente, que, mesmo contra a vontade dele, eu te denunciaria. Mas o garoto  o diabo. Proibiu-me, dizendo que, se eu o fizesse, ele botava a boca no mundo e 
contaria, tintim-por-tintim, a histria dos dois homens que matou. E sei que contaria mesmo. A natureza dele  assim.
   Apertou um pouco- mais os maxilares e suspirou:
   - Tens uma sorte e tanto, isso te posso dizer! Albert te salvou do flagra e eu agora me calo. Bem... Marcel quer que eu te diga agora o que espera de ti. Ir 
para os trabalhos forados. Depois, voltar. Ns o ajudaremos a sair o mais depressa possvel. E o que ele quer  que continues a ser a mulher dele. Tu me entendes...
   Hiplito a encarou duramente, mas Sverine gemeu:
   - De que adiantam todos esses planos? Depois de amanh, Juliette ir ao juiz de instruo, e serei presa.
   - Quem  essa Juliette?
   - Minha criada de quarto. Viu Marcel em minha casa.
   - Espera - disse Hiplito.
   Seguiu-se uma profunda meditao. Sem que ele interviesse, um depoimento imprevisto poderia fazer descobrir Belle-de-Jour. Seus interesses e a honra de Marcel 
estariam a salvo. Nenhum deles a teria denunciado. Mas aceitaria Marcel a neutralidade de Hiplito? No se vingaria depois, com o encarniamento habitual, como se 
fosse o prprio Hiplito o autor da delao? Todas essas possibilidades contrrias e o seu dever de amigo foram pesados por Hiplito  durante os longos minutos 
em que, sem Sverine saber, seu destino esteve em jogo.
   - Ela poderia ir ao juiz de instruo - soltou por fim Hiplito - e isso no mudaria em coisa alguma a face das coisas, se eu quisesse que no mudasse. Anais 
e suas mulheres, eu as teria e tenho sob o meu controle. No precisarias seno negar. E ningum deixaria de acreditar na tua palavra, em vez de acreditar na da tua 
criada. Mas  bem melhor que ela no v depor.
   - E o senhor vai?... - murmurou Sverine, prevendo o pior.
   - No tenhas medo. Sou incapaz de atentar contra a vida de algum, a no ser de raro em raro e quando  absolutamente necessrio. Eu lhe falarei. E isso bastara. 
Como teria falado a qualquer outra pessoa que tivesse faltado com a lealdade a Marcel.
   Dirigiu o barco para a margem do lago. Antes de encostar no pequeno cais, perguntou a Sverine:
   - No queres mandar dizer nada a Marcel? Sverine olhou Hiplito face a face:
   - Quero apenas que ele saiba que, depois de meu marido, no h homem no mundo a quem eu ame mais do que a ele.
   Seu tom pareceu ter comovido Hiplito. Ele balanou a cabea e disse:
   - Teu marido, segundo li, est meio inutilizado... E eu ainda h pouco dizia que tinhas sorte! Todo esse golpe foi mal sucedido: o tiro saiu pela culatra. Enfim, 
quanto a essa Juliette, podes ficar descansada. Vai cuidar tranqilamente do teu invlido, minha pobre filha.
   
   
   Sverine, ao voltar, encontrou o Professor Henri sentado perto de Pierre.
   - Aproveitei o domingo para vir ficar um pouco com Srizy - esclareceu o cirurgio. - Expliquei-lhe o estado em que se encontra. Aconselho-a a lev-lo para a 
costa do Mediterrneo, daqui a uma quinzena. O sol lhe far bem aos msculos.
   - Ento, querido, ests contente? - perguntou ela, quando ficaram a ss.
   Sverine tentara imprimir alegria s palavras, mas os momentos que acabara de viver tiravam todo o colorido de sua voz. Fenmeno estranho - nem ao menos se sentia 
aliviada. No entanto, estava certa de que a palavra de Hiplito seria cumprida. Juliette, com efeito, despediu-se no dia seguinte, sem aceitar qualquer pagamento 
a ttulo de indenizao. Mas essa segurana, em que j no depositava qualquer esperana, em vez de ench-la de alegria, cavava dentro dela uma espcie de vazio 
sem forma e sem nome, em que tudo se abismava. Seu estado era igual ao de um corredor que, tendo feito um esforo excessivo, cai ao p da fita da chegada.
   Repetia penosamente:
   - Ests contente, no  mesmo?
   Pierre no respondeu. Ela viu, ento, que o crepsculo cara e no podia mais discernir as reaes de uma fisionomia que agora as exprimia mal. Acendeu a luz 
e, sentada entre aquelas pernas mortas, interrogou os olhos do marido, como habitualmente fazia.
   E ento Sverine conheceu um sofrimento mais cruel do que todos aqueles que vinham esmagando o seu msero corao. E, com um imenso constrangimento, ou, pior 
ainda, com uma grande vergonha, eis que Sverine descobriu, no olhar trmulo de Pierre, infantil e fiel, o imenso desgosto que ele tinha de seu corpo arruinado, 
de se ver condenado a receber para sempre os cuidados dela - dela a quem outrora to desveladamente protegera.
   - Pierre, Pierre... eu me sinto feliz contigo - balbuciou Sverine.
   Ele tentou balanar a cabea e, com dificuldade, mal conseguiu formar algumas palavras, que se escaparam, entrecortadas, de seu lbios retorcidos:
   - Pobre... Pobre... O Sul... a cadeira de rodas... perdo.
   - Cala-te, por piedade. Cala-te!
   E era ele quem lhe pedia perdo. Era ele quem, durante o resto da vida, iria considerar-se um fardo insuportvel e - ela bem o sabia - procurar morrer para libert-la.
   - No, no! No me olhes assim - gritou subitamente Sverine. - No posso mais...
   Colou a fronte contra aquele peito outrora to robusto e to quente. Toda aquela luta e sua sada, quase miraculosa, dos perigos e ciladas que a envolviam, voltavam-se, 
agora, contra Pierre! Quanto mais aos seus olhos ela parecia pura e irreprochvel, tanto mais ele sofreria com os cuidados de que o cercaria. Ela... ela que...
   Sverine no sabia mais o que fazer. Perguntava a si mesma onde estaria o verdadeiro bem, o caminho justo. E implorava uma luz, um choque, um relmpago esclarecedor.
   Enquanto, nessa febre desesperada, aconchegava-se mais e mais ao peito de Pierre, sentiu que as mos dele, mal disciplinadas, tentavam acariciar-lhe os cabelos. 
Essas mos de enfermo, intoleravelmente confiantes, encerraram o debate interior de Sverine. Ela decidiu que aquilo no poderia mais prolongar-se. Seria impossvel. 
E falou.
   Como explicar tal movimento? Pela impossibilidade de continuar a mostrar uma virtude falsificada quele a quem amava com um amor infinito? Pela necessidade, menos 
nobre, da confisso? Pela esperana subterrnea de ser perdoada apesar de tudo e de viver sem o fardo de um horrvel segredo? Quem poderia esmiuar todos os elementos 
que, depois de transes to terrveis, se agitam e se fundem num corao humano, precipitando-se, depois, sobre os lbios trmulos?
   
   
   Trs anos se passaram. Sverine e Pierre vivem numa pequena praia muito acolhedora. Mas, depois que falou, nunca mais Sverine ouviu a voz de Pierre.
